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Como o Sepultura mudou a história do metal com 'Roots'

Ao fundir som pesado com ritmos dos povos originários brasileiros, grupo mineiro vendeu milhões de cópias no mundo todo e influenciou uma geração de músicos

20 fev 2026 - 07h17
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Roots (1996) é um monolito na música pesada brasileira, senão mundial. O sexto álbum de estúdio do Sepultura é listado como um dos trabalhos fundamentais da música pesada como um todo. Colaborou para o estabelecimento do nu metal. Ajudou a dar visibilidade para a tribo Xavante no Mato Grosso. Provou que dá para fundir música pesada com ritmos afro-brasileiros.

Sepultura em 1996: (D
Sepultura em 1996: (D
Foto: E) Iggor (à época Igor) Cavalera, Andreas Kisser, Paulo Xisto Jr e Max Cavalera - Mick Hutson / Redferns via Getty / Rolling Stone Brasil

A cena mundial de metal alternativo — na qual bandas usam noções de identidade nacional pós-colonial para ditar não só a direção musical, mas o conteúdo das letras também — não seria a mesma sem o Sepultura. Um dos grupos mais populares dos últimos 30 anos, o Slipknot, tem influência declarada do quarteto de Belo Horizonte.

Até os anos 1990, o metal tinha uma estética bem estabelecida. Seja nos primórdios do gênero ou durante a ascensão do thrash na década anterior, tratava-se de uma versão mais agressiva do rock que parecia desinteressada nas origens africanas do seu progenitor. Entra em cena o Sepultura.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/5JjnPCfpp6redrkKpXZAs8

Raízes

O grupo mineiro composto por Max Cavalera (vocais e guitarra), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo) e Iggor Cavalera (bateria) construiu uma reputação internacional em cima de uma sonoridade influenciada pelo thrash e o death metal, mas levada a extremos. Entretanto, a partir de Arise (1991), os integrantes se viram desinteressados em continuar esse tipo de som. Década nova requer uma abordagem igualmente nova.

Chaos A.D. (1993), em especial, viu o grupo abraçando mais elementos de groove metal, o que os levou a posições mais notórias nas paradas de sucesso no Reino Unido e Estados Unidos. Era uma das histórias de sucesso mais improváveis da década.

Entretanto, ao invés de aparar as arestas do seu som para o público mainstream, o Sepultura focou nos elementos mais experimentais para seu próximo lançamento. Em especial, a fusão entre música pesada e ritmos nacionais.

O álbum Roots

Um dos aspectos mais chamativos de Roots é o quão solto o álbum soa. Metal extremo vive e morre pela precisão de sua execução, e o Sepultura parece abraçar muito mais a espontaneidade da tribo Xavante com quem trabalhou na faixa "Itsári" ou do percussionista Carlinhos Brown. Além disso, a banda incorpora elementos de folclore, história recente e cultura popular nas letras de maneira inteligente, muitas vezes cantando em português.

Isso não deveria ser receita para sucesso internacional, especialmente quando falamos de metal. No entanto, dois milhões de cópias vendidas no mundo todo discordam dessa noção.

Curiosamente, no momento em que conseguiram moldar o metal à sua própria imagem, o Sepultura fraturar sob o peso de seu sucesso. Brigas sobre a continuidade de Gloria, esposa de Max, como empresária levaram à saída do vocalista.

A banda continuou, mas nunca foi a mesma. Max lançou o grupo Soulfly, que não conseguiu recapturar a magia de Roots.

O legado do Sepultura com Roots

Mesmo assim, uma geração de bandas de metal surgiu a partir dali. Em entrevista ao site Remezcla, Juan Fernando Álvarez, vocalista do grupo colombiano Nepentes, discutiu o impacto do álbum:

"A gente já escutava nu metal - Deftones, Korn, Limp Bizkit, [a banda mexicana] Resorte. Mas aí eu lembro de todo mundo começar a falar de Roots. Eles eram os novos heróis. Era muito inovador e, é claro, virou uma influência no Nepentes anos depois."

Mesmo artistas que não tiveram influência direta de Roots foram impactados pelo álbum. Seja pela produção impecável de Ross Robinson — que levou Dave Grohl a definir o disco como o mais bem gravado da história do metal — ou porque seu sucesso abriu os ouvidos do público para as possibilidades de incorporar elementos de música regional. Em entrevista à Kerrang!, Henry de Jong, baterista do grupo neozelandês Alien Weaponry, comentou como nunca havia escutado Sepultura antes da banda compor sua primeira canção em māori (língua polinésia originária da Nova Zelândia):

"Nós fomos comparados ao Sepultura em comentários de YouTube e foi estranho perceber o quão similar era ao que estávamos fazendo, anos depois e não tendo o conhecimento do legado da banda."

O interessante é como na mesma reportagem o Alien Weaponry admite influência de um grupo que por si já admitiu ser fã do Sepultura: Gojira. Em 2021, a banda francesa lançou o single "Amazonia", e numa entrevista ao Cuartel Del Metal, o vocalista e guitarrista Joe Duplantier chamou a faixa de um tributo aos ídolos brasileiros:

"Não temos a menor vergonha de admitir. A gente roubou deles, mas não fizemos de propósito. Mas a gente percebeu logo em seguida. Falamos: 'Oh, isso soa como Sepultura. Ahhh, deixa'. É um tributo ao Sepultura - que tal? É sobre o Brasil. É sobre a Amazônia. É tribal."

E por fim, é só olhar para a banda de metal mais popular do século 21. O Slipknot pode ter nascido no estado americano de Iowa, mas o uso de percussão nos seus arranjos é claramente influenciado pelo Sepultura. Em entrevista ao site TMDQA, o vocalista Corey Taylor discutiu o impacto de Roots no som dos mascarados:

"Cara, esse álbum [Roots]… tem algo tão visceral e tão grosso nesse álbum, sabe? Foi um dos primeiros discos que eu ouvi que realmente me fez pensar: 'P*rra, cara, algum dia eu quero gravar um álbum que tenha essa sonoridade'. E aí, obviamente, trabalhar com o Ross [Robinson, produtor de Roots e dos dois primeiros discos do Slipknot] foi meio que a chave pra gente. Mas esse álbum, cara… é tão pesado e é tão feroz, você quase consegue ouvir o sangue na garganta do Max [Cavalera], pelo amor de Deus!"

Trinta anos depois, Roots criou raízes tão profundas a ponto de influenciar artistas que influenciaram novas gerações. E continua tão urgente quanto no seu lançamento.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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