A ascensão de Caravaggio: a hora de brilhar do anti-herói
ROMA - Pelo menos segundo um novo e divertido critério, o domínio não-oficial de Michelangelo no topo das paradas da arte italiana terminou após 500 anos. Caravaggio, que de alguma forma encontrava tempo para pintar quando não estava brigando, escandalizando figurões, caçando mulheres (e homens), assassinando um oponente no tênis com uma adaga na virilha ou tendo seu rosto mutilado por um de seus muitos inimigos, ocupou seu lugar.
Isso de acordo com um historiador da arte da Universidade de Toronto, Philip Sohm. Ele tem acompanhado o número de trabalhos (livros, catálogos e artigos acadêmicos) sobre os dois durante os últimos 50 anos. Sohm descobriu que Caravaggio gradualmente, embora de modo irregular, ultrapassou Michelangelo.
Ele tem gráficos que provam isso.
A mudança, mais óbvia a partir de meados dos anos 1980, não significa exatamente que Michelangelo caiu no esquecimento. A julgar pela multidão que lota a Capela Sistina e faz fila do lado de fora da Accademia em Florença para conferir Davi, sua popularidade não diminuiu.
Mas, com ou sem gráficos, Sohm está tratando de algo importante. A caravaggiomania, como ele chama, implica não apenas que os doutorandos de história da arte estejam com dificuldades para bolar algo novo a se dizer sobre Michelangelo. Ela sugere que toda a tradição clássica na qual Michelangelo esteve imerso se torna cada vez mais estranha às pessoas e, portanto, aparentemente menos pertinente, mesmo para gente com formação. Seus homens de músculos sobrenaturais, que arremessam os condenados ao inferno ou lutam para emergir de grossos blocos de mármore, aspiravam a um ideal abstrato e antigo de sublime, baseado na retórica da Renascença, que as gerações pós-guerra agora consideram estar ao lado da poesia de Alexander Pope e das peças de Corneille: admiráveis, mas de um esplendor culturalmente remoto.
Caravaggio, por outro lado, exemplifica o anti-herói moderno, um hiperrealista cuja arte é instantaneamente acessível. Seus rapazes de olhos inocentes e cabelos desgrenhados, com lábios carnudos e nádegas arredondadas, parecem que acabaram de sair da cama, não de terem descido do paraíso. Rudes, não divinos, presos em espaços escuros e ambíguos de geometria estrita e depois realçados para fora das sombras por uma luz oracular, seus modelos são encontrados nas ruas. O cupido é claramente um bebê em quem Caravaggio prendeu um par de asas falsas. O anjo de A Anunciação balança como o vagabundo de Chaplin sobre a corda bamba em O Circo, no que deve ter sido algum dispositivo de cordas que Caravaggio inventou.
A comunidade artística de Roma na virada do século 17, imersa no frufru mandarim do final do Maneirismo, desprezava Caravaggio pelos peregrinos sujos e descalços que pintava na soleira de Maria. Com o intuito de "destruir a pintura", na opinião de Nicolas Poussin, o mais magnânimo dos artistas franceses, Caravaggio se conectava com as pessoas comuns, aqueles que estavam tão sujos e descalços quantos peregrinos em Roma. E, felizmente para Caravaggio, ele também chamava a atenção de uma série de benfeitores ricos e poderosos.
Mas quase imediatamente após ter morrido de uma febre aos 38 anos, em 1610, na praia de Porto Ercole, a norte de Roma, a arte de Caravaggio foi descrita por críticos como uma moda passageira e negligenciada por centenas de anos, preparando o palco para sua ressurreição moderna. Especialistas como Bernard Berenson ainda descartavam seu trabalho há um século, quando Lionello Venturi, Roger Fry e Roberto Longhi, entre outros, finalmente deram nova vida à sua reputação como protomodernista.
Sohm, que anunciou suas descobertas durante uma fala na conferência da College Art Association em Chicago, no mês passado, se concentrou em publicações, não ganhos turísticos ou números de visitantes a exposições, e seu estudo não aborda como Michelangelo ou Caravaggio se comparam a gigantes de bilheteria como Rembrandt e Van Gogh.
Mas sua pesquisa corrobora o que está claro para qualquer um dentro ou fora da academia de arte, ou para alguém que já procurou por echarpes em aeroportos italianos, onde os motivos de Baco de Caravaggio e a cabeça de Golias se tornaram tão onipresentes quanto descansos de copo ostentando partes da anatomia de Davi e canecas com a figura de Adão do teto da Sistina. Caravaggio é agora usado para decorar a capa de Emerging Infectious Diseases, um periódico médico, e para divulgar um sex shop em Londres.
"A única forma de entender a arte antiga é fazê-la participar de nossa própria vida artística", como disse Venturi em 1925. O fato de Caravaggio não ter deixado desenhos, cartas, testamento ou propriedades, apenas fichas criminais e jurídicas, o torna um perfeito Rorschach para nossas obsessões. Ele foi citado nos anos 1970 por estudiosos de gênero, apesar da ausência de documentos indicando que ele fosse gay. Romancistas e cineastas do pop naturalmente já fizeram estudos de sua vida. Organizadores de exposições criam qualquer desculpa ("Caravaggio-Bacon", "Caravaggio-Rembrandt") para aproveitar sua lucratividade. Recém-descobertos Caravaggios testam o mercado todos os anos.
Não muito tempo atrás, duas obras do pintor surgiram na vila francesa de Loches, no vale Loire, no andar do órgão de uma igreja. Não importa que vários especialistas em Caravaggio desde então tenham contestado a autoria das imagens: Loches se anuncia como uma cidade de Caravaggio.
E autoridades de Porto Ercole recentemente anunciaram que seus restos mortais perdidos haviam sido descobertos em um ossário subterrâneo, sendo que os testes de DNA com descendentes de seu irmão, que vivem próximo a Milão, ainda precisam ser feitos. O iconoclasta chega até mesmo a ser transformado em ícone religioso, aparentemente: os "ossos" de Caravaggio podem em breve se tornar relíquias sagradas para os romeiros da arte.
Outra retrospectiva de Caravaggio abriu em Quirinale: duas dúzias de pinturas preciosas, em exposição até 13 de junho, estão instaladas ridiculamente em salas escurecidas com luz focalizada, como se sua arte precisasse de mais melodrama. Mas as imagens são gloriosas de qualquer forma. A exposição é sucesso de público.
Acontece também uma mostra dos desenhos de Michelangelo na galeria Courtauld, em Londres, até 16 de maio. Eles foram presentes para um belo e jovem nobre romano, Tommaso de' Cavalieri, por quem Michelangelo tinha uma queda, e tinham a intenção de ajudar Cavalieri a aprender a desenhar. Imagine Roger Federer entregando a você um DVD dele em Wimbledon, dizendo, "É só fazer isso". Esses são desenhos do mais arcano refinamento, belezas etéreas.
Por contraste, Caravaggio, jogando a arte de volta ao chão, destilou cenas em instantes teatrais nos quais parece que o tempo subitamente parou. É por isso que suas pinturas conseguem trazer à mente imagens cinematográficas. O historiador da arte Michael Fried, que recentemente escreveu um livro sobre Caravaggio, observa a qualidade de absorção das figuras. Imagens em tamanho real, elas partilham do nosso espaço e nós o delas, frente a frente, como aponta outra historiadora da arte, Catherine Puglisi (algo que não ocorre com as enormes esculturas de Michelangelo ou seus afrescos de teto que só vemos à distância). O imediatismo de alguma forma se harmoniza com o tabloide barato que é sua biografia, com todo o drama moderno da celebridade.
Numa tarde, hordas de turistas disputavam um lugar para ver os Caravaggios na Igreja de San Luigi dei Francesi e na Basilica di Santa Maria del Popolo. Deve ter sido só coincidência, mas na Igreja de Santa Maria sopra Minerva, ninguém parava para olhar o Michelangelo.