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Projeto forma 'escritores mirins' no Capão Redondo

Com encontros via WhatsApp, iniciativa promovida por moradores da zona sul de SP deu a oportunidade para 30 crianças escrever e ilustrar

26 mai 2022 05h00
| atualizado em 27/5/2022 às 18h12
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Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Contos de fadas, histórias de super heróis e até mesmo relatos baseados na vida real inspiraram 30 crianças, de 4 a 12 anos, a escreverem e ilustrarem seus primeiros livros, impressos e entregues às suas famílias neste sábado (21/5). Os exemplares são fruto do Projeto Escritores Mirins, promovido pela Associação Juntos pelo Capão, entidade que atua na promoção de cultura, lazer, educação e alimentação para a comunidade do Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo.

Cerca de 70 pessoas, entre pais, tios e moradores do bairro, reuniram-se na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Maria Rita de Cássia Pinheiro Simões Braga para celebrar o encerramento do projeto, cujo objetivo era estimular a criatividade e o hábito da leitura, além de fortalecer os vínculos na comunidade e aperfeiçoar a linguagem dos jovens participantes. 

A celebração contou com a entrega de certificados para as crianças que concluíram os livros e com uma mesa de autógrafos para que os pequenos assinassem os trabalhos produzidos por eles, com direito a sessão de fotos.

Obras de crianças de projeto do Capão Redondo
Obras de crianças de projeto do Capão Redondo
Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Uma das autoras mirins do projeto é Maria Eduarda Andrade de Lima Tavares, 12 anos. Buscando expressar a saudade do irmão, Maria Eduarda escreveu o livro “A raposa”, no qual conta a história da raposa Laila, de dez anos, que estava sozinha e encontra sua família ao final.  “Me mexe um pouco essa história porque meu irmão ficou quatro anos nos Estados Unidos e depois a gente se encontrou, a história é sobre isso”, diz, emocionada.

Logo que soube da oportunidade, no início do segundo semestre de 2021, Maria Eduarda conta que amou a ideia. “É uma oportunidade única, você escrever e sentir o que os escritores famosos sentiram quando escreveram seu primeiro livro”, relatou, animada, poucos minutos antes de apresentar uma performance de balé contemporâneo ao som de “Aquarela do Brasil”, na versão de Gal Costa.

"Sou bailarina, estou me sentindo como se fosse a primeira vez que me apresentei no palco. Estou muito feliz, nunca pensei que eu ia poder ter essa oportunidade de escrever um livro e, com o Juntos pelo Capão, consegui”, falou a menina. 

“Quero que ela participe de tudo e também estou à disposição para ajudar o projeto no que precisar”, disse a babá e voluntária na associação, Sandra de Andrade Tavares, 55 anos, orgulhosa da filha Maria Eduarda.

“Esse projeto tem nos dado muita alegria porque da ponte para cá nós não temos nada'', diz Sandra, referindo-se à ponte João Dias sobre o rio Pinheiros, que simboliza a separação entre parte da periferia da zona sul e o centro expandido da cidade de São Paulo.

A falta de opções de aprendizagem e lazer no Capão durante a pandemia da Covid-19 foi um dos motivos para a mobilização do projeto, como relatou Rose Borges, 49 anos, assistente de coordenação de uma escola da rede particular Palmares.Rose é idealizadora do projeto, que tem 14 voluntário moradores da área. 

 “Eu via os meus vizinhos sem acesso à aulas, à leitura, à educação e pensei que o único jeito de mudar isso era montando uma sala de aula e aí pedimos ajuda, montamos uma sala de aula online na paróquia, para dar força para eles continuarem estudando.” 

O projeto conquistou a sala de informática dentro da Paróquia São Pio Décimo, no Capão Redondo, também apoiadora da ação. Iniciadas no segundo semestre de 2021, as oficinas eram feitas por meio de encontros via WhatsApp. Neles, uma professora voluntária apresentava histórias às crianças e as debatia em conjunto em uma chamada de vídeo. Aulas presenciais eram feitas uma vez por semana na paróquia. “Com essa atividade eu os convidei para atravessar a ponte”, disse Rose. 

Crianças escritoras do Capão Redondo
Crianças escritoras do Capão Redondo
Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Ao todo foram dez pequenos grupos separados por faixas etárias, com três alunos em cada. “Os mais velhos tiveram contato com livros de Clarice Lispector, por exemplo. Outros leram o Sítio do Pica Pau Amarelo, trouxemos muita diversidade de texto”, diz  Maria Lucia Brandão Machado, 41 anos, coordenadora de projetos do Juntos pelo Capão e professora do Projeto Escritores Mirins. 

A produção do livro dos alunos foi feita através da plataforma “Estante Mágica” e a impressão, assim como os materiais para a elaboração dos desenhos, foi possível graças a doações de parceiros.

Enfrentamento à desigualdade 

O Capão Redondo reúne índices que refletem a desigualdade social de várias regiões periféricas das grandes cidades brasileiras. Por lá, o acesso à internet é baixo, a média é de apenas 4 antenas de internet móvel distribuídas por km², um número muito inferior se comparado ao Itaim Bibi, bairro na zona oeste paulistana, onde são em média 48 antenas por km². Os dados são do Mapa da Desigualdade, elaborado pela Rede Nossa São Paulo e publicado em outubro de 2021. 

De acordo com o mesmo estudo, o acesso à cultura também é limitado, já que a proporção de equipamentos públicos de cultura, para cada cem mil habitantes, é de apenas 0,7, contrapondo-se ao Butantã, na zona oeste, em que a taxa sobe para 14,9. O distrito está ainda na 9ª posição quando se fala na proporção de casas em favelas em relação ao total de domicílios. 

Apesar de existirem diversas organizações atuando no Capão, as ações muitas vezes não chegam nos bairros localizados no alto dos morros, como no Jardim Aurélio, Jardim Valquíria e na Chácara Santa Maria, por exemplo, explicou Maria Lúcia.

“É muito difícil as coisas chegarem aqui porque é muito em cima do morro, as coisas não sobem. O Capão é muito grande, por isso é um projeto que está fazendo a diferença para as famílias dessa região”. 

Raul Santos de Jesus, 6 anos
Raul Santos de Jesus, 6 anos
Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Essa diferença ficou perceptível em Reginaldo Aparecido de Jesus, 41 anos, pai de Raul Santos de Jesus, 6 anos. “Esse projeto é muito importante. Eu não tive o que ele teve e vê-lo alcançar esse livro é emocionante. O projeto despertou interesse para ele conhecer as letras, agora que ele está começando a escrever o nome dele e o da família”. 

A gratidão de Reginaldo pelo projeto se traduzia em seu rosto: as lágrimas caiam em um choro de emoção quando olhava a felicidade de seu filho segurando o livro nas mãos. “São poucos os que olham para nós e principalmente para eles, isso foi um prato cheio. Tomara que continue ajudando não só eles, mas tantos outros”, disse, emocionado, o pai do autor de “Capitão Pirata”, um livro sobre um bucaneiro que deixou um navio afundar em um rio. 

 Pedro Costa Silva, 8 anos
Pedro Costa Silva, 8 anos
Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Foi a partir do celular da mãe que Pedro Costa Silva, 8 anos, participou das oficinas. A história contada em “O Super Pedro” fala sobre um super-herói homônimo do autor. "Ele salva as pessoas, derrota os vilões, faz aniversário, vai dormir e vai salvar de novo. Depois vai derrotar o chefão", conta Pedro, um pouco envergonhado sobre a sua primeira experiência com a escrita. "Aqui não tem opção para eles brincarem e esse projeto tirou as crianças da rua", relatou Diego Feliciano da Silva, 35, promotor de vendas, tio de Pedro.

Vestido elegantemente com calça e camisa social, Henry Gabriel Silva de Jesus, 12 anos, esbanjava seu sorriso largo por onde passava. Ele também foi beneficiado pelo projeto. “Estou me sentindo uma celebridade”, disse, sorrindo. Ao contrário da felicidade sentida no lançamento de seu livro, a história contada por ele era triste. O livro de Henry faz um desabafo sincero sobre a separação dos pais. “Eu vi uma oportunidade de relatar coisas que eu sentia, gosto de escrever bastante, de brincar com as letras.”

Para ele, a escrita do livro foi uma superação, já que ficou muito tempo sem ler e escrever durante as aulas remotas na pandemia. “No começo falaram que eu tinha que escrever uma história e deram um prazo, eu pensei: ‘não vou conseguir’, porque era tanto tempo sem escrever que parecia que eu tinha perdido a habilidade, mas consegui.” 

Com o apoio da mãe, Ivania Aparecida da Silva, 45 anos, ajudante de serviços gerais, tudo se tornou mais fácil. “Ele falou que ia desabafar no livro, eu falei: ‘faça o que você achar melhor, vamos que vamos’. Ele estava super ansioso para chegar esse dia, está muito feliz. Eu também estou muito orgulhosa do meu filho pela capacidade dele ter conseguido escrever um livro.”

“A gente sabe que o Capão é malvisto”, comenta Ivania. Por isso, ela entende iniciativas como a dos jovens escritores como fundamentais para mudar a imagem do bairro. “O Juntos pelo Capão chegou no momento certo da pandemia, eu acho que ajudou bastante, pois sem leitura não tem cultura.”

Já Tainá, 12 anos, se baseou em “Branca de Neve e os Sete Anões”, clássico dos contos de fadas. "No meu livro a princesa se chama Aurora e os anões são irmãos dela. Eu sempre gostei de ler e eu gostei bastante do projeto, me ajudou a escrever melhor", disse a autora do livro “Aurora de Sol”, que traz um remake do clássico da Disney.  

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Aos 11 anos, Mariana Nahun de Andrade Dias escreveu “Era uma vez…”, um livro todo com rimas. “Fiz rimas inspiradas em coisas que eu já sabia, gostei bastante. Foi a minha primeira vez, nunca tive uma experiência como essa, me sinto mais renovada para começar a treinar mais. Daqui para frente vou poder fazer mais livros, as aulas me ajudaram a ter mais criatividade”, disse, animada, sobre a experiência com a história que narra as travessuras de um cão, um gato e de um pônei, em que se unem ao final para uma festa do Juntos pelo Capão. 

Nascida e crescida no Capão Redondo, Ana Andrade, 33 anos, é uma das voluntárias do projeto e mãe de Mariana e Luana Nahun de Andrade Dias, 5 anos. Ela lembrou que há anos não haviam atividades de literatura na região. “Não tinha nada, era só bagunça mesmo, muitas coisas erradas”, apontou. 

Para ela, um dos principais legados foi a união dos moradores do Capão em torno de um projeto em comum. “As pessoas que ficavam ociosas às vezes na pandemia, começaram a se envolver mais, foi um bem para a comunidade toda, até a paróquia que não tinha muita voz ativa dentro da comunidade começou a ter mais por conta desse projeto”, disse a ex-bancária, que hoje trabalha em casa.

Para além do trabalho com a escrita e leitura, o Juntos pelo Capão ofereceu passeios culturais às crianças. Em novembro de 2021, a associação levou a turma para assistir o espetáculo “Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolate”, no Teatro Renault. No mês de maio deste ano, os pequenos foram ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). “Aqui nesse mundo, a gente tem que se encher de cultura, que é o que a gente leva, o conhecimento é para a vida toda”, celebra Ana.

Moradora do Capão desde os 15 anos, Rose, a idealizadora do projeto, sonha agora em expandir as ações oferecidas pela associação Juntos pelo Capão. Graças à adesão da comunidade, o Projeto Escritores Mirins terá mais uma edição, no segundo semestre deste ano, e já tem fila de inscritos. As aulas devem abranger um público de até 22 anos. Junto a isso, as crianças e jovens terão aulas de inglês e de educação financeira. 

“Me ensino todos os dias que para empoderar, capacitar, ressignificar uma comunidade, precisamos fazer um trabalho com amor, disciplina, compromisso e continuidade. Sem engajamento, a melhor das intenções se desmancha no ar”, concluiu Rose.

Ponte
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