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Heitor Dhalia se revela em 'À Deriva'

31 jul 2009 - 10h58
(atualizado às 20h54)
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O novo filme de Heitor Dhalia, como o mesmo faz questão de frisar, não é autobiográfico, porém é "muito pessoal". À Deriva estreia nesta sexta-feira (31) em circuito nacional depois de uma campanha muito bem sucedida no Festival de Cannes (foi selecionado para a mostra Un Certain Regard), em maio deste ano. Pelas frestas de uma casa bem iluminada de sol, o filme revela os pontos escuros de um relacionamento que é observado sempre pela perspectiva da filha mais velha da família.

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A infidelidade, o cenário dourado de praia e a imersão no mar como fuga da realidade são elementos que Dhalia usa para se comunicar, elementos que o mesmo viveu em sua infância e adolescência no Recife, em Pernambuco. Segundo o diretor, essa comunicação está cada vez mais amadurecida em sua narrativa. Em entrevista ao Terra, Dhalia fala sobre seu processo de evolução, a autoanálise que o cinema permite e o esquema de oferta e demanda do cinema nacional.

Você diz que o filme não chega a ser biográfico, mas admite que muito da história de Filipa reflete sua vida. Isso foi intencional?
Quando comecei a fazer o roteiro, não havia proposta alguma de criar uma referência com a minha vida. Mas de repente percebi que aquele universo era o mesmo que vivi na época da minha adolescência. O filme foi se tornando um pouco da minha história e da história de outras pessoas que estavam na produção. Naturalmente, existem alguns elementos no roteiro que são bem particulares, e acho que algumas pessoas da família podem reconhecer. Quero entender, por exemplo, como vai ser para a minha mãe assistir a esse filme. Acho que vai ser bom.

Que elementos são esses que lembram a sua vida?
Essa coisa da história se passar em uma praia, todo o problema da fidelidade, a família neoliberal burguesa, tudo isso faz parte de minhas recordações.

Nina, seu primeiro filme, construiu pouco diálogo com o público. O Cheiro do Ralo teve uma recepção bem maior do público e À Deriva parece abrir ainda mais essa conversa. Há uma construção nessa trajetória de diretor?
Em Nina havia uma intransigência de minha parte, não quis criar o diálogo. Em O Cheiro do Ralo eu quis dialogar, ainda que a obra de Lourenço Mutarelli (autor do livro O Cheiro do Ralo) seja muito complexa. Já ali, pela primeira vez, percebi uma resposta do público. Mas em À Deriva, desde as primeiras seções, percebi uma reação quase que instantânea à história. Quando montamos o filme e o exibimos, ainda dentro da O2, todo mundo chorou. A reação ia se repetindo cada vez que o filme passava. Em Cannes, quando aqueles executivos começaram a chorar, tudo que pensei foi: "Se esse povo que não tem coração gostou...". Acho que isso acontece porque foi um filme feito com muita sinceridade. Estou aprendendo agora a dialogar e acho que em À Deriva consegui criar essa conversa de um jeito elegante. Aos poucos vamos adquirindo essa maturidade do diálogo.

Você já fez terapia?
Uma vez só, por três meses. Mas não é a minha.

Acha que consegue aprender sobre si mesmo com seus filmes?Acredito que não tem como você não se expor em um filme. É muito intuitivo e não tem como se esconder. Suas fraquezas, suas qualidades. Aliás, acho que você se expõe mais até dentro de um set de filmagens do que no filme. Em Nina, por exemplo, eu me doei demais durante a produção. Isso foi muito complicado, decidi que nunca mais entro tanto em um filme. Porque de princípio você acha que o filme é você e só depois entende que o filme é uma coisa coletiva. Em À Deriva, as pessoas choraram no set. Mas eu só fui sentir a emoção do filme durante a montagem mesmo.

À Deriva se passa no começo dos anos 80, mas em poucos momentos há elementos que definem esse tempo no filme. Isso foi proposital, dar uma ideia de uma história atemporal?
Não queria fazer um filme de época do tipo almanaque, daqueles em que você joga em cena todos os elementos que identificam o tempo. Isso costuma ficar muito cansativo. Por isso decidi colocar poucos elementos de tempo no roteiro.

Muitos filmes nacionais, os chamados comerciais, conseguem hoje bater recorde de bilheterias. Como você vislumbra a trajetória do seu filme, que é bastante autoral, nas salas de cinema brasileiras?
A maioria desses filmes nacionais de grande bilheteria no Brasil não tem uma vida fora do País. Esses filmes se tornam fenômenos locais. E eu quero fazer um cinema que tenha um diálogo mais amplo, uma linguagem universal. Acho que cinema é um produto comercial, mas existem públicos específicos para cada tipo de filme. Gosto de coisas mais sofisticadas, e há um público para isso. Entendo até que a indústria precise desses títulos que atinjam uma população maior, porque existe uma procura de mercado. E, se existe procura, tem que haver oferta. Mas prefiro fazer um cinema de autor.

Buscar um elenco internacional é uma forma de tentar um retorno financeiro?
Um pouco sim, tenho que retornar o dinheiro que foi investido no filme. Cannes ajudou muito no quesito mercado e acredito que o nome dos atores pode colaborar também.

Com a estreia do filme nos cinemas, ainda há carreira para À Deriva em festivais?
Isso não depende de mim, acho que a produtora ainda vai avaliar.

E qual será o seu próximo trabalho?
Estou terminando um novo roteiro com Vera (Egito, que também co-escreveu À Deriva), que é uma adaptação de um roteiro de Tom DiCillo, chamado Lost in Blue. A história se passa em uma ilha, fala basicamente de um relacionamento amoroso e estamos avaliando rodar em Fernando de Noronha.

O diretor Heitor Dhalia
O diretor Heitor Dhalia
Foto: Divulgação
Fonte: Redação Terra
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