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'O Novo Evangelho', de Milo Rau, volta para última exibição no festival Ecofalante

Exibição gratuita no site www.ecofalante.org.br começa às 19h de sexta, 10, e prossegue até às 19h do sábado, 11, quando inicia a cerimônia de premiação do evento

10 set 2021 18h11
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Capital europeia da Cultura em 2019, a cidade de Matera talvez seja um solo sagrado do cinema, como Monument Valley, a reserva em Utah onde John Ford realizou seus maiores westerns. Em Matera, Pier-Paolo Pasolini e Mel Gibson rodaram O Evangelho Segundo Mateus, em 1964, e A Paixão de Cristo, em 2004. No clássico Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, de 1960, quando Rocco e Nadia, interpretados por Alain Delon e Annie Girardot, se reencontram - ele, abandonando o Exército, ela, saindo da cadeia -, Rocco conta a história dos agricultores que se rebelaram contra os grandes proprietários de terras e foram massacrados.

Matera, em Potenza. Foi onde Milo Rau, grande diretor de teatro e cinema, filmou a sua versão da Paixão de Cristo. O Novo Evangelho abriu, no mês passado, o 10º Ecofalante, Festival de Cinema Ambiental. Atendendo a pedidos do público, o filme voltou para um último dia de exibição gratuita que começou às 19 h de sexta, 10, e prossegue até às 19 h deste sábado, 11 - quando estará se iniciando a cerimônia de premiação, no site do evento, www.ecofalante.org.br. Milo Rau já participou do Festival Internacional de Teatro de São Paulo. Faz filmes como esse. O homem chamado Jesus escolhe seus discípulos. Percorre com eles as estradas da Itália contemporânea, as ruas de Matera. O grande diferencial não é só que esse Cristo moderno é negro, mas também que é interpretado por um militante camaronês que tem sido porta-voz dos refugiados na Itália, protestando contra o trabalho escravo de ilegais em plantações controladas por milicianos da Máfia.

Yvan Sagnet é seu nome e ele possui uma presença cênica poderosa. Veste a túnica branca. Convoca o pescador Simão para ser, com o nome de Pedro, pescador de homens. A estrutura é, ao mesmo tempo, simples e complexa. Milo Rau foi convidado para encenar sua peça sobre o Evangelho no quadro da celebração de Matera como capital da cultura. Filmou os ensaios e protestos reais, com policiais de verdade reprimindo trabalhadores. Entre fato e ficção, criou uma obra-prima de metalinguagem - de ousadia e política. Um grande filme poético.

Nascido na Suíça, mas radicado na Bélgica, Milo Rau dirige desde 2019 a NTGent, a chamada cidade do futuro do teatro, aberta ao experimentalismo. Ele também dirige o International Institute for Political Murder, que investiga a violência institucional e política, e nutre sua atividade como criador. Entrevistado pelo Estadão, o repórter quis saber onde funcionava o Instituto. "Aqui, nesta sala - na minha casa", declarou Rau numa entrevista por Zoom. Tudo bem com Pasolini e Gibson, mas quando o repórter lhe contou sobre o diálogo de Nádia e Rocco no clássico de Visconti, Rau admitiu não se lembrar da cena. E acrescentou que não tinha muito apreço por Visconti.

O repórter pediu-lhe que revisse Rocco e Seus Irmãos, Rau disse que ia fazê-lo. Parecia apenas um ato de elegância protocolar, mas dias depois veio o e-mail do diretor, dizendo que havia revisto o filme e - sim - Rocco foi um choque para ele, um grande filme. Existem duas presenças a destacar em O Novo Evangelho, a do ator que foi o Cristo de Pasolini, Enrique Irazoqui, e a da Maria de Mel Gibson, a atriz romena Maia Morgenstern. Ao contrário de Maia, grande atriz de teatro, cinema e TV - uma Fernanda Montenegro da Romênia -, Irazoqui era um ator natural, não profissional, que agora prepara os atores que Milo Rau escolheu entre trabalhadores e refugiados reais.

Não faltam as imagens dos filmes de Pasolini e Gibson. Matera em preto e branco, em 1964, e em cores, 40 anos mais tarde. A cidade no monte, com suas vielas. O tempo esculpido na pedra. Existem filmes que ultrapassam a epifania artística, o prazer estético. Viram experimentos humanos, políticos e sociais. O Novo Evangelho é essa obra excepcional que neste sábado você ainda tem o dia todo para rever.

Estadão
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