Livro que inspirou a série 'Slow Horses' subverte as histórias de espionagem de Le Carré e Fleming
Os dois primeiros volumes da saga literária 'Slough House', criada por Mick Herron, chegam ao Brasil após o sucesso da adaptação no streaming estrelada por Gary Oldman
Em perfeita sintonia com seus personagens fracassados e renegados pelo Serviço Secreto britânico, Slow Horses foi um fiasco à época de sua publicação, em 2010. Mas o autor Mick Herron provou ser um homem perseverante para que o livro adquirisse uma base de fãs interessados em romances de espionagem e assim pudesse viabilizar uma saga que já ostenta nove volumes - cujos dois primeiros acabam de ser lançados no Brasil pela Intrínseca.
No entanto, a popularidade da coleção Slough House [Casa de Pântano, na tradução] escalou com o sucesso da série da Apple TV que já está na quinta temporada (adaptando um livro por etapa), tendo o astro Gary Oldman na pele de Jackson Lamb, o responsável por comandar o grupo de marginalizados. Anti-herói brilhante e asqueroso, ele é descrito como um "Timothy Spall em declínio" e que veste-se como se "tivesse rolado pela vitrine de um brechó".
A história do primeiro livro se preocupa em situar o leitor neste universo, apresentando os "pangarés" da Slough House, nome do recinto lúgubre em Londres - uma "masmorra administrativa" - para onde o MI5 envia os agentes malsucedidos, dentre os quais está o protagonista River Cartwright. Abandonado pela mãe para ser criado pelo avô, uma lendário ex-espião, ele tinha grandes ambições no Serviço Secreto, mas foi mandado para o "purgatório" após identificar erroneamente um suspeito durante uma grande operação na estação de trem King's Cross.
A rotina burocrática e deprimente da sede dos encostados muda quando o sequestro de um rapaz de 19 anos por extremistas ameaça a segurança nacional.
Sem idealismo moral e glamour
Ao subverter as clássicas histórias inglesas de espionagem de mestres como John Le Carré (1931-2020) e Ian Fleming (1908-1964), Herron consegue sabotar o idealismo moral e o glamour do gênero. Em vez de se apoiar nos dilemas morais de George Smiley ou no heroísmo de James Bond, o autor prefere investigar a incompetência institucional e o fracasso, sempre com muito cinismo.
O ritmo da narrativa começa devagar, mas logo é engatado por diálogos afiados e situações que tornam a trama surpreendente. A força do texto não está apenas na premissa subversiva, mas também na forma como o autor critica de maneira sutil as burocracias e inconsistências da política de segurança do Reino Unido.
Jackson Lamb, um alcóolatra gordo, desleixado e repulsivo, é um anti-Bond e anti-Smiley, por assim dizer. Flexível e contestador, tem como qualidade imprescindível suas motivações realistas para resolver os problemas. Na produção da Apple, Oldman consegue potencializar o sujeito com linguagem corporal grotesca, excelente timing cômico e certo grau de ameaça.
Enquanto Lamb já entendeu aquele mundo, Cartwright - porta de entrada do leitor - ainda está aprendendo e pagando o preço por isso. Ele luta contra o rótulo de incompetente e existe para mostrar como o sistema quebra profissionais com grande potencial.
Mick Herron, o melhor romancista de espionagem de sua geração, entrega em Slow Horses não apenas entretenimento envolvente, mas um trabalho literariamente sofisticado e perspicaz na hora de alfinetar seu alvo majoritário. Exemplo disso é o desfecho do livro, ligeiramente anticlimático, porém eficaz ao mostrar que o Reino Unido prefere preservar reputações e controlar narrativas em detrimento da justiça e da transparência.
Slow Horses
- Autor: Mick Herron
- Tradução: Camila Von Holdeger
- Editora: Intrínseca (416 págs.; R$ 71 e R$ 49 o e-book)