Autor de 'Antes que o Café Esfrie': 'Ficção de cura é forma de encontrar esperança na realidade'
Toshikazu Kawaguchi, autor japonês da série de sucesso conversa com o 'Estadão' sobre a 'literatura de cura' durante visita ao Brasil
Toshikazu Kawaguchi, fenômeno literário internacional e expoente da "literatura de cura" está no Brasil para uma série de encontros. Nesta semana, ele esteve em Manaus, onde participou do 15º Congresso Internacional de Estudos Japoneses no Brasil, e passa neste fim de semana por São Paulo e Campinas.
De acordo com seus editores, o autor da série Antes que o Café Esfrie já vendeu mais de 5 milhões de cópias no mundo e seus livros já foram traduzidos para mais de 40 idiomas. No Brasil, a sua editora, a Valentina, contabiliza 200 mil cópias vendidas desde o lançamento do primeiro volume, em 2022.
A trama que conduz os livros da série Antes que o Café Esfrie se desenrola, em sua maior parte, em um café em Tóquio, onde uma cadeira específica oferece mais do que apenas o sabor do café: ela permite viajar no tempo - desde que se volte antes que a bebida esfrie.
Embora os personagens consigam viajar no tempo, eles não conseguem mudar o passado. "A forma como encaram e reinterpretam o que viveram lhes permite encontrar forças para seguir adiante. Essa é a mensagem constante em minhas histórias: mesmo nos momentos mais difíceis, é possível continuar caminhando com esperança. É esse ensinamento precioso, transmitido pelo sorriso da minha mãe, que busco compartilhar com os leitores através das minhas obras", completa o autor.
Ao Estadão, o autor falou sobre suas referências, planos futuros e sobre a sua relação com os leitores, incluindo com os brasileiros. Confira como foi a conversa:
Sua série 'Antes que o Café Esfrie' alcançou sucesso no Brasil, com mais de 200 mil cópias vendidas. Qual a sua expectativa para os encontros com os leitores brasileiros e o que o levou a incluir o Brasil em sua agenda?
Foi uma surpresa imensa descobrir que tantos leitores no Brasil acompanham meu trabalho, e sou profundamente grato por isso. Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de conhecer leitores e escritores de diferentes países e, em cada encontro, recebi inspiração e coragem. O que mais me emociona é perceber que, apesar das diferenças de país e cultura, conseguimos nos conectar através da literatura.
O que me motivou a visitar o Brasil foi ouvir que os brasileiros são calorosos e têm uma forte valorização da família. Como minhas histórias abordam temas universais como família, despedida e amor, acredito que essa sensibilidade criará uma conexão ainda mais profunda com os leitores daqui. Além disso, o Brasil tem uma forte cultura do café, então acho que contribui para um entendimento comum com a cafeteria, cenário da obra.
A ideia para 'Antes que o Café Esfrie' surgiu de uma lembrança pessoal, da sua infância, envolvendo sua mãe, que enfrentou a dor da perda de seu pai com um sorriso. Como essa experiência tão íntima moldou a essência da sua escrita e a mensagem central de esperança e resiliência presente em toda a série?
Meu pai morreu de doença cardíaca quando eu tinha 12 anos. Na noite do funeral, minha mãe fez suco para mim, meu irmão mais velho e meu irmão mais novo com um sorriso no rosto. Ela provavelmente acreditava que, se deixasse abater, não seria bom para nós, crianças. Foi assim que aprendi que, por mais dura que seja a realidade, tudo depende de como escolhemos enfrentá-la.
Essa experiência está na raiz do tema central das minhas obras: a força de viver. No romance, coloco Tokita dizendo: "Mesmo que a realidade não mude, se o coração da pessoa mudar, então essa cadeira (a vida) também terá um significado importante." Essa é, na essência, a lição que recebi de minha mãe.
Na série, os personagens não têm o poder de mudar o passado. Mas a forma como encaram e reinterpretam o que viveram lhes permite encontrar forças para seguir adiante. Essa é a mensagem constante em minhas histórias: mesmo nos momentos mais difíceis, é possível continuar caminhando com esperança. É esse ensinamento precioso, transmitido pelo sorriso da minha mãe, que busco compartilhar com os leitores através das minhas obras.
Seus livros já foram traduzidos para mais de 40 idiomas e já alcançaram a marca de 5 milhões de cópias vendidas. A que você atribui esse apelo universal da sua história, que transcende barreiras culturais e linguísticas?
Ao ouvir números tão expressivos, mais uma vez, sinto-me imensamente grato a todos os meus leitores.
Quando escrevo, sempre tenho em mente criar algo que possa ser compreendido tanto por pessoas de 30 anos atrás e para pessoas daqui a 30 anos. Por isso, basicamente procuro retratar emoções humanas universais. Acredito que emoções como arrependimento, despedida e amor, que surgem em relacionamentos que todos vivenciamos, seja entre amantes, casais, irmãos ou pais e filhos, são comuns em todos os países e culturas.
Além disso, costumo dizer aos atores quando dirijo teatro que "é difícil fazer as pessoas sentirem o sabor de uma fruta que nunca provaram". É por isso que busco escrever sobre temas tão familiares e acessíveis na medida do possível. Acredito que, embora os contextos culturais sejam diferentes, os sentimentos mais profundos do ser humano são sempre os mesmos.
Muitos classificam os seus livros no gênero ficção de cura. Como você define essa classificação e quais elementos considera cruciais para que uma obra ofereça esse senso de conforto e reflexão ao leitor?
Para mim, a ficção de cura (ou de conforto) é aquela que toca o coração do leitor e lhe oferece força para seguir vivendo. Não é uma forma de escapar da realidade dolorosa, mas de encará-la e, ainda assim, encontrar esperança dentro dela.
Seus elementos essenciais são: a empatia, quando o leitor sente que entende o que o personagem está vivendo e a descoberta, quando, a partir da experiência dos personagens, passa a enxergar a própria vida sob uma nova perspectiva.
Sempre penso nisso: mesmo que, no momento da leitura, o livro não cause um impacto imediato, se daqui a dois ou cinco anos, diante de uma dificuldade inesperada, o leitor se lembrar de alguma passagem, já terá valido a pena. É por isso que desejo continuar escrevendo histórias que possam estar ao lado dos leitores em seus momentos mais difíceis.
E, como aprendi com minha mãe, acredito que devemos agir sempre considerando a dor do outro. Por isso, reflito constantemente se o que escrevo poderia, de alguma forma, ferir alguém.
Você planeja continuar expandindo o universo de 'Antes que o Café Esfrie', ou já tem outros projetos literários em vista para o futuro?
Atualmente, estou trabalhando no sétimo volume da série [apenas quatro volumes foram publicados no Brasil]. A princípio, planejava encerrar no terceiro livro, mas, durante um bloqueio criativo, percebi que ainda havia histórias escondidas no universo do Café. Afinal, existem tantas pessoas no mundo enfrentando dores e desafios ainda maiores.
No momento, escrevo narrativas situadas no início da cronologia, quase como um "episódio 0" de Star Wars: como nasceu o Café Funiculì Funiculà, qual é o segredo daquela cadeira misteriosa. Há ainda muitos episódios que desejo compartilhar.
Ao mesmo tempo, quero me dedicar a obras totalmente novas, diferentes da série do Café. Meu tema constante tem sido a "força de viver", mas agora sinto vontade de escrever algo em que o protagonista encare obstáculos ainda maiores, lute e siga em frente.
Sigo também com minhas atividades no teatro e trabalhando em roteiros para o anime. Às vezes lamento ter apenas um corpo, mas meu desejo é continuar levando histórias ao público de várias formas.
Continuarei me esforçando para que os leitores brasileiros sigam apreciando minhas obras por muito tempo.