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Yuja Wang é uma super-heroína no reino de concertos

Pianista chinesa e o violoncelista francês Gautier Capuçon acabam de lançar o precioso álbum 'Franck, Chopin'

23 mar 2020
07h11
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Sabe-se que o genial escritor russo Leon Tolstoi (1828-1910) estudou piano. Chegou a compor uma valsinha. Na década de 1880, combateu encarniçadamente a instituição do casamento e pregou a abstinência sexual. Foi com essas ideias na cabeça que ele assistiu numa tarde, em sua casa, a uma execução da Sonata a Kreutzer, a nona das dez sonatas para violino e piano de Beethoven. Ouviu-a em lágrimas e no Presto final levantou-se e foi até a janela, soluçando. Viu nela o símbolo da corrupção moral no casamento, e transformou-a no núcleo central de sua novela famosa publicada em 1889, que conta o final trágico de um triângulo amoroso entre o jovem violinista Trukachevsky e Lise, a esposa pianista de Pozdnichev. Este os flagra tocando sensualmente... o fogoso, o incendiário Presto que fez Tolstoi chorar.

Embora costume frequentar mais assiduamente do que se pensa o clima da música camerística, o erotismo em geral fica meio submerso. Até porque a atmosfera engessada da vida artística no universo da música de concerto busca recalcá-lo mesmo em obras que o traduzem de modo explícito - ainda que sem palavras. Quanto à Kreutzer, de Beethoven, basta ouvir a leitura vulcânica da sonata por Martha Argerich e Gidon Kremer para se convencer de que Tolstoi captou bem a mensagem.

As gerações mais recentes de músicos têm recorrido à tática do erotismo escancarado, para alcançar um lugar no disputadíssimo sol dos eleitos pelas mídias de todas as naturezas. Em um tempo em que até quem não tem nada a dizer sobre si mesmo se sente com direito a expor suas vísceras nos palcos digitais, isso soa até normal.

É justo que os músicos também lancem mão desse recurso de marketing para se promover. Justíssimo quando topamos com alguém de real talento. O truque parece novo, mas é mais que centenário. As primeiras décadas do século 19 assistiram ao triunfo do piano como instrumento hegemônico da vida musical. Como ele podia, sozinho, substituir uma orquestra em casa, virou rei nas noites pós-jantar das famílias de classe média europeias.

Tocar a quatro mãos virou coqueluche, porque propiciava um inédito contato físico mais íntimo, digamos, entre aluna e professor. Críticos e moralistas chegaram a acusar o piano pelo colapso da música de câmara, chamando-o de "usurpador tirânico", porque "encorajava a imoralidade ao permitir que os casais se sentassem muito perto enquanto tocavam a quatro mãos".

Outro tanto se especulou, lançando-se suspeitas moralistas de que algo mais acontecia entre a pianista e seu partner no rico repertório das sonatas. Franz Liszt, de vida amorosa amoral para os padrões da época, encarnava o super-herói fruto do desejo das moçoilas que se estapeavam por um lugar na primeira fila de seus recitais.

Temos hoje não um super-herói, mas uma super-heroína no reino da música de concerto (tal como a vitaminada e erotizada Mulher-Maravilha no mundo masculino dos super-heróis das telonas e telinhas).

A pianista chinesa Yuja Wang, que completou 33 anos em fevereiro passado, formada no Conservatório Central de Pequim, com curso no célebre Curtis Institute da Filadélfia, nos Estados Unidos, vem "causando" há bons 15 anos. De um lado, é uma pianista extraordinária, que leva no sangue o DNA de uma Martha Argerich, ainda hoje, aos 78 anos, um furacão diante das 88 teclas do piano, que se celebrizou interpretando o terceiro concerto de Prokofiev, um dos mais difíceis do repertório.

Yuja tem um corpo escultural que explora por meio de vestidos tão ousados que já foi chamada por um horrorizado crítico norte-americano mais conservador "stripper". Fendas inacreditáveis provocam a imaginação dos homens e a inveja contida das mulheres. Uns a desejam, outras a desqualificam por causa do que veste. Ora, o que interessa é sua performance ao piano. E ela já disse mais de uma vez em entrevistas que se sente como uma atriz no palco. Isto é, encarna uma "persona". Só um exemplo: mais de 1,6 milhão de likes no YouTube saúdam sua performance do primeiro de Tchaikovski no Carnegie Hall em 2017.

Ainda bem que seu erotismo explícito se combina com elevada qualidade artística. Em sua gravação mais recente, lançada no final de fevereiro pela Warner Classics no mercado internacional em versão física, mp3 e nas plataformas de streaming, ela inverte o "teorema-Kreutzer". Aqui, não é o violinista que seduz a pianista, mas ela é quem subjuga seu parceiro, o violoncelista francês Gautier Capuçon. Aos 38 anos, boa-pinta (como se dizia antanho), faz o par perfeito com ela. Mas musicalmente sucumbe a seus encantos musicais.

Chopin domina o álbum. Dele, o duo interpreta a Introdução e Polonaise Brilhante em dó maior, seu opus 3, que escreveu para uma aluna em 1829, antes de se fixar em Paris. Por trás das longas melodias do violoncelo, o piano borda arabescos deliciosos - e comanda a música, porque, afinal, era um presente do apaixonado Chopin à princesa Wanda, então com 17 anos (ele com 19). A Sonata em sol menor opus 65 foi tocada em 1847 em sua última aparição pública e derradeira composição publicada, em 1848. Ouça com atenção o movimento inicial, um Allegro moderato de 15 minutos, maior que os três movimentos restantes. Talvez em Chopin, curiosamente, seja o único momento em que Yuja prefere integrar-se em vez de dominar o cello.

O ponto mais alto desse álbum precioso é a leitura fogosa da sonata em lá maior original para violino e piano de César Franck, também bastante executada e gravada nessa versão. Em seus 29 minutos e quatro movimentos, a forma cíclica, em que os temas de cada movimento são recuperados e transformados nos seguintes, é o leito ideal para o domínio avassalador de Yuja. Ela empurra Capuçon para contrastes mais extremados do que os habituais de dinâmica, acentua teatralmente o fraseado e as "conversas" entre eles. Ouça o lindo "Recitativo Fantasia. Ben moderato", uma espécie de trégua nas trincheiras de piano e cello para uma "honeymoon" inesperada (e bela, muito bela).

O fecho dessa brilhante aventura erotizante só poderia ser mesmo Le Grand Tanto, de Astor Piazzolla. Aqui explodem de vez os hormônios, como diria um psicanalista. Não se engane com a capa bem-comportada.

FRANCK, CHOPIN. Gautier Capuçon e Yuja Wang . Warner Classics (CD, R$ 35. iTunes, R$ 19,90)

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Estadão
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