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5 pontos para entender a guerra comercial entre EUA e China

Países estão em conflito econômico desde 2018, em meio a várias tentativas de trégua; últimas sanções provocaram queda generalizada nas Bolsas

25 jun 2019
12h41
atualizado em 6/8/2019 às 17h25
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A guerra comercial entre Estados Unidos e China teve um novo capítulo no último dia 5 de agosto. Pela primeira vez desde 2008, o dólar chegou a 7 yuans - o que significa que a moeda chinesa sofreu intensa desvalorização em relação ao dólar e, com isso, os produtos asiáticos ficaram mais baratos e competitivos em relação às importações.

O movimento afetou as economias de todo o mundo e Donald Trump acusou o país asiático de "manipulação cambial". Houve queda generalizada nas Bolsas de todo o mundo.

O câmbio entrou como artilharia chinesa para retaliar os Estados Unidos, depois do anúncio de Trump de que o país vai impor tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses e que essa alíquota poderá ser elevada para além de 25%. Os americanos já taxam em 25% outros US$ 200 bilhões em produtos chineses.

A intensificação dos ataques ocorre pouco mais de um mês após a última reunião do G-20, em que as maiores potências econômicas do mundo tinham expectativa de estabilização do conflito entre os dois gigantes. À época, Estados Unidos e China entraram em acordo e Trump classificou as conversas como "excelentes".

Desde que tomou posse em janeiro de 2017, Donald Trump tem estremecido as relações comerciais entre Estados Unidos e China. Nessa disputa, as tarifas sobre importação são a principal arma utilizada por ambos os lados, que têm ensaiado uma trégua infrutífera desde maio de 2018. Veja abaixo os principais pontos para entender a guerra comercial entre EUA e China:

Como começou a guerra comercial entre China e EUA?

Donald Trump começou seus ataques aos produtos "made in China" ainda durante a campanha eleitoral. Antes de ser eleito presidente dos EUA, o então candidato responsabilizava o gigante asiático pela perda de empregos industriais na América e prometeu impor tarifas de até 45% sobre os produtos chineses.

Após vencer a eleição de 2016, o discurso de Trump endureceu ainda mais e, em janeiro de 2018, ele anuncia tarifas sobre painéis solares e máquinas de lavar da China. Dois meses depois, a medida é aplicada também na importação de aço (25%) e alumínio (10%). Em abril daquele ano, Xi Jinping faz sua primeira retaliação e devolve o aumento de impostos em cerca de U$ 3 bilhões de produtos norte-americanos, marcando o início definitivo da guerra comercial.

Quais são os produtos tarifados na guerra comercial?

Além de painéis solares e máquinas de lavar, o aumento de tarifas foi estendido para a importação de aço e alumínio dois meses depois e, em junho de 2018, Donald Trump aplicou uma taxa de 25% em mais de U$ 50 bilhões de produtos chineses, que vão de bolsas a material ferroviário.

Como forma de retaliação, Xi Jinping aplicou taxas que variaram de 5% a 25% sobre a importação de 128 itens dos EUA, incluindo frutas, produtos químicos, carvão e equipamento médico. Paralelamente, a China também tarifou bens produzidos em distritos norte-americanos com forte apoio ao partido Republicano.

A partir do próximo 1° de setembro, há expectativa de que Donald Trump implemente uma tarifa de 10% sobre mais de US$ 300 bilhões em produtos chineses, o que deve significar taxação sobre todas as exportações do país para os Estados Unidos.

Por que aumentar as tarifas?

De acordo com Donald Trump, o motivo para o aumento nas taxas de importação seria uma forma de impulsionar a criação de empregos nos EUA, já que o consumo de produtos locais aumentaria e, consequentemente, a produção industrial do país. Ao mesmo tempo, o encarecimento de produtos chineses poderia, em tese, baratear aqueles produzidos na América. Ao mesmo tempo, tarifas também podem ser encaradas como uma tática de negociação em guerras comerciais, como disse o próprio Trump em seu Twitter.

Como andam as negociações entre China e EUA?

A primeira tentativa de negociação entre as delegações da China e dos EUA começou em maio de 2018, sem nenhum impacto efetivo na troca de taxas entre os países durante os meses seguintes. O primeiro sinal de um possível acordo veio apenas em novembro, através de um telefonema entre os líderes, durante o qual Trump afirmou que houve "uma grande ênfase" no assunto.

A primeira trégua comercial entre os países viria apenas em dezembro, durante reunião do G-20. O jantar, realizado em Buenos Aires, Argentina, serviu como palanque para Trump se comprometer a adiar por 90 dias o então recém-anunciado aumento nas tarifas, que iriam de 10 para 25%. Enquanto isso, Xi Jinping assegurou que passaria a comprar mais produtos americanos, inclusive agrícolas.

Após cinco meses de conversas, novas tentativas de negociações entre representantes de ambos os países falharam e o acordo comercial foi suspenso no último 10 de maio. Trump determinou o aumento previsto de 25% sobre cerca de mil produtos chineses, como combustíveis, cereais e materiais de construção. A China impôs o mesmo porcentual sobre US$ 60 bilhões em mercadorias americanas.

Em 23 de maio, durante discurso na Casa Branca, Donald Trump foi otimista sobre um possível acordo entre os dois países e afirmou que pretendia se reunir com Xi no encontro do G-20, em Osaka, no Japão. O encontro se deu sob clima de ameaça, após Trump afirmar que, caso Xi Jinping não comparecesse, os Estados Unidos aplicariam imediatamente novas tarifas sobre U$ 300 bilhões em produtos chineses.

Durante o encontro nos dias 28 e 29 de junho, China e Estados Unidos de fato sinalizaram um desfecho para a guerra comercial: enquanto Donald Trump autorizou que a gigante chinesa de telecomunicações Huawei pudesse voltar a comprar produtos americanos como chips, a China importaria produtos agrícolas americanos. À época, Trump afirmou que o diálogo sobre a guerra comercial foi "excelente". As negociações continuaram no início de julho.

A perspectiva de trégua, porém, logo foi interrompida. Em 1 de agosto, Trump anunciou a imposição de uma tarifa de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses, como estava ameaçado à época da reunião do G-20. Com isso, praticamente todos os produtos chineses exportados para os Estados Unidos devem ser taxados, a partir de 1 de setembro.

Em retaliação às sanções de Trump, o governo chinês respondeu com uma medida histórica. Em 5 de agosto, o Banco do Povo da China (PBoC), banco central chinês, permitiu que o dólar chegasse a 7 yuans. Essa foi a desvalorização mais forte da moeda chinesa desde 2008 e significa um aumento de preço nos produtos importados dos Estados Unidos, que perdem competitividade.

Neste cenário, há o receio mundial de que o conflito entre os dois países evolua para uma guerra cambial. A medida do banco central chinês foi sentida imediatamente no mercado financeiro: houve queda generalizada nas Bolsas europeias e nos mercados futuros de Nova York. No Brasil, o dólar saltou 1,66% e chegou a R$ 3,96. Já o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, caiu 2,51% e registrou 100.098 pontos.

Quais os próximos passos para um acordo entre EUA e China?

O secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, afirmou que vai recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para "eliminar a vantagem competitiva injusta criada pelas ações mais recentes da China". De acordo com Mnuchin, o país asiático age como "manipulador cambial".

Já o Ministério do Comércio chinês afirmou, por meio de nota, que a taxa de câmbio está em "nível apropriado" e que não usará a ferramenta para lidar com disputas comerciais.

Até que o conflito seja solucionado, a perspectiva é de freio na economia global, especialmente para países emergentes. A previsão de economistas é de que, movidos pelo medo de risco, os investidores apostem em países considerados mais seguros economicamente.

Países com moedas mais fracas podem ter vantagem em exportações, já que tem produtos com menor custo. No fim de julho, o FMI reduziu a previsão de crescimento global para 2019 de 3,3% para 3,2%. Em 2018, a expansão registrada foi de 3,6%.

Estadão
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