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A experiência com 36 perguntas para 'te fazer se apaixonar por qualquer pessoa' criada há 30 anos

O estudo buscava criar proximidade entre desconhecidos por meio de um questionário que se tornava cada vez mais pessoal. Para a escritora Mandy Len Catron, funcionou

14 fev 2026 - 07h49
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O que acontece depois de 36 perguntas e quatro minutos se olhando diretamente nos olhos?
O que acontece depois de 36 perguntas e quatro minutos se olhando diretamente nos olhos?
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Para se apaixonar por qualquer pessoa, faça isto."

O título era extremamente provocador. E irresistível.

Era um artigo publicado na seção Modern Love ("Amor Moderno", em tradução livre) do jornal americano The New York Times, assinado pela escritora Mandy Len Catron, e que rapidamente se tornou um fenômeno viral.

Na verdade, foi uma das matérias mais lidas do jornal naquele 2015.

No texto, Catron relatava que ela e um conhecido da universidade decidiram testar um experimento criado por psicólogos que tentava "fazer duas pessoas se apaixonarem".

O estudo, de 1997, foi liderado pelo psicólogo Arthur Aron, da Universidade de Stony Brook, em Nova York (EUA). A metodologia era simples, mas poderosa.

O experimento consistia em colocar dois desconhecidos sozinhos em uma sala, sentados frente a frente, respondendo a 36 perguntas que se tornavam cada vez mais pessoais.

Ao final, explicava Catron, os dois deveriam se olhar nos olhos por quatro minutos em silêncio.

"Seis meses depois, dois participantes se casaram. Eles convidaram o laboratório todo para a cerimônia", dizia.

Talvez o aspecto mais encantador do artigo fosse que o experimento também funcionou para ela e para o colega que respondeu ao questionário.

Sim, eles se apaixonaram.

É verdade que não eram desconhecidos e que não realizaram o experimento em um laboratório, mas em um bar. Ainda assim, as perguntas criaram um "espaço íntimo" que, em outras circunstâncias, "poderia levar semanas ou meses" para surgir.

"Embora seja difícil atribuir todo o mérito ao estudo (talvez tivesse acontecido de qualquer maneira), foi uma forma de iniciar uma relação que parece intencional", escreveu.

E há mais: no ano passado, dez anos após aquele experimento, eles se casaram.

Então, isso significa que funciona?

A escritora americana Mandy Len Catron é autora do livro How to Fall in Love with Anyone ("Como se apaixonar por qualquer pessoa", em tradução livre)
A escritora americana Mandy Len Catron é autora do livro How to Fall in Love with Anyone ("Como se apaixonar por qualquer pessoa", em tradução livre)
Foto: Jennilee Marigomen / BBC News Brasil

As 36 perguntas

Antes de explicar os pontos fortes e as limitações do estudo, vale começar pelo que desperta mais curiosidade: as 36 perguntas.

O questionário, descrito como um "procedimento de geração de proximidade", elaborado por Aron e sua equipe, está dividido em três blocos.

Grupo 1:

1. Se pudesse escolher qualquer pessoa do mundo, quem convidaria para um jantar?

2. Você gostaria de ser famoso? De que forma?

3. Antes de fazer uma ligação telefônica, você ensaia às vezes o que vai dizer? Por quê?

4. Como seria um dia "perfeito" para você?

5. Quando foi a última vez que você cantou para si mesmo? E para outra pessoa?

6. Se pudesse viver até os 90 anos e manter a mente ou o corpo de alguém de 30 anos durante os últimos 60 anos de vida, qual escolheria?

7. Você tem algum pressentimento secreto sobre como vai morrer?

8. Cite três coisas que você e seu parceiro parecem ter em comum.

9. Pelo que você se sente mais grato em sua vida?

10. Se pudesse mudar qualquer coisa na sua criação, o que seria?

11. Reserve quatro minutos e conte ao seu parceiro a história da sua vida com o máximo de detalhes possível.

12. Se pudesse acordar amanhã tendo adquirido qualquer qualidade ou habilidade, qual seria?

Segundo o estudo original, "um padrão fundamental associado ao desenvolvimento de um relacionamento próximo entre pares é a autorrevelação sustentada, crescente, recíproca e pessoal"
Segundo o estudo original, "um padrão fundamental associado ao desenvolvimento de um relacionamento próximo entre pares é a autorrevelação sustentada, crescente, recíproca e pessoal"
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Grupo 2:

13. Se uma bola de cristal pudesse revelar a verdade sobre você, sua vida, o futuro ou qualquer outra coisa, o que você gostaria de saber?

14. Existe algo que você sonha fazer há muito tempo? Por que ainda não fez?

15. Qual é a sua maior conquista na vida?

16. O que você mais valoriza em uma amizade?

17. Qual é a sua lembrança mais preciosa?

18. Qual é a sua lembrança mais terrível?

19. Se soubesse que vai morrer daqui a um ano, mudaria algo na forma como vive hoje? Por quê?

20. O que a amizade significa para você?

21. Que papel desempenham o amor e o afeto na sua vida?

22. Revezem-se para compartilhar cinco características que cada um considera positivas no outro.

23. Quão unida e afetuosa é sua família? Você sente que a sua infância foi mais feliz do que a da maioria das pessoas?

24. Como você se sente em relação à sua relação com a sua mãe?

"O que você mais valoriza em uma amizade?" e "O que a amizade significa para você?" são algumas das perguntas do questionário
"O que você mais valoriza em uma amizade?" e "O que a amizade significa para você?" são algumas das perguntas do questionário
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Grupo 3:

25. Revezem-se para fazer três afirmações verdadeiras que envolvam os dois. Por exemplo: "Nós dois estamos nesta sala nos sentindo…".

26. Complete a frase: "Gostaria de ter alguém com quem compartilhar…".

27. Se fosse se tornar amigo próximo do seu parceiro, o que seria importante que ele soubesse?

28. Diga ao seu parceiro o que você gosta nele; seja muito sincero desta vez, mencionando coisas que não diria a alguém que acabou de conhecer.

29. Compartilhe com seu parceiro um momento constrangedor da sua vida.

30. Quando foi a última vez que você chorou diante de outra pessoa? E sozinho?

31. Diga ao seu parceiro algo de que você gosta nele.

32. Existe algo sério demais para fazer piada? O quê?

33. Se você morresse hoje à noite sem poder falar com ninguém, o que mais se arrependeria de não ter dito? Por que ainda não disse?

34. Sua casa está pegando fogo. Depois de salvar as pessoas e os animais, você pode voltar uma última vez para pegar um objeto. Qual escolheria? Por quê?

35. De todas as pessoas da sua família, qual a morte seria a mais dolorosa? Por quê?

36. Compartilhe um problema pessoal e peça ao seu parceiro um conselho sobre como poderia enfrentá-lo. Além disso, peça que ele diga como acredita que você se sente em relação ao problema escolhido.

O estudo de 1997 relata que um casal que se conheceu no laboratório acabou se casando
O estudo de 1997 relata que um casal que se conheceu no laboratório acabou se casando
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Proximidade sem feitiço mágico

Embora a história de amor de Mandy Len Catron seja real, o artigo apresentava dados incorretos ou imprecisos sobre o estudo original.

Alguns pontos são detalhes, como o exercício final de se olhar nos olhos por quatro minutos, que não fazia parte do experimento.

Mas outros são mais relevantes.

No próprio artigo científico, os autores esclarecem que o objetivo do questionário era "desenvolver um sentimento temporário de proximidade, não um relacionamento real e duradouro".

O que a equipe fez foi aplicar o conhecimento disponível à época sobre como se constrói uma relação próxima (que pode ser romântica, mas também de amizade) para criar um procedimento capaz de gerar o máximo de intimidade no menor tempo possível (45 minutos, especificamente).

Segundo o estudo, "um padrão fundamental associado ao desenvolvimento de um relacionamento próximo entre pares é a autorrevelação sustentada, crescente, recíproca e pessoal".

A "autorrevelação" é o intercâmbio de informações pessoais ou particulares que uma pessoa revela à outra durante uma conversa.

É por isso que o questionário se torna progressivamente mais íntimo.

O mesmo ocorre com perguntas que buscam destacar pontos em comum entre os participantes e estimular elogios mútuos.

Com esse procedimento, explicam os pesquisadores, é possível selecionar participantes para formar uma relação em laboratório e, assim, medir variáveis antes, durante e depois da interação — de alterações hormonais a atitudes e preconceitos sociais.

Estudos recentes recorreram ao método, por exemplo, para criar vínculos entre estudantes em ensino remoto, modalidade que costuma apresentar altas taxas de evasão.

"Acreditamos que a proximidade produzida nesses estudos é vivenciada de forma semelhante, em muitos aspectos importantes, à proximidade sentida em relações naturais que se desenvolvem ao longo do tempo", afirmaram Aron e seus colegas.

'Acho que a maioria das pessoas quer se sentir vista e compreendida por outra', disse Catron à BBC News Mundo
'Acho que a maioria das pessoas quer se sentir vista e compreendida por outra', disse Catron à BBC News Mundo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Catron, naturalmente, descreveu "o procedimento" de forma muito mais romântica e emotiva.

"As perguntas me lembraram o famoso experimento do sapo na panela com água quente, em que o animal não percebe que a água está esquentando até que seja tarde demais", disse.

"No nosso caso, como o nível de vulnerabilidade aumentava gradualmente, eu não percebi que já tínhamos entrado em um território íntimo até estarmos lá, um processo que costuma levar semanas ou meses", acrescentou.

Depois refletiu: "A maioria de nós pensa no amor como algo que simplesmente nos acontece (...). Mas o que gosto neste estudo é que ele parte do princípio de que o amor é uma ação".

É "fazer o esforço de conhecer alguém, que, na verdade, é também uma história sobre o que significa alguém te conhecer".

Trinta anos depois, o tema segue atual

Muita coisa mudou na vida de Catron desde a publicação do texto viral.

Ela lançou o livro How to Fall in Love with Anyone ("Como se Apaixonar por Qualquer Pessoa", em tradução livre), fez uma palestra TEDx e criou uma newsletter sobre amor, entre outros projetos profissionais.

Na vida pessoal, além de se casar com aquele "conhecido" chamado Mark Janusz Bondyra, o casal teve gêmeos.

Até hoje, o ensaio "continua sendo muito lido", informou no ano passado o jornal americano The New York Times em reportagem sobre o casamento.

Na cerimônia, segundo o relato, cartões com as 36 perguntas foram colocados nas mesas e no bar, em referência ao início da história do casal.

Embora, ao longo desses 11 anos, Catron tenha tentado se afastar da posição de "caso de estudo", ela reconhece por que seu ensaio, e sua própria história de amor, ainda despertam interesse.

Essa ferramenta, segundo Catron, "é valiosa para qualquer pessoa", inclusive familiares e amigos
Essa ferramenta, segundo Catron, "é valiosa para qualquer pessoa", inclusive familiares e amigos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Acho que a maioria das pessoas quer se sentir vista e compreendida por outra", disse Catron à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

E acrescentou: "Esse desejo se tornou especialmente forte nos últimos 10, 15 anos, com grande parte da nossa vida social mediada por telas".

Para ela, "as 36 perguntas oferecem uma estrutura que torna esse tipo de vulnerabilidade e conexão mais acessível".

Catron está convencida de que a ferramenta "é valiosa para qualquer pessoa", inclusive familiares e amigos: "É uma forma maravilhosa de aprender mais sobre si mesmo e sobre o outro".

No entanto, quando se trata de relacionamentos amorosos, ela escreveu no ensaio: "O estudo de Arthur Aron me ensinou que é possível (até simples) gerar confiança e intimidade, os sentimentos que o amor precisa para prosperar".

Mas, como afirmou diversas vezes desde então, apaixonar-se é fácil; permanecer apaixonado é o desafio. Isso implica em escolher um ao outro repetidamente.

Por isso, contou em sua palestra TEDx, embora gostasse de ter a certeza de um final feliz como sugere o título de seu ensaio, a realidade é diferente.

"O que tenho, em vez disso, é a oportunidade de escolher amar alguém e a esperança de que ele também me ame. É assustador, mas é assim que o amor funciona."

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