Campos Neto: Ficou muito confuso para o investidor estrangeiro entender o arcabouço fiscal
'Grandes investidores não estão olhando o que está (dentro do arcabouço) e o que não está, estão olhando como vai ser a trajetória da dívida nos próximos anos', diz o ex-chefe do BC
O economista Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central (BC), afirmou nesta segunda-feira, 25, que "ficou muito confuso" para os investidores estrangeiros entenderem o arcabouço fiscal criado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A declaração foi feita no Seminário Brasil 2025 do Grupo Esfera Brasil, em São Paulo.
O arcabouço fiscal substituiu o teto de gastos implantado em 2016, no governo de Michel Temer (2016-2019). Combina um limite de despesa mais flexível do que o teto de gastos com uma meta de resultado primário (resultado das contas públicas sem os juros da dívida pública) e, entre outras regras, limita o crescimento da despesa a 70% da variação da receita dos 12 meses anteriores.
"No final das contas, grandes investidores não estão olhando o que está (dentro do arcabouço) e o que não está. Eles estão olhando como vai ser a trajetória da dívida nos próximos anos", disse Campos Neto. "Eles falam: o que precisamos ver para ter déficit nominal menor para que eu consiga gerar um primário e equilibrar a dívida? Eu preciso ter um juro de ao menos 7% a 8%", disse.
O ex-banqueiro central criticou o tamanho da máquina pública vinculada ao governo federal. Segundo ele, trata-se de um "governo maior que não oferece os serviços compatíveis com outros governos desse tamanho". Campos Neto destacou que o ritmo de gasto é muito maior do que outros e cada vez mais vai custar mais recursos.
"Precisamos repensar esse modelo. (...) Existia uma crença de que um Estado maior seria eficiente e fomentaria o crescimento. Não deu certo. Já tivemos essa experiência antes e não deu certo", continuou Campos Neto. "Precisamos ter coragem para debate duro junto com governo que tenha disposição de enfrentar esse problema, com Congresso que tenha disposição e dialogar com o Judiciário, porque as coisas sempre podem ser judicializadas no País."
Segundo o ex-presidente da autoridade monetária, a taxa básica de juros, hoje de 15% ao ano, pode não cair abaixo de 11% ou 12%.