Personagens masculinos de 'Caminho' são tratados como tolos
Tanto na Índia quanto no Brasil, falta atitude aos homens de Caminho das Índias. Os personagens masculinos da trama de Glória Perez estão, a todo o momento, sendo enganados pelas mulheres e, pior, das formas menos críveis possíveis.
Desde o guarda municipal Abel, de Anderson Müller, que bebe todas as noites o leite com canela e tranqüilizante preparado pela fogosa Norminha, encarnada por Dira Paes, caindo no sono, ao mocinho apático Bahuan, papel de Márcio Garcia. O indiano, aliás, ganhou um ar vingativo.
E, agora, fica na corda bamba, sem ser bom o suficiente para que o vejam como herói, e sem maldades que façam jus ao título de vilão. Resumindo: mais perdido que um cachorro quando cai de um caminhão de mudanças.
Deixado de lado em Dubai durante alguns capítulos, o casal Raul e Ivone, de Alexandre Borges e Letícia Sabatella, reapareceu. Pena que sem a mesma empolgação dos primeiros capítulos, quando chegou a ganhar mais destaque que qualquer personagem do dito "caminho indiano".
Depois de explorarem a já batida estratégia do personagem que se finge de morto, passam férias milionárias no exterior e, de uma hora para outra, o executivo termina algemado em uma cama com míseros US$ 10 mil para voltar ao Brasil e tentar reconquistar o amor da mulher, Sílvia, de Débora Bloch. A mesma que, no início da novela, fazia papel de idiota hospedando sua maior inimiga sem saber.
Glória Perez defende a "tal" tradição indiana exposta na trama central, mas parece esquecê-la quando precisa dar agilidade e movimentação à história. O histriônico Manu, de Osmar Prado, por exemplo, já foi passado para trás várias vezes pelas mulheres de sua família.
Até Opash, de Tony Ramos, em alguns momentos parece frágil diante de tamanha inocência mostrada em relação aos conflitos da experiente Laksmi, de Laura Cardoso, e do libertário Shankar, de Lima Duarte. Este último, aliás, é um dos poucos que não passam a maior parte do tempo caindo em armações femininas.
Fragilizar os personagens masculinos, sem dúvida, dá um empurrão nas mulheres da história e é um dos truques mais certeiros utilizados por Manoel Carlos em suas tramas. Na história de Glória Perez, a romântica Maya, de Juliana Paes, é um dos bons exemplos disso. A mocinha teve um início insosso.
Mas, ao se casar com o antagonista Raj, de Rodrigo Lombardi, teve sua reviravolta e hoje já mostra força como protagonista. Rodrigo, inclusive, soube aproveitar o espaço vago por Márcio Garcia e transformou seu personagem na figura masculina mais importante da história. Posição que, ultimamente, vem dividindo com Caio Blat e seu doce Ravi. Ao lado da carismática Camila, interpretação surpreendente de Ísis Valverde, o caçula dos Ananda finalmente mostrou a que veio na trama.
Ao contrário do que possa parecer, dar tamanha força às mulheres não deixa Caminho das Índias uma trama essencialmente feminina. Principalmente pelo fato de que não existe romance sem herói.
E é exatamente isso que mais falta na novela. Claro que o antigo conceito de "sexo frágil" não cabe mais nas sociedades modernas. Mas isso não significa que as mulheres prefiram os homens submissos e frágeis. E muito menos os trouxas.