65 anos de Paulo Coelho: parábolas para um mundo globalizado
Ele incluiu a parábola na literatura comercial moderna, aborda temas universais e dá aos leitores esperança nas possibilidades da vida – possíveis explicações para o sucesso do escritor brasileiro mais lido no mundo.
Há duas décadas, o carioca Paulo Coelho começou a ultrapassar todo e qualquer autor brasileiro no mercado livreiro internacional, fenômeno que começou com a publicação de O Alquimista, lançado no Brasil em 1988 e que, apesar de modesta vendagem inicial, logo se tornaria o livro brasileiro mais vendido e traduzido no mundo, hoje em mais de 70 línguas.
Paulo Coelho não era completamente desconhecido do público. Já havia publicado os romances Arquivos do inferno (1982), O manual prático do vampirismo (1985) e O diário de um mago (1987), escrito após sua peregrinação pelo caminho de Santiago de Compostela.
Mas ainda que o público não conhecesse seu nome, suas palavras já haviam encontrado ressonância popular nas letras que escrevera para canções de Raul Seixas na década de 70. Um exemplo é Água viva, na qual já se pode encontrar algo do método que o levaria ao sucesso: a letra toma fortemente como base o poema místico A fonte, de San Juan de la Cruz, mas torna o texto mais acessível, popularizando o que era religioso e tido como hermético no poeta espanhol.
Essa popularização, entre o misticismo e a autoajuda, se transformaria numa mina de ouro especialmente nos livros publicados na década de 90, como Brida (1990), As valkírias (1992) ou Maktub (1994), nos quais Paulo Coelho passa a praticar uma espécie de turismo pelas religiões, que o leva da bruxaria ao cristianismo, passando pelo paganismo e a cultura muçulmana.
Os livros, que podem ser facilmente decodificados em suas lições de moral, encontram um largo público, que não está interessado nem nas experimentações difíceis da prosa contemporânea nem na literatura frágil dos chamados romances "água com açúcar".
Em artigo para a revista Fórum, no qual resenha o último livro do autor – Manuscrito encontrado em Accra – o professor e crítico Idelber Avelar definiu bem o fenômeno Paulo Coelho ao escrever que ele traduz, para a literatura comercial moderna, o gênero da parábola. "De larga tradição, dos Evangelhos à contística didática medieval, a parábola não se reduz à autoajuda porque nela opera o discurso ficcional, desestabilizando a aparente univocidade do ensinamento. Daí o fascínio de tantos leitores: simples e compreensível, a parábola preserva uma dose de mistério."