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Mercado de games tem boas vendas na quarentena, mas futuro preocupa

Com isolamento social, mais pessoas buscam entretenimento e principais empresas do setor faturam alto; pandemia e crise podem, porém, afetar produção de novos títulos e poder de compra em meio a chegada de novos consoles PS5 e Xbox Series X

14 jun 2020
05h12
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Enquanto grande parte dos setores econômicos do Brasil e do mundo sofrem com os efeitos da pandemia do novo coronavírus, exigindo que governos aportem quantias extraordinárias para sustentá-los neste período de isolamento social, a indústria de jogos eletrônicos vive um momento oposto. Com a população estimulada a ficar em casa para conter a dispersão do vírus, a busca por novos métodos de entretenimento - games entre eles - aumentou de forma recorde no primeiro trimestre de 2020.

Levantamento da consultoria NPD Group mostra que, só nos Estados Unidos, o consumo de jogos gerou US$ 10,6 bilhões em receitas, incremento de 9% em relação ao mesmo período de 2019. A marca foi a melhor da história para os primeiros três meses do ano - historicamente um período considerado fraco na indústria por ser rescaldo do Natal, com poucos lançamentos.

Já pesquisa da Nielsen Brasil feita na semana entre os dias 16 e 22 de março, quando se iniciou o distanciamento no País, mostra que consoles tiveram crescimento de 137% de vendas no varejo, na comparação com a semana anterior. Já as vendas de jogos e periféricos subiram 103%.

Muitas moedinhas

Esse aumento nas vendas também apareceu nos balanços do primeiro trimestre de 2020 das principais empresas do setor, com a maioria delas superando suas previsões para o período e destacando o efeito que o novo coronavírus teve no setor. Maior desenvolvedora de games da Europa, a Ubisoft teve um desempenho 16% melhor que o esperado no primeiro trimestre, com receita de 388 milhões. Segundo Bertrand Chaverot, presidente da francesa na América Latina, o bom desempenho também se repetiu no Brasil.

Em dados fornecidos com exclusividade ao Broadcast/Estadão, Chaverot disse que a Ubisoft teve alta de 71% nas vendas no País entre 15 de março e 15 de maio deste ano, na comparação com o mesmo período de 2019. Na comparação do período com os meses de janeiro e fevereiro de 2020, a alta foi de 79%. Entre os games da empresa, o principal destaque ficou com o jogo de dança Just Dance, que teve alta de 156% nas vendas no primeiro trimestre, na comparação com o ano anterior. Aqui no Brasil, as vendas do jogo de dança explodiram: entre 15 de março e 15 de maio, eles venderam sete vezes mais que nos primeiros dois meses do ano.

"O isolamento social trouxe a necessidade para as pessoas procurarem novos meios de entretenimento. Isso acaba gerando novos clientes, já que eles vão criar o hábito e continuar consumindo nossos produtos", explica Chaverot. "A sorte é que já houve a digitalização do setor de games. Não dependemos mais do varejo por conta das vendas digitais", pondera o executivo, afirmando que se a crise tivesse acontecido há dois anos, a situação do setor estaria muito complicada.

Outras empresas também viram crescimento nas receitas no primeiro trimestre. A Take-Two Interactive, que distribui jogos com grande presença online, como Grand Theft Auto V e Red Dead Redemption 2, faturou US$ 729 milhões no período, contra US$ 488 milhões em 2019.

Já a Activision Blizzard, que detém os direitos sobre Call of Duty: Warfare, um dos games mais jogados neste início de 2020, teve receita de US$ 1,52 bilhão, 18% acima do esperado para o período. A exceção ficou por conta da EA, que produz a franquia de futebol Fifa: no primeiro trimestre de 2020, a empresa viu suas receitas caírem 6% com relação ao ano passado. Em seu balanço, a companhia disse que sentiu o impacto das variações cambiais e do fato de não ter tido lançamentos nos três meses que abriram o ano de 2020.

Preocupação

Entre as fabricantes de consoles, o cenário já é diferente: tanto Sony quanto Microsoft já enfrentavam uma queda no interesse dos usuários neste primeiro semestre com relação ao PlayStation 4 e o Xbox One, atuais dispositivos das empresas. Isso porque, no segundo semestre, uma nova geração de consoles deve ser iniciada com o PlayStation 5 e o Xbox Series X. Antes de lançar novos dispositivos, porém, as empresas reduzem seu ritmo de novidades no mercado, enquanto muitos jogadores repensam seus gastos nos meses que antecedem a estreia dos consoles.

A Sony, por exemplo, viu a receita do seu setor de games cair 13% no primeiro trimestre - em teleconferência com investidores, o diretor financeiro da japonesa, Hitori Totoki, citou o fim do ciclo de vida do PlayStation 4 como fator negativo. Já a Microsoft disse que as receitas com o ecossistema Xbox (que inclui, além de jogos e consoles, também a venda de assinaturas para partidas online) caiu 1% no primeiro trimestre, em comparação com 2019.

Mesmo com problemas pontuais de produção causados pela pandemia, as duas empresas afirmam que o cronograma para os novos consoles está mantido. A preocupação, em termos de produção, é com os games que estão sendo feitos agora para chegarem ao mercado no ano que vem. "Para o ano que vem, teremos problemas por conta da pandemia", disse a investidores Phil Spencer, chefe da divisão de games da Microsoft, fazendo referência a jogos que precisam de atos presenciais, como captura de gestos de atores. "Vamos precisar encarar isso."

Bertrand Chaverot, da Ubisoft, porém, levanta preocupações se a crise econômica global pode afastar os consumidores dos novos consoles. "Se a crise começar a se alongar, existem alguns problemas para o setor. A perda do poder aquisitivo faz com que as pessoas gastem menos com artigos de luxo - e jogos são artigos de luxo", diz o executivo, Ele também chama atenção para o alto patamar do dólar, que pode inflar os preços de importados no Brasil e ajudar a afastar o comprador.

Fabricantes

A Microsoft não especificou dados do primeiro trimestre em seu balanço, afirmando apenas que as receitas com o Xbox recuaram marginalmente a 1% em 2019, na comparação com o ano anterior, mas que seus serviços online também apresentaram crescimento, de 2%, por conta da pandemia. Phil Spencer, diretor da divisão Xbox, disse a investidores que o serviço Xbox Game Pass nunca teve engajamento online tão grande, com partidas online entre os membros do pacote premium crescendo 130%.

Por fim, a Nintendo foi a única das três fabricantes de consoles que viu um crescimento em suas receitas. Não divulgaram números do trimestre, mas no acumulado do ano tiveram vendas totais em 1,3 bilhão de ienes, crescimento de 9,0% em relação ao último ano fiscal. Seu console, o portátil Switch, teve 24% no crescimento de vendas no ano fiscal encerrado em março, com o lançamento Animal Crossing: New Horizon tendo quase 12 milhões de unidades vendidas em duas semanas.

Perspectivas

O ano de 2020 é muito importante para a indústria de games, com Sony e Microsoft planejando o lançamento do PlayStation 5 e Xbox Series X, a nova geração de consoles, no fim do ano. As duas empresas mantêm o planejamento para os lançamentos, afirmando que, apesar de alguns problemas pontuais causados pela pandemia, os cronogramas estão mantidos e a produção dos novos videogames não deve sofrer grandes alterações já que vai acontecer em um momento onde a doença estará em rota descendente.

Um problema mais imediato para Bertrand Chaverot, da Ubisoft, é a deterioração macroeconômica que a pandemia vai causar. "Se a crise começar a se alongar existem alguns problemas para o setor, a perda do poder aquisitivo faz com que as pessoas gastem menos com artigos de luxo, e jogos são artigos de luxo", diz o executivo, chamando a atenção também para o alto patamar do dólar, que pode inflar os preços de importados no Brasil e ajudar a afastar o comprador.

Tanto fabricantes quanto publicadoras de jogos acreditam que o restante do ano será bom para a indústria, mas demonstram preocupação com 2021. "Os projetos que já estavam em andamento e estão programados para lançamento neste ano continuam em pé, mas para o próximo ano teremos problemas por conta da pandemia", disse Phil Spencer, da Microsoft, para investidores. Ele cita que jogos em fase inicial de desenvolvimento, que necessitam de captura de movimentos ou outros atos presenciais, estão totalmente parados. "Vamos precisar encarar isso em algum momento."

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Estadão
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