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BCs terão de atravessar o rio pisando pedra sobre pedra, diz Otaviano Canuto, ex-Banco Mundial

Ex-secretário do Ministério da Fazenda projeta IPCA entre 8,5% e 9% e taxa Selic em 13,25% ao final do ano

17 mai 2022 15h10
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Otaviano Canuto, ex-vice presidente do Banco Mundial, membro sênior do Policy Center for the New South e membro sênior não residente da The Brookings Institution, avalia que os banqueiros centrais terão de "atravessar o rio pisando pedra sobre pedra" neste ciclo de aperto monetário para domar a inflação global. Ele diz acreditar que, na hipótese de que os choques de juros e o aperto quantitativo nos EUA não sejam extraordinários, os efeitos no Brasil não devem ser "dramáticos".

Sobre a inflação brasileira, o também ex-secretário de assuntos internacionais do Ministério da Fazenda projeta o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminando o ano entre 8,5% e 9%, com a taxa Selic em 13,25% ao ano. Veja a seguir a entrevista de Canuto ao Estadão/Broadcast.

Em que medida a inflação no mundo pode ser importada pelo Brasil neste ano?

A inflação no mundo subiu por conta dos choques de preços de commodities após a invasão da Ucrânia pela Rússia, assim como dos gargalos em cadeias de suprimento decorrentes da guerra e das sanções sobre a Rússia. Cabe incluir aí os problemas de suprimento causados pela política de covid-zero na China. Além disso, claramente o ritmo de expansão da demanda agregada nos Estados Unidos e, em certa medida, também na Europa, tem estado acima da capacidade de oferta. Desses fatores, o Brasil importa o efeito de commodities mais caras no mundo, com estes se transmitindo através de preços mais altos de energia e alimentos. O efeito não tem sido mais dramático por causa da valorização do real no ano, pelo menos até sua reversão parcial mais recentemente. Por conta de juros lá fora e da piora nas expectativas de desempenho econômico global, creio que essa reversão parcial da taxa de câmbio deve continuar até levá-la de volta à casa dos R$ 5 por dólar.

O ritmo mais veloz de aperto monetário brasileiro pode ajudar de que maneira, considerando um Fed mais agressivo para controlar a inflação nos EUA?

Há dois aspectos a considerar no aperto monetário no Brasil. Primeiro, tem sido uma normalização da taxa básica de juros depois do patamar extraordinariamente baixo em que esteve durante a pandemia. Segundo, mesmo sem que a economia brasileira esteja se defrontando com alguma situação de superaquecimento da demanda, como nos EUA, cumpre à política monetária combater os efeitos secundários dos choques de preços, de modo a impedir que as expectativas se desancorem e os choques se desdobrem em inflação estavelmente mais alta.

O BC brasileiro vive um trade-off entre mais inflação e levar o país a uma recessão. Como equilibrar tal situação?

O BC deverá levar a taxa de juros a algum nível real acima de zero levando em conta as expectativas de inflação no correspondente horizonte de tempo à frente. Não fazer isso exigiria apertos futuros ainda maiores e, portanto, riscos ainda mais altos de jogar a economia numa recessão. O desempenho medíocre da atividade econômica nos últimos anos não tem a ver com níveis de taxas de juros.

O desarranjo das cadeias de produção e o choque de commodities em razão da guerra russo-ucraniana traz consequências mais positivas do que negativas para o Brasil? Por quê?

O choque de commodities traz consequências positivas em termos de PIB por conta da melhora nos termos de troca do País, além de aumento nos saldos comerciais e na arrecadação fiscal. Por outro lado, o desafio da inflação entra na conta negativa, particularmente porque combustíveis domésticos e alimentos constituem parte grande do orçamento familiar na parte de baixo da pirâmide de renda. O desarranjo das cadeias de produção não traz benefícios para ninguém.

A resposta mais adequada de política monetária no contexto econômico mundial atual é mesmo um choque de juros?

Nos casos em que claramente a demanda agregada tem estado superaquecida em relação à oferta, como nos EUA, nos quais inclusive taxas reais de juros básicos ainda estão no campo negativo apesar de aumentos recentes, os juros terão de continuar subindo. A questão em aberto é até onde e com qual rapidez. Os juros básicos estabelecidos pelo Federal Reserve (Fed) podem chegar a 3,5% em meados do ano que vem. Além disso, o Fed começará a encolher seu balanço a partir de junho, não mais repondo títulos depois de seu vencimento. Esse aperto quantitativo deverá influenciar os juros mais longos. Mas os banqueiros centrais vão ter que atravessar o rio pisando pedra sobre pedra.

Em quanto tempo e quais seriam as consequências para o Brasil com esse aperto?

Isso vai depender da ocorrência ou não de choques adicionais, bem como da sinalização por agentes econômicos quanto à inflação que projetam à frente. Hoje eu projetaria a inflação do IPCA terminando o ano entre 8,5% e 9%, com a Selic tendo chegado a 13,25% ao ano e iniciando a consideração de baixa em 2023, caso a inflação esperada apresente sinais inequívocos de arrefecimento.

O fluxo de recursos estrangeiros para o Brasil neste ano passa de US$ 60 bilhões. Em que pese oportunidades do diferencial de juros e o influxo da Rússia, o investidor estrangeiro chega a "ignorar" os problemas fiscais e o ano eleitoral?

Antes de tudo, está evidente que a subida de juros locais tem sido fator importante. Além disso, ocorreu uma rotação em carteiras de ativos, com investidores se desfazendo de ativos de duração longa nos EUA, como em muitos casos de tecnologia, por conta da subida de juros por lá, enquanto o Brasil oferece um rendimento médio sem riscos muito elevados. De uma maneira ou outra o receio de aventuras e guinadas na área fiscal que se estabeleceu na segunda metade de 2020 se desvaneceu. Prevalece também a percepção de que eventuais alterações no arcabouço fiscal depois das eleições não ocorrerão de maneira caótica ou autodestrutiva.

Caso a condução da política fiscal siga problemática, quais os riscos de influxo de recursos que estão vindo para o Brasil, em um cenário de aumento de juros nos EUA? Em qual medida?

Na hipótese de que o choque de juros e o aperto quantitativo nos EUA não sejam extraordinários, os efeitos no Brasil não deverão ser dramáticos. Não estamos em 2013, quando ocorreu o 'taper tantrum'. Os passivos externos não são tão proporcionalmente elevados e a situação na conta corrente não é tão ruim como era então. Pelo contrário, deve melhorar este ano. A vulnerabilidade externa não é nesse momento o principal desafio para o país voltar a ter dinamismo na atividade econômica.

Diferentemente do início dos anos 80, quando Paul Volcker elevou muito os juros nos Estados Unidos, resultando na crise da dívida em emergentes, o Brasil tem reservas que o tornam credor externo. Quais seriam as consequências agora?

Juros nos Estados Unidos em patamares similares aos da era Volcker (Paul, presidente do Fed de 1979 a 1987) definitivamente levariam a problemas com dívidas corporativas no país e a choques no resto do mundo. Teríamos choques financeiros e recessão nos Estados Unidos, com ninguém no mundo escapando de seus efeitos. As reservas externas brasileiras seriam úteis, mas incapazes de resguardar inteiramente sua economia. Contudo, o cenário básico projetado continua sendo um de arrefecimento gradual da inflação nos Estados Unidos sem que seja adotada alguma política tão agressiva quanto a da era Volcker.

Estadão
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