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Do fruto à castanha: por que o caju in natura vale menos

Em muitas feiras e supermercados do país, o caju aparece empilhado em caixas simples, com etiquetas de preço modestas. Por sua vez, a castanha de caju processada ocupa prateleiras mais sofisticadas, em embalagens pequenas e caras. Entenda as razões dessa diferença.

19 fev 2026 - 13h02
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Em muitas feiras e supermercados do país, o caju aparece empilhado em caixas simples, com etiquetas de preço modestas. Por sua vez, a castanha de caju processada ocupa prateleiras mais sofisticadas, em embalagens pequenas e caras. Essa diferença de valorização chama a atenção de produtores, comerciantes e consumidores. Afinal, a mesma planta gera uma fruta vendida a baixo valor e uma semente transformada em produto de alto preço, que se destina principalmente à exportação e consumo em mercados de maior poder aquisitivo.

O caju, com sua polpa suculenta em tons de amarelo, alaranjado e avermelhado, contrasta com a castanha de casca escura e miolo claro, de cor creme. Visualmente, trata-se de um conjunto que chama a atenção pela variedade de cores e formatos. Porém, na prática a parte mais vistosa da planta é a que tem menos valor na hora de formar o preço final. Por outro lado, a castanha, quase escondida na extremidade do fruto, é a que recebe o maior cuidado industrial, maior valor agregado e maior espaço no comércio internacional.

Mesmo antes do processamento, a castanha em casca costuma ter um valor unitário mais alto que o caju in natura – depositphotos.com / AntonMatyukha
Mesmo antes do processamento, a castanha em casca costuma ter um valor unitário mais alto que o caju in natura – depositphotos.com / AntonMatyukha
Foto: Giro 10

Por que o caju in natura vale tão pouco em comparação à castanha?

A diferença começa na própria dinâmica de mercado. Em muitas regiões produtoras, comercializa-se o caju in natura por quilo a valores baixos. Em especial, na safra, quando há excesso de oferta e pouca estrutura para armazenamento. Ademais, a fruta é altamente perecível, amassa com facilidade, fermenta rápido e depende de transporte ágil e refrigerado para chegar em boa condição aos pontos de venda. Assim, como boa parte dos produtores não dispõe dessa infraestrutura, o preço pago na roça tende a cair.

Já a castanha de caju segue o caminho oposto. Afinal, mesmo antes do processamento, a castanha em casca costuma ter um valor unitário mais alto. Após a etapa industrial — que inclui secagem, torra, retirada da casca, seleção, classificação e embalagem — o preço por quilo aumenta significativamente. Enquanto o caju pode aparecer em etiquetas de poucos reais por quilo em mercados locais, a castanha beneficiada, vendida em pacotes de 100 g, 200 g ou 500 g, alcança valores elevados, especialmente em grandes centros urbanos e lojas especializadas.

Essa diferença também sofre a influência da demanda. Assim, o consumo da fruta fresca ocorre sobretudo em regiões produtoras e em forma de suco, doce ou cajuína, com circulação interna limitada. Por sua vez, a castanha é um snack saudável, ingrediente de confeitaria e item gourmet, o que amplia o público que compra e sustenta preços mais altos. Além disso, a percepção de produto nobre e o apelo de alimento rico em proteínas e gorduras benéficas reforçam esse cenário.

Castanha de caju processada: como a indústria transforma preço e destino

O processo industrial é um dos principais fatores que explicam por que a castanha de caju processada custa tanto mais do que o caju in natura. Afinal, a cadeia envolve diversos passos, mão de obra especializada, equipamentos e normas de qualidade. Esses custos são incorporados à etiqueta de preço e se refletem no valor pago pelo consumidor final, tanto no mercado interno quanto nas prateleiras internacionais.

  • Secagem e torrefação da castanha em casca
  • Remoção da casca externa e da película interna
  • Seleção por tamanho, formato e integridade
  • Classificação para mercados específicos (inteiras, quebradas, torradas, salgadas, sem sal)
  • Embalagem, rotulagem e controle de qualidade

Em lojas de produtos naturais e empórios, não é raro encontrar pacotes de castanha com visual limpo, rótulos coloridos e destaque para o tom marfim ou bege-claro dos grãos, contrastando com o preço elevado por pequena quantidade. Em paralelo, o caju inteiro, com sua cor vibrante, continua sendo vendido a granel, em caixas simples. Ademais, muitas vezes sem padronização visual ou informação detalhada de origem, o que reduz sua valorização na gôndola.

Se o caju é brasileiro, por que o país não lidera mais a produção mundial?

O caju é uma fruta que tem origem no Brasil, com ampla associação às paisagens do Nordeste e à cultura alimentar brasileira. No entanto, o país já não ocupa a posição de principal produtor mundial. Nas últimas décadas, países asiáticos e africanos ampliaram suas áreas plantadas, investiram em sistemas de produção para a castanha e consolidaram forte presença no comércio internacional.

Entre os fatores que os especialistas apontam estão:

  1. Concorrência de áreas agrícolas com outras culturas mais rentáveis
  2. Baixo aproveitamento industrial do caju in natura, que poderia gerar mais derivados
  3. Investimentos desiguais em tecnologia, irrigação e melhoramento genético
  4. Estrutura de exportação mais focada na castanha do que na fruta fresca

Enquanto isso, países concorrentes direcionaram esforços para atender à demanda global por castanha de caju beneficiada, produto de fácil transporte, longa durabilidade e alto valor agregado. A fruta colorida, in natura, permanece mais ligada ao consumo regional e às tradições locais, com menor circulação internacional.

A castanha é um snack saudável, ingrediente de confeitaria e item gourmet, o que amplia o público que compra e sustenta preços mais altos – depositphotos.com / Elnur_
A castanha é um snack saudável, ingrediente de confeitaria e item gourmet, o que amplia o público que compra e sustenta preços mais altos – depositphotos.com / Elnur_
Foto: Giro 10

Como a diferença de valor aparece no bolso do consumidor e na exportação?

Nas feiras livres, o caju costuma ser vendido por quilo, com preços variando de acordo com a safra, a região e a qualidade visual da fruta. Etiquetas simples registram valores que, em muitos casos, mal cobrem os custos de colheita e transporte. Em época de produção abundante, há relatos de excedentes sendo descartados ou utilizados apenas para suco caseiro, dada a dificuldade de escoamento.

Na outra ponta, a castanha de caju processada surge com preços segmentados por tipo e apresentação. Embalagens pequenas de castanha inteira podem apresentar valores que, convertidos para o quilo, multiplicam várias vezes o preço da fruta fresca. Nos mercados internacionais, essa diferença tende a ser ainda maior, com a castanha posicionada como produto premium, enquanto o caju in natura praticamente não chega ao consumidor estrangeiro em escala relevante.

Especialistas em cadeia produtiva apontam que o maior desafio está em equilibrar essa relação, ampliando o aproveitamento da fruta colorida, amarela, laranja e vermelha, em forma de polpas congeladas, bebidas, doces e outros derivados. A castanha, de aspecto discreto, bege por dentro e mais escura por fora, seguirá como protagonista no comércio de exportação, mas o potencial do caju como fruta ainda é visto como pouco explorado em comparação com o valor gerado pela semente processada.

Giro 10
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