É hora de transformar promessas em medidas concretas, diz superintendente de Meio Ambiente do BNDES
Para Nabil Moura Kadri, COP-30 é a conferência 'da ação' e será preciso encontrar 'fontes adicionais de recursos' para atender às metas climáticas
ESPECIAL PARA O ESTADÃO - Às vésperas da COP-30, que será realizada no Brasil em novembro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se prepara para apresentar um portfólio de iniciativas e balanços na agenda climática.
À frente da área de Meio Ambiente da instituição, o superintendente Nabil Moura Kadri destaca que esta será "a COP da ação", momento para transformar promessas em medidas concretas.
Com histórico de atuação em instrumentos inovadores de finanças climáticas, o BNDES planeja novidades para levar à conferência, com o objetivo de reafirmar seu papel estratégico no financiamento de soluções sustentáveis.
Nabil Moura Kadri é um dos painelistas confirmados no Summit ESG, evento promovido pelo Estadão na próxima quinta-feira, 21 de agosto, em São Paulo (inscrições neste link). A seguir, confira os principais trechos da entrevista.
Em novembro, o Brasil sediará a COP-30. Como estão os preparativos por parte do BNDES? Podemos esperar algum lançamento por parte do banco?
Com certeza teremos anúncios da parte do BNDES em diversas frentes. Estamos nos preparando para levar para a COP não apenas novas iniciativas, entregas e anúncios, mas também pensamos em fazer um balanço da nossa atuação, como instrumento implementador de políticas públicas do governo brasileiro. O BNDES tem um papel importante na gestão de instrumentos inovadores de finanças climáticas e levaremos essa experiência para compartilhar.
Qual a expectativa para a COP-30? Quais acordos ou debates precisarão ocorrer para considerarmos o evento um sucesso?
Do ponto de vista do BNDES, temos trabalhado para que tenhamos debates de alto nível. Esperamos contribuir para que pontos ainda em discussão tenham seu devido espaço. Lembrando que aqui não estamos falando de negociações no âmbito da COP, mas sim de discussões técnicas sobre os temas relacionados. O sinal que todos recebemos da presidência da COP-30, em sua segunda carta, é de que essa é a COP da ação. A Agenda de Ação propõe transformar promessas climáticas em medidas concretas. Assim, temos a expectativa de poder mostrar ao mundo que é possível fazer diferente, inovando e mobilizando recursos para a transição climática justa que tanto precisamos.
O BNDES já está se preparando para operar com novas estruturas e critérios baseados no NCQG? Como isso se conecta com o Fundo Amazônia e outras iniciativas?
O BNDES tem diversos programas, produtos e fundos que podem ser utilizados como fonte de financiamento climático. Já contribuímos muito para a implementação das estratégias de transição ecológica, financiando setores como energias renováveis, mobilidade urbana e, recentemente, num grande esforço de estruturação do setor de restauração florestal no Brasil, com o lançamento de iniciativas e programas estruturantes como o BNDES Florestas e o Profloresta+.
Como o sr. avalia o atual momento do Fundo Clima? Há perspectiva para inovações?
Criado em 2009, o Fundo Clima é hoje um dos principais fundos nacionais de mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas do mundo. O fundo investe recursos reembolsáveis, via BNDES, e não reembolsáveis, via Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), para apoiar projetos ou estudos e financiamentos de empreendimentos que visem a mitigação e a adaptação à mudança climática e aos seus efeitos. O desempenho recente do Fundo Clima reflete uma nova fase, com uma série de mudanças positivas. Esse instrumento criado para dar suporte à Política Nacional de Mudanças do Clima tem sido o principal instrumento financeiro para fomentar a transformação que precisamos. Mudamos a escala com a internalização de recursos anuais em valores muito superiores ao que foi o histórico do fundo. Em 2024, chegamos a mais de R$ 10 bilhões em aprovações. São muitos projetos emblemáticos que apontam para uma mudança estrutural que reduz emissões e nos torna mais adaptados aos eventos climáticos extremos.
O sr. acredita que haja espaço para novos fundos, além do Fundo Clima e Fundo Amazônia?
Sempre é possível aprimorar e termos novos instrumentos, que podem se beneficiar de avanços e novas visões dos atores envolvidos. Da mesma forma, os instrumentos já existentes podem, dentro das suas particularidades, serem aprimorados para atender às novas demandas. A necessidade de mobilização de recursos para a transformação que precisamos exige que fontes adicionais complementem aquelas já existentes.
Qual o balanço sobre o mercado de crédito de carbono no Brasil? O que ainda pode ser feito para contribuir para o avanço desse setor?
O BNDES lançou recentemente o ProFloresta+, em parceria com a Petrobras, com foco na restauração ecológica da Amazônia, gerando créditos de carbono a partir da recuperação de áreas degradadas. A iniciativa permitirá maior transparência com a divulgação do preço contratado, com a Petrobras atuando como compradora antecipada dos créditos e o BNDES oferecendo crédito aos desenvolvedores dos projetos. O potencial de replicabilidade da iniciativa poderá contribuir muito para o avanço dos projetos de restauração na região.
Quais iniciativas ou mudanças institucionais dos últimos anos feitas pelo BNDES o sr. acredita que deixaram um legado concreto para o fortalecimento de financiamentos sustentáveis no Brasil? Quais foram (ou ainda estão sendo) os principais aprendizados nesse processo?
O BNDES avançou muito na agenda, não só nos últimos anos, mas também ao longo de sua jornada, desde a criação da primeira unidade de meio ambiente da instituição, por ocasião da Rio-92. A atuação do Fundo Amazônia ao longo de 17 anos (comemorados na semana passada) é reconhecida internacionalmente e seus resultados são vistos na região, com alternativas de geração de renda para populações locais, com fortalecimento no combate a ilícitos e a incêndios na região. O Fundo Clima, em sua nova escala, tem se traduzido em novos projetos nos seus diversos subprogramas, com destaque para florestas e recursos direcionados à restauração ecológica, com espécies nativas. A iniciativa Floresta Viva, mecanismo de matchfunding que até então não havia sido implementado no setor, alavanca o apoio com recursos privados, mostrando que é possível sim haver atratividade para o capital privado. O BNDES Azul, com iniciativas de apoio a manguezais e ao planejamento espacial marinho, será instrumento importante para o uso sustentável de recursos marinhos. Somado a isso, destacamos as iniciativas BNDES Corais, para conservação de corais, e a BNDES Biodiversidade - Ilhas do Futuro, Ninhos Protegidos, para proteção e conservação de ilhas marinhas importantes para reprodução de aves em nosso litoral. Todas essas iniciativas são importantes em nossa jornada. Em cada uma delas, tivemos diversos aprendizados, que foram sendo incorporados ao longo do tempo nas novas ações.
Serviço
O que: Summit Estadão ESG
Quando: 21 de agosto
Onde: Teatro Bravos (Rua Coropé, 88 - Pinheiros)