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Esporte, lazer e ativismo levam mulheres às ruas de BH

Coletivos cicloativistas promovem reflexões em torno da mobilidade das mulheres. Para as que moram nas favelas, desafios são maiores

21 dez 2021 12h00
| atualizado em 22/12/2021 às 09h38
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Terça das Manas - Mulheres saem às ruas de Belo Horizonte em grupos
Terça das Manas - Mulheres saem às ruas de Belo Horizonte em grupos
Foto: Úrsula Jauar / ANF

Terça-feira, 16h20. “Você quer uma ‘bici’ para acompanhar a gente? Eu te empresto, tenho duas”, oferece Lucilene Alencar, 41 anos, professora, pesquisadora e integrante do Terça das Manas (TdM), coletivo de mulheres cicloativistas de Belo Horizonte. “Mas parece que vai chover”, alerta. Acompanho, apreensiva, a discussão no grupo do WhatsApp sobre a previsão do tempo.

Às 18h40, de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Lucilene atesta que não conseguiria chegar a tempo para a saída, às 20h. Além do trânsito intenso, longas distâncias fazem parte de seu trajeto cotidiano, nesse dia, intensificados pela chuva. Pouco tempo depois, a Defesa Civil emitiu alerta de tempestades e, minutos depois, o pedal do dia foi oficialmente cancelado. O grupo não chegou a sair, mas as trocas continuaram, dentro e fora dele.  

De empréstimo de equipamentos, até discussões políticas, há ali uma comunidade que faz do pedal um catalisador de demandas e desejos mais diversos, que formam uma rede de apoio. Esporte, lazer, cuidados com a saúde e ativismo se misturam desde 2018, quando o coletivo foi criado por mulheres que queriam pedalar juntas e experimentar a cidade de uma forma diferente.

Depois de um longo hiato em função da pandemia, há três meses elas retornaram aos tradicionais encontros às terças-feiras, com partida e chegada na Praça Raul Soares, na região central. Falta de bicicleta, equipamentos de segurança ou experiência não são empecilhos para quem quer participar. Até mesmo o clima chuvoso se torna “fichinha” perto do que as mulheres enfrentam para sair de casa: ausência de ciclovias e integração com transporte coletivo, assédio e ameaças.

As mulheres negras e as que moram em regiões distantes do centro da cidade, como é o caso de Lucilene, são ainda mais impactadas. Com a ideia de provocar reflexões em um coletivo majoritariamente branco (61%) e residente na região Centro-Sul (44%), conforme mostra a pesquisa realizada pelo coletivo em janeiro de 2021, foi criado um subgrupo de mulheres negras, para refletir sobre como o racismo atravessa as suas experiências de forma diferenciada.

A “Pedalada negra cicloativista”, que aconteceu no último dia 30 de novembro, foi o primeiro evento aberto desse subgrupo, que passou por pontos que marcam a história negra na capital mineira.

Qual a cor da mobilidade nos centros urbanos?

As pessoas pobres e as mulheres formam os grupos que mais correm risco de sofrer violências em seus deslocamentos pela cidade (55% e 75%, respectivamente), segundo a pesquisa “Percepções sobre segurança das mulheres nos deslocamentos pela cidade” (realizada pelo Instituto Patrícia Galvão/Locomotiva, 2021).

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva, com apoio da Uber e apoio técnico e institucional da ONU Mulheres. Participaram do estudo online 2.017 pessoas (1.194 mulheres e 823 homens), com 18 anos de idade ou mais, entre 30 de julho e 10 de agosto de 2021. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

Os dados também mostram que elas se deslocam em menos dias da semana e, preferencialmente, de dia. Os principais meios utilizados por elas são carro, a pé ou de ônibus, e as atividades estão relacionadas, em sua maioria, às tarefas domésticas (97%). As ruas da cidade não são “nada seguras” para 41% das mulheres e “pouco seguras” para 51%. Entre as negras, o racismo figura como a principal violência que temem sofrer em seus deslocamentos (80%).

“As mulheres pretas chegam muito menos [nos encontros do TdM], e a condição de ir toda semana é menor”, lembra Marcelle Rodrigues, de 28 anos, técnica de enfermagem e também integrante do TdM desde 2019. Maternidade, trabalhos domésticos e uma série de atividades de cuidado consomem tempo e energia das mulheres de forma diferenciada, principalmente entre as negras e as mais pobres, que são maioria nos trabalhos domésticos e de cuidado, impactando no acesso que elas têm ao lazer.

“Na periferia, para uma mulher sair de casa já é arriscado, se deslocar em cima de uma bicicleta, então, nem se fala. A bicicleta está lá, as crianças, os homens e os jovens as usam, mas muitos elementos sociais precisam acontecer, em termos de políticas públicas, para que ela saia da periferia com as mulheres. Faltam ciclovias, integração com o transporte público e outros fatores”, reflete Lucilene, que realiza uma pesquisa de doutorado na área dos estudos do lazer na UFMG.

“Quando se pensa na mulher negra, essa exclusão é ainda mais marcante. Raça e gênero estão totalmente cruzados. Quando você pensa o encontro dessas avenidas, elas excluem as mulheres”, complementa Lucilene.

Em Belo Horizonte, as poucas ciclovias ainda estão restritas aos bairros da região central da cidade e em pontos turísticos, como é possível ver no mapa de ciclovias e bicicletas. Para quem vem de longe, acessá-las pelo transporte público é tarefa quase impossível. A Portaria 98/2016 permite apenas bicicletas de estilo dobrável dentro dos ônibus, a partir das 20h30, durante a semana e, aos sábados, depois das 14h.

“Muitas vezes, a gente se organiza para sair da rota de retorno e permitir que uma mana que mora mais longe chegue em segurança. Só a coletividade mesmo para fazer acontecer”, reforça Lucilene.

Chapadas de endorfina

Moradora do bairro Paraíso, na região Leste de BH, Marcelle integra os 49% do TdM que fazem do pedal um dos seus principais meios de transporte no dia a dia. No Brasil, esse número cai para 9%, segundo a mesma pesquisa. “A primeira vez que saí sozinha, cheguei tremendo”, relembra.

Foram a prática e a persistência cotidianas que a ajudaram a deixar a insegurança em segundo plano. “Hoje, eu sinto que meu corpo fica mais disposto, dependendo do tanto que pedalo, fico chapadona de endorfina e muito animada. É saúde e bem-estar”, complementa.

Ostentando uma lista invejável de trilhas na Região Metropolitana de BH, as quais já percorreu de bike, em muitas delas ultrapassou 100 km percorridos em um só dia, Lucilene rebate veementemente a ideia de que as mulheres têm menor desempenho físico. “Enquanto esporte, a bicicleta, muitas vezes, está relacionada ao desempenho, à performance, a alcançar metas e exige equipamentos específicos, como roupa, sapatilha e óculos”, afirma.

Luciene Alencar em uma das suas muitas trilhas
Luciene Alencar em uma das suas muitas trilhas
Foto: Luciene Alencar Arquivo pessoal / ANF

No Terça das Manas e em diversos outros grupos que atuam pelo cicloativismo urbano, a perspectiva é outra. Lazer, diversão, direito à cidade e ativismo circulam nas estampas de roupas e capacetes, nos trajetos escolhidos e movimentos que integram, como manifestações políticas e carnaval de rua. “A bicicleta é a minha ferramenta de luta política. A militância é ação”, destaca Lucilene.

Terça das Manas - Mulheres saem às ruas de Belo Horizonte em grupos
Terça das Manas - Mulheres saem às ruas de Belo Horizonte em grupos
Foto: Úrsula Jauar / ANF

 

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