Dani Mã ergue na música uma trincheira afetiva contra o caos projetado
Entre ritmos afro, eletrônica percussiva e parcerias emblemáticas, o cantor baiano constrói um álbum sobre esperança, escolhas e convivência
Em Arquitetando o Caos, novo álbum de Dani Mã, o cantor e compositor baiano não apenas dá nome à desordem contemporânea, mas a confronta com as ferramentas que domina: o suingue, a palavra e o afeto.
O trabalho é uma resposta sonora à percepção de que o turbilhão social não é um acidente, mas uma arquitetura - ideia que dialoga com o pensamento de pensadores como Zizek, Chomsky, João Cezar de Castro Rocha e Lúcio Massafferri Salles. Diante de um caos planejado por tecnologias de manipulação em massa, Dani Mã propõe uma contraestratégia igualmente elaborada: as tecnologias sociais do afeto.
"São formas de reprogramar o campo a partir de outras lógicas", explica Dani Mã. "Se de um lado operam a partir do medo e do isolamento, nós respondemos com afeto e tecendo potência. Nessa batalha assimétrica, nos cabe a guerrilha: ágil, tática, ocupando os interstícios do sistema para semear possibilidades de 'Amar com os Dentes'", conclui.
A música, neste contexto, deixa de ser apenas entretenimento para se tornar um instrumento de reorganização sensível.
Essa proposta se concretiza numa sonoridade que é, em si, um manifesto. Produzido por Dani Mã e Rovilson Pascoal, o disco funde a pulsação eletrônica com as matrizes da música baiana. A guitarra de Armandinho Macedo conversa com batidas sintéticas, e o pagodão encontra texturas urbanas. Não se trata de uma colagem, mas de uma recodificação: "É a linguagem híbrida de quem vive entre o mundo real e o virtual, sem abandonar a raiz", define Dani Mã.
As letras operam num delicado equilíbrio. Frases de impacto como "tudo que revolta me interessa" criam bordões diretos, enquanto imagens poéticas mais abertas ("luz que traz fogo na boca") convidam à escavação de sentidos. É a camada de acesso que prende pelo ritmo, e a camada de profundidade que liberta pela reflexão.
Canções como Dando Like e Refugiado Coração mapeiam as fissuras do presente - da hiperconexão vazia à busca por abrigo emocional - sem abandonar o convite ao corpo dançante.
Dani Mã e o projeto 'Arquitetando o Caos'
Arquitetando o Caos é, no fim, um projeto de esperança ativa. Não uma utopia ingênua, mas um manual de instruções afetivas para tempos difíceis. Dani Mã não ignora a desordem; ele a usa como matéria-prima. Se o caos foi arquitetado, seu disco sugere que é possível - e urgente - mobilizar esse espaço vazio com conexão, batida e um novo tipo de engenharia humana, onde a trincheira é o afeto e expressão é canção.
Confira: