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Diário final de Rita Lee vira 'Balada da Louca', monólogo com Lilia Cabral: 'Leveza e revolta'

Peça é baseada em 'Outra Autobiografia', livro que acompanha Rita Lee em seus dois últimos anos de vida, em meio ao tratamento do câncer e reflexões sobre finitude

22 mai 2026 - 05h41
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Em setembro passado, o jornalista Guilherme Samora preparava-se para dormir quando, logo antes de atingir a fase do sono, acreditou ter ouvido a voz da cantora Rita Lee (1947-2023) sussurrando em seu ouvido: "Gui, precisamos transformar a segunda autobiografia em teatro".

Mesmo surpreso, ele entendeu o recado e, no dia seguinte, conseguiu a autorização de Roberto de Carvalho, marido da cantora, para transpor o livro Rita Lee: Outra Autobiografia para o palco como Balada da Louca, peça que estreia no Teatro Faap em 22 de maio.

A rapidez para levantar a produção se explica - há anos estudioso da obra de Rita Lee (1947-2023), que o tratava como um filho, Samora tornou-se um de seus melhores amigos, participando ativamente de seus projetos literários, desde as obras infantis até os livros autobiográficos. "Nos últimos anos, ela se orgulhava de se apresentar como escritora", conta o jornalista, que logo pensou em Lilia Cabral para protagonizar o monólogo. "Elas se admiravam muito, apesar de pouco terem se encontrado."

Lilia Cabral como Rita Lee; atriz estreia Balada da Louca, no Teatro Faap, no dia 22 de maio
Lilia Cabral como Rita Lee; atriz estreia Balada da Louca, no Teatro Faap, no dia 22 de maio
Foto: Miro/Divulgação / Estadão

"Quando recebi o convite, foi um impacto que me fez perder o rumo", relembra a atriz. "Era uma tarefa muito grande, mas, como tinha lido o livro fazia pouco tempo, não titubeei. As pessoas precisam ouvir essa história tão dolorida, que continua trágica, mas que também tem um olhar para a vida."

Se em Uma Autobiografia (2016) Rita fez um relato sincero e bem-humorado de seus primeiros passos na música até a consagração, em Outra Biografia (2023) a persona cedeu espaço para a mulher que, ao ser diagnosticada com câncer de pulmão, em 2021, em meio à pandemia da Covid-19, decidiu escrever uma espécie de diário, em que detalhou em texto franco e irônico os pormenores do tratamento. "É aquela velha história: enquanto a gente faz planos e acha que sabe de alguma coisa, Deus dá uma risadinha sarcástica", escreveu ela.

O texto marcado por uma autoironia implacável e zero autopiedade tornou-se diálogo na versão cênica de Samora, que acompanha os últimos dois anos de vida da cantora, desde a descoberta do câncer, passando pelo doloroso tratamento em que recebeu apoio decisivo da família até o conforto diante da finitude próxima, em que se ocupou da natureza e dos animais de estimação.

"O que me apoiou na construção da personagem foram as palavras da Rita, a forma como ela transmite leveza e revolta", conta Lilia que, apesar de fã da cantora desde a adolescência, só teve um contato pessoal com ela em 2012, durante um programa especial do Altas Horas, de Serginho Groisman, dedicado a homenagear Rita Lee. "A gente se cumprimentou, se abraçou e ela se ajoelhou pertinho de mim enquanto dizia que era minha fã, o que me emocionou."

O contato, ainda que passageiro, permitiu conhecer a pessoa por trás do mito, o que foi reforçado pela leitura do livro. Lilia realmente se emociona ao representar um momento de fragilidade da cantora. "Já no hospital, ela sai do banho e as enfermeiras a tratam com cuidado, mas sem o carinho esperado, afinal cuidam de tantos pacientes. Quando fica sozinha, Rita chora, mesmo admitindo sua dificuldade em derrubar lágrimas. Mostrar essa solidão me pareceu muito importante."

Lilia Cabral canta no espetáculo

Balada da Louca não é um musical, mas Lilia canta em dois momentos marcantes do espetáculo. "Escolhemos Nem Luxo, Nem Lixo para abrir a peça porque é uma apresentação", afirma. "Ela pergunta 'como vai você' e depois diz o refrão 'não quero luxo, nem lixo / meu sonho é ser imortal / não quero luxo, nem lixo / quero saúde pra gozar no final'. E, já no encerramento, diz 'a morte, para mim, deve ser o grande gozo final da vida'. É um resumo que une o começo ao fim."

A outra canção é Coisas da Vida, interpretada na cena em que Rita, ao decidir iniciar o tratamento com quimioterapia (atendendo a um pedido da família, pois confessava sua simpatia pela eutanásia), recorda-se da mãe que, no final da vida, desistiu da morfina para aplacar a dor, com uma aparência cada vez mais murcha. "É triste a comparação, mas, como prêmio por enfrentar a quimio, Rita ganha um picolé de limão, que representa muito sua vitória", comenta Lilia.

Rita Lee, durante o lançamento de sua autobiografia
Rita Lee, durante o lançamento de sua autobiografia
Foto: Gabriela Biló/Estadão / Estadão

A trilha sonora reserva ainda um agrado aos fãs, que ouvem a voz de Rita Lee retirada de um acústico em que ela canta Balada do Louco, música que compôs com Arnaldo Baptista em 1972, ainda nos Mutantes.

Também Roberto de Carvalho retornou ao piano depois de um tempo sem tocar para gravar introduções que marcam determinados momentos do monólogo, como a abertura. "Ele decidiu que Nem Luxo, Nem Lixo tinha de começar com uma batida bem roqueira, diferente do que tínhamos escolhido", conta Lilia, que se encontrou com o músico no sítio onde ele viveu com Rita.

"Quando cheguei lá, visualizei tudo o que eu falo na peça", afirma a atriz. "São trocentas traquitanas, todas com uma função específica, os prêmios, a mesa onde escreveu os livros, além de diversos animais." A atriz conheceu também o açucareiro citado no espetáculo, no qual Rita se encantou ao descobrir uma única formiga passeando na imensidão branca.

"Rita estava muito satisfeita de morar naquela casinha, com seu lago de carpas, com Luísa, a árvore que inspeciona tudo, e a vista do céu aberto", afirma Lilia. "Depois de uma vida tão assoberbada como artista, foi ali que ela conseguiu realmente viver."

A pacificidade norteou a diretora Beatriz Barros a pensar em um cenário dividido em três níveis que representem os lugares onde a cantora viveu em seus últimos anos. "É importante que Rita seja representada em um espaço de intimidade, onde existe uma reflexão filosófica sobre temas tão importantes como a morte, o envelhecimento e a relação com a espiritualidade", afirma a encenadora.

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