A UE deveria se preocupar com a desvalorização do dólar?
O euro atingiu seu maior patamar em relação ao dólar desde 2021. Isso tem consequências para empresas e consumidores na zona do euro. Hora de o Banco Central Europeu intervir?O dólar americano continua a registrar uma perda acentuada de valor em relação a outras moedas fortes, dando sequência à tendência que, em 2025, levou à sua maior queda anual em quase uma década.
Na terça-feira (27/01), o dólar caiu 1,3% em relação a uma cesta de moedas, o que significa que já recuou 2,6% desde o início de 2026. Em 2025, a desvalorização foi de 9,5%.
A queda do dólar tem implicações para o euro e outras moedas. O euro atingiu agora o patamar de 1,20 dólar pela primeira vez desde 2021, enquanto a libra esterlina e o iene japonês também alcançaram máximas recentes frente à moeda americana.
Vários economistas e analistas atribuem a continuidade da queda do dólar à falta de confiança dos investidores na moeda americana diante da imprevisibilidade das políticas adotadas pelo presidente Donald Trump .
Muitos também acreditam que a desvalorização do dólar é algo desejado por Trump e uma parcela significativa dos membros de sua equipe econômica, com vistas a impulsionar as exportações e a indústria manufatureira dos EUA.
Trump fez pouco para afastar essa percepção.
Questionado recentemente se estava preocupado com a desvalorização do dólar, ele respondeu: "Não, acho ótimo".
Stephen Miran, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos de Trump e atualmente membro do Conselho de Governadores do Fed (o Banco Central dos EUA), publicou em novembro de 2024 um guia para "reestruturar" o sistema global de comércio. Nele, apresentou possíveis ferramentas para corrigir o déficit comercial, mencionando especificamente tarifas e a desvalorização do dólar como os principais instrumentos.
A Europa deveria se preocupar?
Quaisquer que sejam as consequências da queda do dólar para a economia americana, a economia da zona do euro e o próprio euro também serão afetados. A moeda única europeia teve valorização de 13% frente ao dólar em 2025 — seu melhor desempenho desde 2017.
A valorização do euro é importante porque ele desempenha um "papel fundamental no desempenho da economia, na saúde do mercado de trabalho e na situação financeira das famílias", afirma Jack Allen-Reynolds, economista-chefe-adjunto para a zona do euro da consultoria econômica Capital Economics.
Mas se a valorização do euro barateia as importações e reduz os preços ao consumidor, ela também torna as exportações do bloco menos competitivas, prejudicando os fabricantes da região, explica Allen-Reynolds.
Observação semelhante é feita por Ricardo Amaro, economista-chefe para a zona do euro da consultoria Oxford Economics. Segundo ele, esse golpe nas exportações até seria parcialmente compensado por preços mais baixos de produtos americanos nas prateleiras europeias, mas ainda assim teria um impacto negativo sobre o crescimento europeu.
"Nosso modelo econômico global sugere que o PIB da zona do euro seria cerca de 0,2% menor até o fim do ano caso a taxa de câmbio euro-dólar permaneça nos níveis atuais, em vez do patamar de cerca de 1,16 dólar que serviu como ponto de referência após o acordo comercial entre a UE e os EUA no fim de julho", afirma ele.
Um quadro misto para os exportadores
No entanto, Zsolt Darvas, especialista em macroeconomia do think tank belga Bruegel, destaca que, em períodos em que o euro esteve significativamente mais valorizado do que agora, as exportações europeias ainda assim tiveram bom desempenho.
Ele observa que o patamar atual de 1,19 dólar ainda está abaixo dos níveis de 2021 e significativamente abaixo da faixa entre 1,30 e 1,50 dólar frequentemente registrada entre 2004 e 2014.
"A recente leve queda do dólar dificilmente causará problemas econômicos significativos na Europa", afirma Darvas, acrescentando que a ampla cobertura da mídia sobre a desvalorização do dólar pode até "estimular os investidores a deslocar seu foco dos investimentos nos EUA para a União Europeia".
Mas ele também se preocupa que a taxa de câmbio possa representar mais um golpe para a economia, com os exportadores já abalados pelas tarifas comerciais impostas por Trump no ano passado.
Empresas que compõem o índice STOXX Europe 600, que reúne grandes companhias europeias, obtêm cerca de 30% de suas receitas nos EUA, segundo o banco de investimentos Goldman Sachs.
Embora o euro mais forte já esteja associado a estimativas de crescimento mais otimistas, certos setores europeus podem ser vulneráveis a um dólar mais fraco.
Ricardo Amaro afirma que os setores farmacêutico e automotivo estão especialmente em risco, embora acredite que a dependência dos EUA de produtos farmacêuticos europeus possa compensar eventuais prejuízos.
Jack Allen-Reynolds, por sua vez, aponta para a fraqueza geral das exportações da zona do euro nos últimos anos, em especial devido à intensificação da concorrência chinesa em diversos setores.
"Duvidamos que os movimentos observados até agora tenham um impacto muito grande sobre a demanda por exportações, mas certamente não ajudam", diz.
Hora de o BCE intervir no mercado?
A valorização do euro frente ao dólar gerou especulações sobre a possibilidade de o Banco Central Europeu (BCE) intervir de alguma forma.
O presidente do Banco Central da Áustria, Martin Kocher, considera que os ganhos recentes do euro foram "modestos", mas afirma que o BCE teria de intervir se a taxa de câmbio começasse a reduzir as projeções de inflação.
A maioria dos analistas concorda que agora não é o momento para uma intervenção significativa na política monetária, mas alerta que novas altas no valor do euro podem forçar o BCE a agir caso as metas de inflação sejam afetadas.
Ricardo Amaro já vê os dirigentes do BCE tentando influenciar as expectativas do mercado ao afirmar que estão "monitorando a situação" e mostrando-se preocupados com os movimentos recentes.
"Isso traz as discussões sobre cortes de juros de volta à mesa e atua contra o impulso de valorização do euro", afirma ele.
Allen-Reynolds também não vê necessidade de agir com base nas mudanças na taxa de câmbio observadas até agora em janeiro. Mas pontua que novas alterações podem levar o BCE a cortar os juros ainda este ano.
Para Zsolt Darvas, o impacto inflacionário atual é praticamente nulo e nenhum setor é especialmente vulnerável.
"As taxas de câmbio oscilaram amplamente ao longo das últimas décadas, e as empresas se adaptaram para lidar com variações muito maiores do que as que estamos observando atualmente", argumenta.