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A terapia musical de Courtney Love

18 abr 2010 - 21h33
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O quarto de Courtney Love no Mercer Hotel, em SoHo, é um estudo sobre o caos. Cabides de roupas, da última coleção da grife Miu Miu a peças vintage dos anos 1920, ocupavam duas paredes. O chão estava repleto de caixas com fotografias. Xícaras de café vazias, garrafas de suco consumidas até a metade, pacotes abertos de doces, cinzeiros transbordando e pilhas de livros sobre budismo e psicologia estavam praticamente em todos os lugares. E, no centro disso tudo, ao mesmo tempo serena e maníaca, insolente e vulnerável, lá estava Love, atenta a um laptop onde vídeos no YouTube mostravam seu dueto no Carnegie Hall com o cantor Gavin Friday em benefício à Red, uma instituição de caridade africana que lida com AIDS.

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Apenas 24 horas antes daquele show, disse, ela se apresentou com os ex-roqueiros do Guns N' Roses Slash e Duff McKagan na festa do aniversário de um hotel de Las Vegas. "Não conheço ninguém que conseguiria fazer isso", disse. "São dois mundos muito diferentes, mas tenho um pé em cada um deles."

Desde o lançamento de seu álbum solo, America's Sweetheart, em 2004, um fracasso a que se refere como "le desastre" ou "aquele lixo que fiz no sul da França", a vida de Love está mais confusa do que aquele quarto. Rapidamente, ela resumiu a situação com inesperada coerência: abuso de drogas e reabilitação, sua situação financeira "medonha", a perda da custódia da filha adolescente, problemas legais e ataques de raiva online. "Como um amigo muito querido me disse recentemente, nada de bom pode vir do Twitter", disse.

Agora, porém, ela se concentra na "domesticação do Monstro Courtney", explicou. Essencial para esse projeto é seu próximo álbum Nobody¿s Daughter, feito com uma nova versão de sua banda dos anos 1990, Hole, que será lançado pela Mercury/Island/Def Jam em 27 de abril. Foram necessários quatro anos, vários produtores, múltiplas brigas e alguns milhões de dólares de seu próprio bolso, disse, mas de alguma forma ela conseguiu finalizá-lo. E deve ser seu trabalho mais bem recebido desde o disco grunge do Hole Live Through This (DGC, 1994). Na atual obsessão por reaparições e reuniões do pop, Love, 45, pode levar a cabo a ressurreição mais surpreendente de todas.

"Gosto da palavra reaparição", disse ela. "Na sua carreira, uma reaparição é como se você só tivesse saído pra um cigarro."

Love já transformou as adversidades em sucesso antes. Live Through This foi lançado dias depois de seu marido, Kurt Cobain, do Nirvana, se suicidar e dois meses antes da baixista do Hole, Kristen Pfaff, morrer de overdose. O álbum e a turnê subsequente foram sucessos de crítica e de vendas, saudados por sua energia catártica.

Mas, depois, Love trocou sua maquiagem borrada pela hollywoodiana, complementada ainda por uma cirurgia plástica, e se voltou para a atuação. Ela foi indicada ao Globo de Ouro por seu papel no filme de Milos Forman O Povo contra Larry Flynt (1996) e começou um relacionamento de quatro anos com o ator Edward Norton. Em 1998, ela foi o rosto de uma campanha da Versace, fotografada por Richard Avedon. A seguir, outro álbum de platina teve boa recepção, Celebrity Skin (1998). Love havia transcendido seu passado arenoso no rock 'n' roll, se tornando aos olhos do grande público uma boêmia cultural de espírito livre. Seu talento era saber como -e quando- agir em benefício próprio.

Mas, então, tudo começou a dar errado, enquanto Love abusava da cocaína e de remédios controlados. Ela se tornou presença regular nos tabloides, célebre por atitudes como mostrar os seios no David Letterman. Era difícil imaginar que ela seria um dia levada a sério novamente. "Passei alguns dos piores momentos da minha vida em público", disse com sinceridade, "e agora minha banda e eu fizemos um disco sobre isso".

"Entrei com tudo", acrescentou. "Apostei tudo o que tinha, o que é perigoso, mas de certa forma maravilhoso, porque, quando se faz isso, não há mais pra onde ir. Não existe um plano B."

O desafio de dar qualidade à música tirou Love dos tabloides, afirma David Massey, presidente da Mercury. A gravadora fechou com Love um acordo para vários álbuns há apenas poucos meses, antes das gravações terminarem. "A decisão de assinar com a banda teve motivação exclusivamente musical", disse ele. "O álbum ficou tão completo e incrível que tirou o meu fôlego. Algo que me impressionou quando conheci Courtney foram suas letras e ideias. Ninguém mais faz música tão verdadeira, nua e crua."

As críticas sobre os shows ao vivo -em Londres, no mês de fevereiro, e na Conferência de Música e Mídia do festival South by Southwest, em Austin (Texas) no mês passado- foram em sua maioria positivas, frequentemente para a surpresa dos próprios críticos. Mas o trabalho enfrenta o desafio de Love ser uma cantora de rock na faixa dos 40 na era de Lady Gaga; os compradores de discos em idade universitária quase não têm idade para se lembrar de seus primeiros trabalhos.

Nobody's Daughter às vezes se aproxima de uma nostalgia grunge com alegorias de rock forte e frágil e melodias em tom menor, mas também há uma energia de rock clássico, cortesia da nova banda. Love menciona The Wall, do Pink Floyd ("mas apenas as partes mais lentas e boas"), como principal referência de músicas como Letter to God e Somebody Else's Bed. Liricamente, Nobody's Daughter conta as profundezas da queda de Love, mas evita a culpa e a autopiedade, tratando, ao invés disso, de relacionamentos destrutivos e temas de salvação e transformação.

A primeira faixa, a ousada aventura grunge de Skinny Little Bitch, traz Love em seu estado mais frágil e quimicamente dependente. A música caiu nas graças da influente estação de rádio de Los Angeles KROQ e da WRXP em Nova York, ficando recentemente em 19º lugar na lista de rock alternativo da Billboard.

"Nos dois anos da WRXP, nunca tivemos uma reação tão forte a uma música nova quanto a que tivemos com Skinny Little Bitch", disse Matt Pinfield, apresentador de um programa matutino. "Quando tocamos a música, pedimos aos nossos ouvintes que dessem sua opinião sobre ela ao vivo. Noventa porcento das chamadas foram positivas, tanto do público masculino quanto do feminino. As ouvintes ficaram especialmente animadas com uma mulher fazendo rock."

Love começou o álbum com a produtora e compositora Linda Perry e com Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, que acabaram se afastando (Corgan recentemente disse à revista Spin que, "depois de 20 anos de amizade, decidi romper qualquer relação com Courtney"). A seguir, ela chamou Michael Beinhorn, que produziu Celebrity Skin e que trabalhou com o Red Hot Chili Peppers e o Soundgarden.

Com Beinhorn, o álbum mudou de direção e uma nova banda foi formada: a baixista Shawn Dailey, que estava no grupo de rock alternativo Rock Kills Kid; o bateirista Stuart Fisher, que estava no Ozric Tentacles; e o guitarrista Micko Larkin, que estava na banda de rock indie Larrikin Love. Mas quando chegou a hora da cada vez mais errática Love gravar seus vocais, o processo desacelerou até parar por vários meses.

Sentindo-se distraída em Los Angeles, ela se mudou para Nova York, mas Beinhorn não a acompanhou. A produção ficou a cargo de Larkin, que também compôs algumas músicas com Love. Ela conta que era uma mulher diferente na época. "Um ano atrás eu pesava 45 kg", disse. "E eu não deveria, nunca, porque não sou uma garota pequena." Ela parecia "demente" nas fotografias daquela época, diz.

"O disco estava exigindo muito de mim", acrescentou. "Não era fácil lidar comigo porque eu estava vivendo o que compunha. Essas canções foram escritas primeiro na clínica de reabilitação, depois na casa de um amigo e então no Chateau Marmont, até ser expulsa de lá e passar a morar no Sunset Marquis. Elas vieram de um lugar perdido, confuso e verdadeiro do qual estou feliz de ter saído."

Love recuperou o equilíbrio por meio de uma nova devoção a mantras budistas e à meditação e com o apoio de orientadores e terapeutas. Ela diz que quer ficar em Nova York. "Posso ficar no mundo real aqui", disse. "Aqui posso participar da vida."

Ela não gravou por vários meses depois de se mudar, mas seus companheiros de banda perceberam uma mudança emocional imediata. "Quando cheguei a Nova York para assistir a algumas sessões dos vocais, foi quase como encontrar uma outra pessoa", disse Dailey.

"Em Los Angeles, o disco era uma das muitas coisas que ela estava fazendo", acrescentou. "Era apenas mais uma parte de sua vida pessoal. Ela costumava ter cinco ou seis pessoas no estúdio todos os dias esperando para reuniões sobre acordos de filmes, suas finanças. Em Nova York, sua vida pessoal deixou de ser um problema. Ela se tornou membro de uma banda, como o restante de nós."

Beinhorn ficou impressionado com as músicas finalizadas. "Ela é alguém que você nunca pode menosprezar", disse sobre Love. "Ela é capaz de sair do prejuízo e criar algo que seja realmente importante. Depois de começar a ouvir as mixagens do que fizemos, percebi que tínhamos um disco sério."

Love agendou uma aparição no Late Show With David Letterman em 27 de abril e vai se apresentar em shows esgotados no Terminal 5 de Nova York na mesma noite e na seguinte.

Pessoalmente, Love nos envolve com seus intensos olhos azuis enquanto parece expressar cada sentimento, passando de exultante a raivosa, e vice-versa, tão rápido quanto muda de assunto durante a conversa. Ela responde a qualquer pergunta, mas de forma tortuosa, mergulhando em detalhes da literatura, arte, cinema, moda e música no meio do caminho. Ela sabe que sua transformação declarada é uma obra em andamento. Mandei aquela menina viajar, disse ela sobre a Courtney Má. "Preciso tratar de muita coisa em relação a ela. Ela foi enviada a um acampamento onde aprenderá a se socializar adequadamente."

Mas antes que Love abrace sua próxima fase na vida e na carreira, disse, ela precisa deixar o passado para trás. Em 2006, ela vendeu 25% dos direitos musicais do Nirvana, dos quais o espólio de Cobain possui 98%, pelo estimado de US$ 50 milhões (ela diz que a maior parte foi para impostos, advogados e golpes de instituições obscuras). "Estou pensando em vender todos os direitos do Kurt", disse. "Todos os direitos, tudo. Não é uma decisão financeira, mas emocional."

"Ele foi o melhor amigo que já tive, mas Kurt e eu fomos casados por apenas três anos, e agora eu preciso viver minha própria vida", acrescentou. "Sou sempre 'a viúva', isso me deixa louca. Esse dinheiro está amaldiçoado desde o dia em que começou a entrar."

Ela olhou para seus sapatos. "Também não é realmente um dinheiro meu", disse. "Não quero mais que Kurt Cobain compre os meus sapatos. Quero comprar os meus próprios sapatos -vários deles."

Enquanto a noite caía em SoHo, Love disse que queria andar pela vizinhança. Ela parou em frente a algumas lojas de lingerie ("Kiki De Montparnasse é incrível, La Perla é pra vovós") antes de voltar ao hotel e se sentar no saguão.

"Oh", disse de repente. "É o sr. Lagerfeld." Karl Lagerfeld, o estilista com cabelos impecáveis, passava pelo local com um pequeno exército de assistentes levando quantidades imensas de bagagem atrás dele. "Ele já me fotografou", disse. "Esperei nove horas por ele e comi uma caixa inteira de deliciosos suspiros parisienses. Depois, ele chegou e me fotografou coberta de pérolas, reclinada nua em uma carruagem."

Love andou timidamente em direção a Lagerfeld, com ambas as mãos nas costas. "Sr. Lagerfeld, espero que se lembre de mim, sou a Courtney..."

"É claro que me lembro de você", interrompeu, colocando o rosto dela entre suas mãos. "Você fica linda sem maquiagem. Sua pele é tão clara. Você está maravilhosa, parece uma menininha. Preciso fotografar você de novo. Mas você soube? Temos uma campanha para fotografar ainda. Há muito trabalho, preciso ir."

Love voltou a se sentar, satisfeita: "O sr. Lagerfeld se lembra de mim."

Courtney Love em primeiro show do Hole, após hiato de 11 anos
Courtney Love em primeiro show do Hole, após hiato de 11 anos
Foto: Gareth Cattermole / Getty Images
The New York Times
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