Livros mostram como mulheres foram além das ideias de Freud e fizeram uma psicanálise mais plural
Autoras protagonizam publicações que instigam uma escuta interessada pela alteridade e fazem a teoria psicanalítica dialogar com direitos humanos e questões de gênero, raça e classe
Hoje sabemos que a psicanálise inaugurou a clínica da escuta onde antes tínhamos a clínica do olhar: no começo, o olhar do médico identificava os sintomas; a partir de Freud os pacientes passaram a indicar suas dores psíquicas usando seus próprios vocabulários.
Sabemos, mas é possível ignorar (reprimir?) que essa transição no modo de tratar os pacientes veio marcada por um apelo: impaciente com os vários questionamentos do neurologista-ainda-não-psicanalista Freud, Emmy Von N pede que ele se cale para ela poder falar. A quem interessaria o silenciamento de Emmy? Certamente não a Freud, que se calou e dali extraiu o método da associação livre, em que a pessoa fala o que vem à mente, e também não à psicanálise, que assenta sua prática clínica, teoria e método de investigação sobre a escuta de cada palavra narrada no sofrimento. Quando Emmy reivindicou a consideração de sua fala pelo doutor que a tratava, o benefício foi imensamente plural, a julgar pelo florescimento da psicanálise em geografias muito além da Viena de origem.
Mulheres coprotagonizaram a criação da Psicanálise, como argumenta a psicanalista Maria Rita Kehl em Deslocamentos do Feminino (Boitempo). "As histéricas ensinaram a Freud que o corpo fala", afirma a também psicanalista Eliane de Christo em Mulher de Palavra: Encantada, Mal Dita, Bem Dita (fora de catálogo). Mas, na transmissão e na teoria, as encontramos nos lugares de coadjuvante ou paciente.
O legado de Lélia é mais conhecido dentro dos feminismos e dos movimentos negros, mas felizmente contempla também a psicanálise. Suas contribuições tornam-se imprescindíveis, especialmente quando pensamos no quanto nossa noção de "Eu" carrega um referencial eurocêntrico e que incide nas identificações de quem é o "outro" - o não branco, o imigrante e por aí vai. Os artigos da coletânea demonstram o quanto o tratamento do sofrimento psíquico, que não é apartado das relações sociais, tem a ganhar quando se dispõe a escutar aportes e críticas vindas de outras áreas.
Anna Freud encarou o que seu pai nem tentou
Uma terceira obra a ser mencionada é Anna Freud: A Teoria Tem Seus Prazeres, de Elizabeth Ann Danto (Ed. Perspectiva, trad. Margarida Goldsztajn). Anna Freud tem no sobrenome a inscrição das expectativas relacionadas ao pai, ao mesmo tempo em que padece de frequentemente ser reconhecida apenas como filha e paciente. Mas Anna levou adiante o que Sigmund nem tentou, o desafio de analisar crianças. Foi além ao realçar os cuidados com a primeira infância e democratizar o acesso à escuta comunitária na clínica psicanalítica gratuita da Sociedade Psicanalítica de Viena.
Elizabeth destaca que o trabalho de Anna fez convergir saúde mental e direitos humanos. Anna tinha uma posição bastante privilegiada e pôde fazer circular suas proposições no restrito campo psicanalítico; porém, faltava uma obra que estabelecesse criticamente sua trajetória teórica e o contexto de desenvolvimento de seus conceitos.
A relação próxima que ela faz entre psicanálise e pedagogia fica explicitada e fronteiras entre os campos aparecem. Uma palestra dada para professores e pais ilustra o que só poderia vir da escuta psicanalítica: os escritos de um garoto de 8 anos sobre seu profundo incômodo com o autoritarismo dos adultos poderiam suscitar, em um professor conservador, a necessidade de intervenção na rebeldia; ou a aposta, por um educador moderno, de que ali surgia um futuro líder libertário. Segundo Anna, fosse na severidade ou na admiração, ambos se encontravam no mesmo erro de interpretação: após consideração do que estava ao redor daquelas palavras, ela concluiu que o menino agia motivado por alguns medos importantes.
Para Anna era importante observar a dinâmica nas relações entre as crianças e seus cuidadores. O livro traz suas críticas quanto à assimilação da técnica do brincar, proposta por Melanie Klein, como equivalente à associação livre dos adultos: "Parece à primeira vista como se uma lacuna angustiante na técnica de análise infantil tivesse sido preenchida de forma inquestionável".
A análise de crianças deu à austríaca Melanie Klein grande notoriedade e inaugurou uma espécie de exceção no quadro majoritariamente masculino dos grandes nomes da psicanálise. A autora desfruta de amplo reconhecimento no Brasil e é festejado o retorno de suas obras ao catálogo em português, com traduções revisadas. A coleção agora está completamente disponível com os lançamentos, pelas editoras Ubu e Imago, de A Psicanálise de crianças (trad. Liana Pinto Chaves) e Narrativa da Análise de uma Criança (trad. Claudia Starzynsky Bacchi). É no primeiro título, publicado originalmente em 1932, que encontramos a descrição da técnica do brincar e as conclusões obtidas.
Já no prefácio ela endereça as diferenças entre seu método e o de Anna Freud, sobretudo quanto a existir ou não transferência (nome dado ao vínculo singular que se forma entre analista e paciente) com os pequenos. Para Melanie, a educação precisa ficar fora deste processo: "Minhas observações me ensinaram que as crianças desenvolvem uma neurose de transferência análoga à das pessoas adultas, contanto que se empregue um método equivalente ao da análise de adultos, isto é, evitando quaisquer medidas educacionais e analisando plenamente os impulsos negativos dirigidos ao analista".
Que divergências teóricas e confrontamentos de ideias não angustiem por sua propriedade conflituosa: elas anunciam o pensamento vivo e prolífico que brota da posição ética de fazer perguntas aos sujeitos. Uma longa tradição de opressão fez com que mulheres fossem tratadas somente como objeto de pesquisa, não como sujeito. Quando Freud se calou para Emmy Von N falar, assume-se que o saber estava no outro (uma mulher considerada louca), e não naquele que escutava. À frente de inovações teóricas tanto quanto seus pares homens, autoras que acrescentam à psicanálise seguem sendo estudadas como exceção. Inevitavelmente, suas criações convocam uma política de recusa ao apagamento.
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