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Curta brasileiro ‘Bergamota’ se destaca no exterior com trama de terror LGBT+

Produção que inova com protagonista gay de meia-idade apresenta final surpreendente e vai gerar longa-metragem

19 fev 2024 - 15h15
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A violência contra os LGBT+ virou rotina nas grandes cidades brasileiras. O país com uma das maiores paradas da diversidade do planeta é o mesmo onde mais se matam pessoas da comunidade do arco-íris pelo simples fato de existirem. Por isso, o audiovisual tem papel imprescindível ao promover discussões sobre essa pauta. 

Protagonizado por um homem gay de meia-idade que recebe um jovem em casa para uma interação sexual, o curta-metragem ‘Bergamota’ surpreende com uma reviravolta no roteiro capaz de fazer a plateia prender a respiração. Há elementos de suspense, terror e crítica social a respeito da vitimização e da exploração dos homossexuais. 

Sucesso em exibições pelos quatro cantos do planeta, o curta da Três Tons Visuais Filmes em coprodução com a Gorilla Cinéfilo Filmes já recebeu mais de 20 prêmios. O blog conversou com o diretor e roteirista Hsu Chien e o ator principal e produtor Marcio Rosario.

Os atores Marcio Rosario e Gabriel Canella em cena de 'Bergamota': a tragédia contra gays ganha outro contorno no roteiro
Os atores Marcio Rosario e Gabriel Canella em cena de 'Bergamota': a tragédia contra gays ganha outro contorno no roteiro
Foto: Divulgação

Nos últimos anos, a imprensa noticiou vários assassinatos de homossexuais que receberam estranhos em casa para sexo casual. O roteiro de ‘Bergamota’ se inspirou nesse recorte trágico do mundo gay?

Marcio Rosario: Sim, o filme foi inspirado em fatos reais, e dentro do gênero Terror/Horror, há um alerta sobre essa tragédia social que acontece mais do que se imagina, e não somente na comunidade gay, mas, em geral. Muitas vezes, as vítimas quando conseguem sobreviver, acabam não divulgando nem denunciando por medo da exposição e do julgamento de terceiros. O gênero cinematográfico e literário do Terror/Horror vem ao longo das décadas se modificando e adaptando-se ao contexto social em que está inserido. Terror é geralmente descrito como o sentimento de medo e expectativa que precede a experiência. Por outro lado, horror é o sentimento de repulsa que geralmente ocorre após algo assustador ser consumido, visto ou experienciado.

O protagonista do curta é um homem de meia-idade, perfil geralmente desprezado no universo gay. A escolha da faixa etária foi proposital? Há uma mensagem em relação ao etarismo?

Marcio Rosario: Antes de responder, considero importante explicar que o título ‘Bergamota’ se refere ao nome que a tangerina recebe no sul do Brasil. No filme, essa fruta de cheiro tão característico e considerada afrodisíaca irá deflagrar uma noite de sedução, sangue e vingança no Rio de Janeiro. O roteiro tem uma universalidade em que o personagem central poderia ter qualquer idade, porém, fiquei muito feliz em representar esse homem em torno de 50 anos. Para vivê-lo, estudei obras de diretores que sempre me inspiraram como Wes Craven, Jordan Peele, Ari Aster, James Wan e, obviamente, Hitchcock. Pude explorar outros elementos do meu ofício de interpretação.

Raramente são produzidos filmes de Terror/Horror com temática LGBT+. Como foi a recepção na comunidade e na imprensa?

Marcio Rosario: O Terror/Horror é um gênero muito versátil, faz mais do que proporcionar medo e bons sustos. Cria simbologias para se refletir temas que causam angústias e ansiedades. No Brasil, o universo LGBTQIAP+ ainda não foi tão explorado, por isso resolvemos trabalhá-lo nesse projeto como forma de abrir as possibilidades a serem produzidas por aqui. Em ‘Bergamota’, o Terror se mistura com o Thriller e o Slasher, subgênero bastante visto no exterior, relacionado à ação de um psicopata. A violência e a homofobia que infelizmente temos no país são elementos fundamentais para a narrativa.

É uma inovação dentro de gêneros já conhecidos?

Marcio Rosario: A nova safra de diretores produz obras cada vez mais profundas, deixando de lado a mesmice dos assassinos mascarados, e leva o Terror/Horror a um novo nível de qualidade, mais experimental e psicológico, tratando temas recorrentes da sociedade e da psique humana.

Cena do curta 'Bergamota': o apelo sexual, de repente, se transforma em uma sucessão de sustos
Cena do curta 'Bergamota': o apelo sexual, de repente, se transforma em uma sucessão de sustos
Foto: Divulgação

Desde o lançamento, como tem sido a carreira do curta em festivais?

Marcio Rosario: Bem melhor do que esperávamos. O sonho de todo profissional do audiovisual é que seu filme seja visto pelo maior número possível de pessoas, seja no país de origem ou no exterior, e nesse momento já participamos de mais de 50 festivais, com vários prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Fotografia.

Por que a opção pelo preto e branco? Há inspiração no noir francês?

Hsu Chien: A inspiração veio dos filmes de terror do estúdio inglês Hammer dos anos 70 e também os clássicos de Hitchcock. Buscamos criar uma atmosfera, dar clima mais soturno e claustrofóbico, assim como em ‘Psicose’. Não mostrar o sangue vermelho, mas com um tom que faça o espectador construir a cor em sua mente.

Marcio Rosario: Foi um processo lindo e criativo de nossa equipe, principalmente da comunhão de trabalho da diretora de Fotografia Silvia Gangemi e da diretora de Arte Andrea Moraes. Foram extremamente corretas nas suas escolhas de lentes, figurinos e padrões usados nos cenários, no mobiliário e nos adereços. Nosso caracterizador, Vandinho Cardim, criou a partir do chocolate a textura correta para o efeito especial do sangue. Os ensaios com meus parceiros de cena, Gabriel Canella e Victor Pinto, foram realistas e viscerais. Essa união de talentos associada com a tensão do roteiro foi fundamental para o resultado final.

Como está o plano de transformar o curta em longa?

Marcio Rosario: Depois da ótima repercussão do filme e dos prêmios, finalizamos o argumento e agora estamos na fase de desenvolver o roteiro a pedido de uma distribuidora, e pensando nomes para o elenco. Vamos incluir novas camadas nos personagens e mais reviravoltas na versão longa da história.

O diretor e roteirista Hsu Chien e o ator e produtor Marcio Rosario: o roteiro do curta propõe suscitar reflexão no espectador
O diretor e roteirista Hsu Chien e o ator e produtor Marcio Rosario: o roteiro do curta propõe suscitar reflexão no espectador
Foto: Reproduções

Qual sua análise sobre o Brasil ter ficado mais uma vez fora do Oscar? Acredita existir chance de o longa ‘Bergamota’ participar da seleção para o indicado à Academia futuramente?

Hsu Chien: A gente sempre quer acreditar que é possível, sim. Mas são muitas as variáveis. Os outros filmes estrangeiros que concorrem no ano, o lobby dos produtores, os temas recorrentes discutidos na mídia daquele ano... Mas, em termos de diversidade, nosso filme cumpre todos os quesitos, tanto no tema quanto na equipe e no elenco. Nossa pauta está em sintonia com a nova política da Academia do Oscar, ou seja, dar cada vez mais visibilidade a pessoas de gêneros, etnias e classes sociais distintas.

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