Pioneiro da arte cinética, Sérvulo Esmeraldo ganha 1ª retrospectiva no CCBB em São Paulo; conheça
Exposição 'Linha e Luz', aberta ao público nesta quarta-feira (30), recupera trajetória completa do ilustrador, gravurista, pintor e escultor
Um encontro inusitado definiu a obra de Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). Em um sábado, o artista cearense caminhava rumo ao seu ateliê, na rua Dona Veridiana, no Centro de São Paulo, quando viu uma folha caída no chão. "Era uma folha bem corroída, parecia uma renda, com toda a estrutura à mostra. Ele achou aquilo muito bonito", conta Dodora Guimarães, curadora, pesquisadora e viúva do artista. "Sérvulo encontrou na folha uma estrutura matemática, um logaritmo, e a levou para o ateliê, onde passou a tarde escavando madeira. A partir dali, ele se tornou um artista geométrico, traçando um caminho muito próprio."
Observador por natureza, Sérvulo sempre esteve atento à natureza, às linhas e às luzes. São esses elementos que compõem o universo da sua obra, produzida durante os quase 70 anos em que permaneceu ativo. O público paulistano pode visitá-la na exposição 'Linha e Luz', inaugurada nesta quarta-feira, dia 30 de agosto, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
Com curadoria de Dodora e Marcus de Lontra Costa, a mostra traz a primeira grande retrospectiva póstuma de Sérvulo, que morreu em 2017, aos 87 anos. São 110 obras que transitam por todas as fases do artista, conhecido por sua pluralidade técnica, que contemplava processos tão distintos quanto a xilogravura e o eletromagnetismo. A exposição abrange a produção de Sérvulo em sua cidade natal, Crato, em Paris e em São Paulo, cidade que considerava sua segunda terra no Brasil.
Considerado um pioneiro da arte cinética e um ícone da abstração geométrica, Sérvulo trouxe da infância muitas das suas referências. "Ele dizia que tudo começou com os brinquedos", conta Dodora. "Ele observava ciganos trabalhando e pegava as sobras do trabalho, pedacinhos de metal, que ia articulando para criar pequenas engenhoquinhas, brinquedinhos, que depois colocava em canaletas de irrigação para dar movimento."
"As questões de técnica e de observação da natureza acompanharam todo o trabalho de Sérvulo", explica Lontra Costa. "Ele teve essa consciência de que queria ter domínios técnicos, porque assim enriqueceria o próprio vocabulário para fazer o processo de observação da natureza de maneira mais intensa."
Obras
Um dos destaques da exposição é o conjunto de obras produzidas por Sérvulo em Paris, onde estudou litografia e iniciou, sob orientação de Johnny Friedlaender (1912 - 1992), seu trabalho de gravura em metal. Embora seja um aspecto pouco conhecido de sua obra no Brasil, ele produziu mais de 200 gravuras em metal, usando técnicas como o buril e a estampa e outras criadas por ele mesmo. "São trabalhos de sofisticação não só estética, mas técnica, que partem de uma espécie de disciplina do fazer", explica Lontra Costa. "Além disso, você pode ver o diálogo do artista com as questões da época - ele sempre esteve conectado com o seu tempo."
É no cofre que o público tem acesso à série Excitáveis, composta por trabalhos movidos à eletricidade estática. Os trabalhos de Sérvulo em acrílico também estão localizados no espaço, que guarda ainda obras produzidas com peças industriais que eram vendidas até em supermercados. "Mostra como as coisas do mundo podem ser apropriadas. Essa peça passaria, até então, despercebida só na sua função prática. Mas o artista mostra como ela pode transcender na sua matéria: a partir disso, você olha para ela de forma diferente. Acho que esse é o papel da arte na sua essência", diz Lontra Costa.
Outro destaque da exposição é um conjunto dos últimos desenhos de Sérvulo, feitos em 2016. "O último ano de vida dele foi muito difícil. Mas, embora estivesse acamado (o artista foi vítima de um AVC), ele desenhava todo dia", conta Dodora. As obras, assinadas, formam uma série de homenagens a pessoas caras ao artista, como sua mãe (Zaira), seu pai (Álvaro) e sua avó (Julieta). É a primeira vez que são expostas ao público, em um movimento definido por Dodora como ousado.
No segundo andar, o público tem acesso às esculturas de Sérvulo. É onde estão algumas de suas obras mais recentes, como Xis (2015), Cilindros Parabólicos (2014) e Cônicas - côncavas e convexas (2004-2012), uma obra de aço inox polido e escovado composta por cinco elementos semelhantes. Luz e sombra se tornam parte da exposição, mudando a percepção de quem observa as obras.
A exposição conta, ainda, com obras produzidas no retorno de Sérvulo ao Ceará, quando cor e monumentalidade foram incorporadas ao seu trabalho. As esculturas públicas de Sérvulo também podem ser vistas, com ajuda de vídeos. Também é possível ver suas colaborações com outros artistas, como Trilogia (1976), um livro-objeto com três poemas de Péricles Eugênio da Silva Ramos.
Ao todo, a exposição ocupa 4 pavimentos do CCBB. Ela possui recursos de acessibilidade, inclusive sensitivos. Há, também, uma surpresa no banheiro feminino do térreo.
Serviço:
Exposição SÉRVULO ESMERALDO: LINHA E LUZ
- Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
- Período: de 30 de agosto a 20 de novembro
- Funcionamento: todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças-feiras
- Ingressos: gratuitos, disponíveis em bb.com.br/cultura e na bilheteria física do CCBB SP a partir de 25/ago.