Campos Neto: Quebra de sintonia entre política fiscal e monetária dificulta corte de juros
Na avaliação do ex-chefe do BC, bancos centrais estão indo numa direção e a política fiscal dos países, em outra; a inflação não tende a baixar tão cedo na economia mundial, projeta
Ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto avalia que a quebra de sintonia entre a política fiscal e a monetária em diversos países dificulta o corte de juros. Se na entrada da pandemia a coordenação entre essas duas políticas foi fácil e rápida, desde a saída da emergência sanitária não está sendo nem um pouco, disse o economista em um debate ao responder a pergunta sobre a pressão de governos para os bancos centrais reduzirem juros.
"Os bancos centrais estão indo para um lado, e a política fiscal não está acompanhando", disse Campos Neto. Para o ex-BC, isso é um desafio para o banqueiro central, porque o BC será culpado pelos governos, uma vez que sua missão é controlar preços, mas a inflação está alta. E para Campos Neto, a inflação não tende a baixar tão cedo na economia mundial.
A economia mundial está em um ambiente de dívida mais alta com inflação mais elevada, o que significa dívida maior com juro mais elevado, disse ele em um debate com o fundador do Nubank, David Vélez. E muitos governos querem resolver a questão fiscal com mais impostos. Ele citou que no pós-pandemia 92% das ações dos governos no mundo foi para aumentar impostos e só 8% foi reduzir gastos públicos.
Para resolver o ambiente com dívida alta, especialmente em emergentes e no Brasil, diz Campos Neto, não é preciso mais setor público, e mais gastos, e sim estimular o setor privado e os investimentos. Quanto mais cedo se resolver a dívida pública elevada, menor os custos para a sociedade.
Campos Neto disse que, com a pandemia, a dívida de muitos países cresceu, por conta de programas de auxílio e transferência de renda. E só parte pequena dessa dívida se reduziu no pós-pandemia.
"A pandemia foi a maior coordenação entre política monetária e fiscal da história", disse o ex-presidente do BC.
Coletivamente, 75% do Produto Interno Bruto (PIB) do mundo foi gasto em menos de 18 meses e os juros quase zerados no mundo, inundando as economias de liquidez. "Mesmo países que tinham juros altos como o Brasil, a taxa foi reduzida."