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Indicada ao Oscar, autora de 'Hamnet' conta que aprendeu a fazer falcão voar para escrever livro que deu origem ao filme

Filme baseado no romance da escritora Maggie O'Farrell recebeu oito indicações ao Oscar

23 jan 2026 - 15h53
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Maggie O'Farrell diz que Jessie Buckley é a 'Agnes dos sonhos'
Maggie O'Farrell diz que Jessie Buckley é a 'Agnes dos sonhos'
Foto: Universal Pictures/Focus Features / BBC News Brasil

A escritora do livro Hamnet e roteirista do filme de mesmo nome, Maggie O'Farrell, descreveu como "muito surreal" sua indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado, anunciada ontem (22/01). Ela concorre na categoria em conjunto com Chloe Zhao, que também é diretora do filme.

O'Farrell disse que o livro "parece [seu] filho" e que "o filme é um esforço verdadeiramente colaborativo".

Baseado no romance premiado de O'Farrell, Hamnet (Ed. Intrínseca, 2021) é uma narrativa fictícia sobre a vida do escritor inglês William Shakespeare (1564-1616) e de sua esposa Agnes (c.1556-1623). O livro venceu prêmios como o Women's Prize for Fiction e o National Book Critics Circle Award.

O livro e o filme contam como a morte do filho do casal pode ter influenciado uma das obras mais celebradas do dramaturgo, Hamlet.

A produção recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, melhor roteiro e melhor atriz para Jessie Buckley, natural de County Kerry (Irlanda), que interpreta Agnes.

O filme de terror Pecadores quebrou o recorde de maior número de indicações ao Oscar recebidas por um único longa, com 16 nomeações, seguido por Uma Batalha Após A Outra, que obteve 13 indicações. O filme brasileiro O Agente Secreto recebeu quatro indicações.

Maggie O'Farrell adaptou seu livro para as telas de cinema
Maggie O'Farrell adaptou seu livro para as telas de cinema
Foto: EPA / BBC News Brasil

Indicação ao Oscar 'nunca passou pela minha cabeça'

O'Farrell, natural de Coleraine (Irlanda do Norte), disse que uma indicação ao Oscar "não era algo que jamais imaginei que aconteceria comigo".

"É muito, muito estranho. Nunca passou pela minha cabeça", afirmou à BBC News NI (serviço da Irlanda do Norte da BBC).

A autora disse que, se recebesse um convite extra para alguém acompanhá-la na cerimônia, a disputa seria "acirrada" entre seus três filhos e o marido.

"Acho que vou deixá-los decidir entre si", brincou.

O'Farrell afirmou que seu telefone "explodiu" com mensagens, principalmente com perguntas sobre qual roupa ela usaria no tapete vermelho.

"Alguém perguntou se eu usaria um vestido cisne da [cantora e compositora islandesa] Björk, e estou bastante tentada; seria divertido", acrescentou. "Acho que minhas filhas adolescentes nunca me perdoariam."

A cerimônia do Oscar ocorrerá em 15 de março, em Los Angeles.

Buckley 'hipnotizante' em Hamnet

Hamnet, dirigido por Chloe Zhao (ao centro), tem sido bem recebido em cerimônias de premiação, com Jessie Buckley e Paul Mescal conquistando troféus
Hamnet, dirigido por Chloe Zhao (ao centro), tem sido bem recebido em cerimônias de premiação, com Jessie Buckley e Paul Mescal conquistando troféus
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Havia grandes expectativas em torno de uma indicação ao Oscar para o ator irlandês Paul Mescal, que interpretou Shakespeare como um coadjuvante de Buckley em Hamnet.

Mas ele foi "esnobado", como classificaram alguns em Hollywood, e não recebeu a indicação. Os cinco atores que vão concorrer ao prêmio de Melhor Ator Coadjuvante são: Stellan Skarsgård (Valor Sentimental), Jacob Elordi (Frankenstein), Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra), Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) e Delroy Lindo (Pecadores).

O'Farrell já havia dito à BBC que sempre via Mescal como seu Shakespeare.

Buckley, por outro lado, recebeu sua indicação ao Oscar pelo papel de Agnes em Hamnet. Ela já havia sido indicada em 2022 na categoria de melhor atriz coadjuvante por A Filha Perdida, mas não levou o prêmio (a vencedora foi Ariana DeBose, por Amor, Sublime Amor).

Buckley, de 36 anos, é considerada uma das favoritas ao prêmio deste ano. Ela ganhou um Globo de Ouro no início deste mês (11/01), o que abriu caminho para uma temporada de premiações promissoras em Hollywood. Ela disse ao veículo The Hollywood Reporter que estava "emocionada" com a indicação, acrescentando que o que ela e Mescal criaram juntos é "muito especial para nós".

"Não há nada do que criei ou do que criamos nesta história que exista sem Paul e sem o que ele colocou nela", disse Buckley. "Portanto, o que é reconhecido pertence a ele tanto quanto seria reconhecido em sua própria categoria."

Falando sobre a indicação de Buckley na categoria de melhor atriz, O'Farrell disse estar encantada.

"Estou tão feliz por ela", declarou. "Ela colocou todo o seu coração, sua alma e seus ossos naquele papel."

O'Farrell acrescentou: "Ela é simplesmente hipnotizante. Não dá para tirar os olhos dela da tela."

A mãe de Buckley, Marina, foi questionada se era surreal ouvir o nome da filha sendo anunciado no palco.

"Ah, com certeza é", disse à emissora irlandesa RTÉ. "Já assisti a Hamnet várias vezes e, toda vez que me sento, fico maravilhada com o trabalho, e preciso me beliscar e dizer 'essa é minha filhinha lá em cima'."

Ela afirmou estar "tão orgulhosa" da filha "porque isso é a culminação de uma vida inteira, anos e anos de trabalho". "É maravilhoso que agora tenha sido reconhecido. Estou realmente emocionada. Que conquista para todos eles."

Natural de Kerry, Buckley é 'uma contadora de histórias'

No condado de Kerry (Irlanda), parentes de Buckley se reuniram em Killarney para assistir ao anúncio do nome da atriz.

O primo Brendan Fuller disse que todos na Irlanda haviam sido "contagiados" pela empolgação com o Oscar, comparando a cerimônia de Hollywood à final do All-Ireland da Gaelic Athletic Association, algo equivalente a uma final de Copa na Irlanda.

"Independentemente do resultado, ficaremos felizes. É uma grande conquista chegar à final, então torcemos para que a bola caia do lado dela naquele dia de março", afirmou.

O tio Sean Buckley disse que a família estava "nas nuvens" com a segunda indicação da atriz ao Oscar.

A tia Carol Dempsey ressaltou que Buckley "trabalhou muito ao longo de toda a vida".

"Ela escolheu papéis desafiadores que contam uma história, e diz que [Buckley] é uma contadora de histórias, e realmente conta uma grande história."

Como foi a pesquisa para escrever Hamnet

A escritora Maggie O'Farrell nasceu na Irlanda do Norte, de pais irlandeses, mas cresceu no País de Gales e na Escócia.

"Eu cresci principalmente no Reino Unido, mas visitávamos a Irlanda o tempo todo durante minha infância; é uma parte muito importante da minha identidade e de quem eu sou", disse.

O filme tem um tom particularmente irlandês, segundo O'Farrell,.

Ao falar sobre a pesquisa para seu romance, O'Farrell disse: "Não faltam livros sobre Shakespeare. "Você poderia passar o resto da vida lendo livros sobre Shakespeare, e muitas pessoas fazem isso."

O'Farrell leu extensivamente sobre o dramaturgo, mas afirmou que ainda há "muita coisa sobre sua biografia que não sabemos".

"Não há muito escrito sobre a esposa de Shakespeare, sua mãe ou suas filhas", disse.

"São pessoas cuja história foi escrita na água e são muito mais notas de rodapé em sua história."

Para entender a vida das personagens femininas, O'Farrell disse que a pesquisa foi "mais prática".

"Aprendi a fazer um falcão voar, o que é, na verdade, a coisa mais divertida que já fiz em nome do trabalho", disse.

"Fiz pão usando uma receita Tudor [1485-1603], plantei meu próprio jardim medicinal elizabetano e participei de um curso para aprender a transformar plantas em remédios."

No livro e no filme, há rumores de que Agnes seja filha de uma bruxa da floresta. No filme, ela aparece passando tempo com seu falcão de estimação e colhendo ervas para preparar remédios e uma habilidade quase sobrenatural de pressentir o futuro.

Hamnet imagina como teria sido a vida familiar de William e Agnes Shakespeare e a dolorosa perda de um de seus filhos
Hamnet imagina como teria sido a vida familiar de William e Agnes Shakespeare e a dolorosa perda de um de seus filhos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas ela não consegue salvar seu filho pequeno da peste, uma morte que leva o pai do menino a escrever uma das maiores obras literárias da história, Hamlet. E quase nada disso é verdade de forma verificável.

Hamnet é uma obra de imaginação inspirada, uma rica exploração do luto tecida a partir dos fatos mais básicos.

Os poucos fatos conhecidos sobre a família de Shakespeare são amplamente superados pelas questões que suscitam. Os registros mostram que, em 1582, William Shakespeare, então com 18 anos, casou-se com Anne Hathaway, de 26 anos, que estava grávida de sua primeira filha, Susanna. Três anos depois, nasceram os gêmeos Judith e Hamnet, um nome que na época era intercambiável com Hamlet.

Em 1596, quando tinha apenas 11 anos, Hamnet morreu. Ele foi enterrado em 11 de agosto e é quase certo que Shakespeare, que estava viajando com sua trupe de teatro, não teria conseguido voltar a Stratford (onde a família morava) a tempo para o funeral. Cerca de quatro anos depois, ele escreveu Hamlet.

Ninguém sabe se Shakespeare se sentiu forçado a casar com Anne, que estava grávida, ou se eles estavam perdidamente apaixonados. Ninguém sabe como Hamnet morreu, mas a peste assolava o mundo na época e essa é a causa mais provável de sua morte. E, crucialmente para o livro e o filme, ninguém sabe muito sobre a própria Anne, inclusive se ela sabia ler e escrever. A obra a apresenta com uma personalidade forte e um romance apaixonado com Shakespeare. Por isso, Hamnet, no fundo, é sobre Agnes. Ou Anne?

Até mesmo seu nome é incerto. Seu pai, um fazendeiro bem-sucedido, deixou-lhe um dote em testamento, chamando-a de Agnes. O'Farrell optou por dar esse nome à sua personagem, imaginando que "[se] alguém soubesse seu nome, seria seu pai". Ela diz: "Pareceu-me muito emblemático que, além de tudo, nem sequer acertássemos o nome dela".

Este desenho de 1708 é a única imagem de Anne, ou Agnes Hathaway, que chegou aos nossos dias
Este desenho de 1708 é a única imagem de Anne, ou Agnes Hathaway, que chegou aos nossos dias
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Descobrir seu nome verdadeiro é mais complicado. David Scott Kastan, um renomado estudioso de Shakespeare e professor emérito de inglês na Universidade Yale (EUA), disse à BBC: "Ela é Anne em quase todos os registros, Agnes apenas em um: o testamento de seu pai." Nada mais é certo. É possível, diz ele, "que ela tenha nascido Agnes, mas fosse chamada de Anne". Ele acrescenta: "Gosto da maneira como o romance usa essa possibilidade para lhe dar sua própria identidade, além do casamento sobre o qual sabemos muito pouco e que sempre vemos através das lentes de Shakespeare."

Em uma nota ao final de seu romance, O'Farrell reconhece o quão pouco se sabe sobre Hamnet e seus pais. Mas ela fundamenta sua história em uma pesquisa minuciosa sobre o final do século 16 e a situa nesse contexto histórico. Ao pesquisar o período, ela conta à BBC: "Me distraí um pouco com a forma como a história e os estudos acadêmicos trataram mal a esposa [de Shakespeare], a mulher que nos ensinaram a chamar de Anne Hathaway. Só nos foi apresentada uma narrativa sobre ela, e a maioria dos biógrafos simplesmente a adotou: a de que ela era uma camponesa analfabeta que o obrigou a se casar com ela, que ele a odiava e que fugiu para Londres para escapar dela."

O'Farrell tem razão quanto à difamação da esposa de Shakespeare. Jo Eldridge Carney, autora do estudo "Women Talk Back to Shakespeare: Contemporary Adaptations and Appropriations" e professora de inglês no The College of New Jersey (EUA), disse à BBC: "Essa representação [de O'Farrell] é uma refutação deliberada de séculos de suposições mal informadas sobre Anne, ora como uma santa paciente, porém entediante, cuidando do lar em Stratford, ora como a bruxa promíscua que levou Shakespeare a um casamento infeliz."

O'Farrell (à direita) disse que, no início, não tinha certeza se queria se envolver no processo de escrita do filme, mas afirmou que Zhao (à esquerda) é "muito persuasiva"
O'Farrell (à direita) disse que, no início, não tinha certeza se queria se envolver no processo de escrita do filme, mas afirmou que Zhao (à esquerda) é "muito persuasiva"
Foto: Joe Maher / GettyImages / BBC News Brasil

Para criar a personagem singular de Agnes, O'Farrell fez uma engenharia reversa a partir das peças de Shakespeare. "O que eu fiz foi revisitar as peças e lê-las de uma maneira diferente, para ver se conseguia encontrá-la, porque sempre senti que consigo ver Hamnet em Hamlet. Mas eu me perguntava - pensei que ela deveria estar lá."

Uma das inspirações para a intuição de Agnes vem dessas releituras. "Há muita clarividência nas peças. Pense no oráculo de Júlio César, por exemplo", diz O'Farrell. O conhecimento de ervas e poções da Agnes ficcional também encontra paralelo nas peças, notavelmente no monólogo de Ofélia em Hamlet, quando ela parece estar enlouquecendo e entrega flores e plantas a outros personagens, com falas como "Alecrim, isso é para lembrança".

"Li que, naquela época, todas as casas tinham um jardim medicinal", diz O'Farrell. "E teria sido responsabilidade da mulher da casa, da matriarca, saber como fazer remédios e tratar doenças. Não seria algo que os homens soubessem." Para esta fala, diz O'Farrell, ela consegue imaginar Shakespeare confiando na experiência de sua esposa.

Ainda não sabemos se a esposa de Shakespeare sabia ler. A personagem fictícia Agnes sabe, mas a própria O'Farrell acredita que ela provavelmente era analfabeta na vida real. "Seria considerado inútil ensinar a filha de um criador de ovelhas a ler", afirma.

Inicialmente, O'Farrell não tinha certeza sobre se envolver no processo de escrita do filme, mas disse que Zhao é uma "pessoa muito persuasiva".

"Foi realmente interessante, sinto que aprendi bastante, mas estava apreensiva no começo", disse. "Sei construir uma narrativa para a página, mas não sabia como construir uma para o cinema."

No entanto, O'Farrell afirmou que ela e Zhao têm "habilidades diferentes, mas compatíveis".

"Ela é muito boa na visão macro do que o filme precisava ser e tinha uma ideia clara de quais trechos do livro iria manter", disse.

Enquanto isso, O'Farrell afirmou que pôde ajudar na criação de cenas com diálogos do século 16.

"Meus filhos me chamam de neek", brincou, "uma mistura de geek com nerd".

*Com reportagem adicional de Caryn James

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