Festival do Rio: 'Éden' leva igrejas evangélicas para o cinema
- Juliana Prado
- Direto do Rio de Janeiro
O filme Éden, do diretor Bruno Satani, foi apresentado ao público neste sábado (6) no Armazém da Utopia, no Festival do Rio. Com temática religiosa, o longa está na disputa pelo Redentor de melhor ficção e traz nos créditos os atores João Miguel, em atuação magistral de um pastor de igreja, e Leandra Leal, que interpreta, de forma densa, a protagonista da história. Também por lá está Júlio Andrade, o Gonzaguinha de Gonzaga - de Pai para Filho.
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Éden conta a história de Karine, que acaba de perder o marido de forma violenta e é apresentada à chance de ser amparada em uma igreja. O pastor lhe oferece pouso e cuidados, mas também quer que ela se junte ao rebanho. Usando simbolismos recorrentes, como a escada de uma passarela em plena Baixada Fluminense e uma piscina onde momentos importantes da vida da protagonista se desenrolam, Éden explora sim, a religião, mas também é arte pura.
O diretor conseguiu levar para a tela, de forma contundente, toda a angústia de seus personagens. Em cena, um religioso assustador, uma grávida melancólica e sufocada e um irmão apequenado por uma via aparentemente de mão única: a religião. Éden só deixa de ser claustrofóbico em um momento, quando, finalmente, a personagem de Leandra Leal decide qual o melhor caminho a seguir. É quando ele encontra o seu próprio éden e não o pré-fabricado, oferecido como forma de "paga" a um momento de vida trágico. Mas aí só assistindo ao filme.
Opção pelo risco
Em debate no CineEncontro, o diretor Bruno Safadi contou que há tempos queria tocar no tema metafísico, da religião. E optou por fazer isso partindo de um ponto de vista contemporâneo e regional, levando para a tela as igrejas evangélicas ¿ mesmo que ele e atores tenham dito que inventaram uma religião, a referência primeira é mesmo do universo evangélico.
Safadi sabe que optou pelo risco, pela polêmica própria que qualquer olhar da arte sobre a religião pode provocar. "Desde o início sabia da força do tema", disse. Mas ele, de pronto, apresenta suas armas, afirmando que tentou tratar o assunto com a ambiguidade própria ao ser humano, dando ao pastor uma boa dose de contraditório. Ele pode ser bom, mas pode também ser opressor. E muito.
O filme parece ter uma corda tênue esticada o tempo todo entre esses dois estados. A qualquer momento, ela pode se esgarçar e expor o monstro que existe dentro daquele personagem soturno.
Bruno garante que não houve proposta de condenar ou absolver qualquer prática de exercício de fé monoteísta. "Há uma tentativa de não ser uma visão de uma classe sobre a outra. Tentamos fazer o reconhecimento de olho no olho e não de cima para baixo."