Definição de renda da classe média é puramente científica
A fim de determinar faixas de renda que orientassem a pesquisa Vozes da Classe Média, levantamento publicado no início deste mês que visa delinear o perfil e as opiniões desse estrato social no Brasil, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR) montou, em setembro de 2011, uma comissão especial para definir quem são os integrantes do grupo que o estudo trataria. Segundo o relatório divulgado pelo órgão, são classificados como classe média os brasileiros cuja renda familiar per capita se encontra entre R$ 291 e R$ 1.019, e o tamanho estimado desse segmento social para 2012 é de 54% da população.
Contudo, entre os achados estatísticos e a concepção popular da expressão, existe um terreno vago que deve ser levado em conta na interpretação dos resultados da pesquisa. "Na cabeça das pessoas, classe média é quem tem casa própria, seu carro, um padrão de vida razoável. Mas quando se olha para os dados, eles contam uma outra história", ressalta o economista Adolfo Sachsida. Existem muitas definições para o termo "classe média" propostas por cientistas sociais e órgãos como o Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); a comissão reunida pela SAE/PR sugeriu como principal critério metodológico o grau de vulnerabilidade ‒ que avalia a probabilidade de retorno ou permanência na condição de pobreza nos próximos cinco anos ‒, baseando-se em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).
O estudo aponta a renda familiar per capita de R$ 440 como a média de distribuição entre a população brasileira. A partir disso, tomando-se o termo em sentido literal, a classe média compreenderia os brasileiros cuja renda está em torno dessa quantia, 50% acima e 50% abaixo ‒ o suficiente para garantir bens primários, como alimentação e transporte, e o consumo de produtos mais sofisticados, como bens duráveis e eventuais viagens. Isso explica porque uma pessoa cuja renda é inferior a um salário mínimo pode ser considerada classe média, enquanto alguém que mora sozinho e ganha quase R$ 2.500 mensais é estatisticamente enquadrado na baixa classe alta. "A classe média como um todo acaba tendo um poder de compra alto porque é muito numerosa, mas individualmente, são pessoas que nem sempre ganham tão bem", explica Sachsida.
Os componentes regionais também são importantes na hora de avaliar o poder de compra que a faixa social representa: o valor de R$ 500 em uma cidade no interior do Nordeste é muito superior ao da mesma quantia no centro de São Paulo, por exemplo. Segundo o economista, o principal obstáculo na aproximação entre a classe média das tabelas estatísticas e do imaginário social é a dificuldade de coletar dados mais precisos sobre a situação econômica de cada grupo social, o que leva pesquisas como o PNAD a se basearem nos níveis de renda. "A pesquisa tem uma conotação científica, está direcionada para políticas públicas. Quando ela ganha o grande público, que muitas vezes não está habituado com essa linguagem, as pessoas podem pensar 'agora está mais fácil ter a minha casa, o meu carro', e, no fundo, não é isso que ela está dizendo", destaca Sachsida.