Entenda como funciona o teste de sangue que pode indicar sinais de Alzheimer
O primeiro exame de sangue que ajuda a detectar Alzheimer, aprovado pela FDA (agência americana de medicamentos) e com registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), está disponível no Brasil desde outubro. O teste mede a proteína p-tau217, que aumenta no sangue com o acúmulo de placas amiloides no cérebro, um dos marcadores biológicos da doença.
Disponível em Porto Alegre, um novo exame de sangue auxilia no diagnóstico precoce do Alzheimer ao detectar biomarcadores em pessoas a partir dos 50 anos com declínio cognitivo. Apoiando a avaliação clínica, o teste eleva a precisão diagnóstica para mais de 90%, substituindo métodos invasivos e caros. A tecnologia viabiliza tratamentos mais eficazes com anticorpos que retardam o avanço da doença e pode ser integrada ao SUS até 2026, embora não seja indicada para triagem de pessoas assintomáticas.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
O exame está disponível no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). De acordo com um comunicado divulgado pelo estabelecimento, o teste poderá ser integrado aos planos de saúde e ao SUS ainda em 2026, por meio de parcerias via PROADI (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional).
Outros biomarcadores já estão disponíveis no país e seguem a norma chamada "laboratório próprio", ou "in house". Essa regra autoriza a produção e a realização do teste, que não pode ser usado em larga escala, em um estabelecimento de saúde, mas sem registro da Anvisa.
O exame foi aprovado no Brasil para pessoas com 50 anos ou mais que apresentam declínio cognitivo identificado após suspeita de doença de Alzheimer. "A recomendação não é para a triagem da população em geral. O teste não deve ser utilizado em pessoas sem sintomas ou sem sinais clínicos de comprometimento cognitivo", explica Eduardo Zimmer, head de pesquisa da Unidade de Neurociência do hospital gaúcho.
Com o resultado, o médico pode confirmar se os sintomas iniciais estão relacionados ao início da doença e direcionar o tratamento de forma mais precisa. "Normalmente, esse é o paciente que mais vai se beneficiar de um exame como esse, porque o médico passa a ter um leque de opções para tentar reduzir a velocidade de progressão da doença", afirma.
Identificação precoce
O médico nem sempre consegue determinar imediatamente a causa de um declínio cognitivo, diz Eduardo Zimmer. É nesses casos que o exame de sangue pode evitar a necessidade de recorrer a métodos mais complexos, como o PET amiloide, exame de imagem caro, e a punção lombar para análise do líquor, procedimento invasivo.
A identificação precoce da causa do declínio cognitivo também aumenta a precisão do diagnóstico. "A acurácia diagnóstica de um neurologista especializado em Alzheimer gira em torno de 70%. Ou seja, em cada dez casos, cerca de três podem ser classificados de forma incorreta. Com o apoio do exame de sangue, essa acurácia ultrapassa 90%", afirma.
Para ele, o teste não substitui a avaliação clínica, mas funciona como uma ferramenta complementar. "O exame ajuda a confirmar o diagnóstico e dá muito mais segurança ao especialista para identificar a doença de Alzheimer."
Alzheimer pré-clínico
A comunidade científica agora espera poder detectar o Alzheimer pré-clínico com o biomarcador em pacientes com placas amiloides, mas sem sintomas. Estudos nesse sentido já estão em andamento, diz Eduardo Zimmer.
Segundo o especialista, o exame ainda não pode ser considerado uma ferramenta capaz de prever com segurança quem desenvolverá Alzheimer no futuro. "Ainda não há estudos suficientes para afirmar que ele tenha forte valor prognóstico", afirma.
Ele ressalta, porém, que a tecnologia avança nessa direção e poderá ajudar a identificar pessoas com maior risco de desenvolver a doença. Nesses casos, o resultado serviria como um "alerta" para a necessidade de acompanhamento médico mais próximo e monitoramento regular da saúde cognitiva.
Tratamentos e diagnóstico precoce
Diagnosticar mais cedo para tratar com mais eficácia é outra meta dos neurologistas. Dois anticorpos, o lecanemabe e o donanemabe, já ajudam no combate à doença. Os dois medicamentos são indicados para pacientes em estágios iniciais de Alzheimer, quando ainda apresentam comprometimento cognitivo ou demência leve. Eles atuam na remoção das placas amiloides e podem retardar a progressão do declínio cognitivo em determinados pacientes.
"Esses dois anticorpos parecem ter um efeito modesto quando analisamos os resultados clínicos nos pacientes elegíveis para o tratamento com base na presença de amiloide. Mas os dados sugerem um benefício um pouco maior entre aqueles que apresentam menor carga de proteína tau, outra proteína associada à doença de Alzheimer", afirma o médico.
Segundo ele, existem duas hipóteses para explicar esse resultado. "Uma delas é que, quando há muita patologia tau, o anticorpo já não consegue oferecer tanta proteção, porque não basta apenas remover o amiloide. A neurodegeneração continua avançando por outros mecanismos", diz.
Terapias preventivas
O especialista destaca que essa questão está sendo investigada em estudos clínicos em andamento. "A outra hipótese está sendo testada agora em dois grandes ensaios. Um deles é o Trailblazer 3, da Lilly, e o outro é o Prevention, da Roche. Esses estudos avaliam o uso da terapia antiamiloide antes do aparecimento dos sintomas", diz.
"A pergunta que os pesquisadores tentam responder é: se removermos as placas amiloides no início do processo, antes dos sintomas, será possível interromper a cascata neurodegenerativa? Será que esses indivíduos deixam de progredir para a doença? É isso que esses estudos buscam esclarecer", afirma.
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