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Ciência

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'Tento combater conspirações sem embate direto', diz divulgador científico Pedro Loos

Catarinense mantém um dos canais mais longevos e populares sobre o tema e é destaque no São Paulo Innovation Week

12 mai 2026 - 05h41
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O divulgador científico Pedro Loos pede desculpas de antemão pelas "crises existenciais" causadas pelo conteúdo do Ciência Todo Dia, canal que mantém no YouTube desde 2013.

Seus vídeos vão da física básica à busca por vida extraterrestre, e passam por esclarecer curiosidades e mitos científicos. Mas, se provocam abalos nas pré-concepções dos espectadores, não parecem afastá-los. O catarinense de Brusque (SC) acumula milhões de seguidores nas redes e busca cultivar com eles uma relação transparente e direta sobre as fronteiras e incertezas da ciência, que são, para ele, fundamentais para impulsionar o conhecimento.

Nesta entrevista especial, ele fala ao Estadão sobre as perguntas da ciência que mais o instigam, como lida com conspirações, e analisa benefícios e riscos da IA.

Loos participa do São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação. O evento será entre 13 e 15 de maio na Faap e na Arena Pacaembu, e contará com mais de 2 mil palestrantes.

O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos. Assinantes podem comprar ingressos com desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Um dos assuntos que você trata no seu canal, a mudança do clima já tem efeitos muito concretos na vida cotidiana, mas ainda pode parecer um conceito abstrato ou distante para as pessoas. A ciência ajuda a "materializar" esse impacto para o público? Acha que tem funcionado?

O grande desafio quando a gente conversa sobre ciências climáticas é fazer as pessoas entenderem que não é questão de opinião. Infelizmente muitas pessoas ainda enxergam o assunto como uma torcida de futebol. Como se a gente pudesse escolher um lado na discussão, o que é uma ilusão, não existe lado. A ciência lida com fatos, com o estudo de coisas concretas e de como os resultados dos nossos experimentos e observações conseguem nos ajudar a criar modelos que expliquem o que vemos ao nosso redor.

Existem coisas muito sérias acontecendo com o clima da Terra e temos certeza de que grande parte delas, se não a maioria, é causada por seres humanos. É a gente que está interferindo em ecossistemas e piorando toda a nossa situação. O trabalho de fazer as pessoas entenderem isso fica muito difícil por causa da resistência que algumas pessoas têm de compreender que não é opinião, que não é um "eu acho". É uma hipótese séria, validada cientificamente.

O cérebro humano é muito adaptado para ameaças iminentes. As mudanças climáticas parecem não ser algo tão iminente para muitas pessoas, isso faz ficar difícil lidar com esse problema. Exceto quem vive numa área que já está sendo extremamente afetada, por exemplo o Rio Grande do Sul, que tem recebido chuvas desiguais e ciclones que se formam no oceano próximo da costa, as pessoas ainda têm dificuldade de aceitar que precisam lidar com isso o quanto antes.

A falta de compreensão da ciência por trás do aquecimento global torna as pessoas mais vulneráveis a mentiras sobre esse tema na internet?

Acho que isso vem de uma espécie de desentendimento de como o método científico funciona. Há uma grande diferença entre a ciência ter uma lacuna que ainda precisa de resposta e eu cometer um erro no meu dia a dia, ou um conhecimento que eu acho que é verdade, mas não é. No caso da ciência, são justamente essas imprecisões ou aquilo que a gente sabe que não sabe que impulsionam novas pesquisas e as fronteiras do conhecimento cada vez mais para frente.

E sim, acho que isso pode contribuir com a sensação de insegurança ou de dúvida, às vezes até levar para esse lado conspiracionista. Talvez isso possa ser resolvido no médio e no longo prazo, se a gente tiver um ensino de base mais eficiente, melhorado, que foque em explicar para as pessoas como a ciência funciona, que é bem diferente de como a gente extrai conhecimento no nosso dia-a-dia.

Como divulgador científico, como você lida com essa fronteira do que a ciência ainda não conhece ou não tem certeza, sem perder a credibilidade do seu público?

Tento fazer isso do jeito mais transparente e direto possível. Já aconteceram muitos exemplos de estar fazendo um vídeo sobre algum tema que está na fronteira do nosso conhecimento, em que preciso deixar claro até onde ele vai e onde estão as lacunas, as imprecisões. Ou cheguei a uma certa conclusão que os dados permitem chegar hoje, mas que eles podem mudar daqui a pouco, então talvez não seja bem assim a história.

Sempre parto do princípio de comunicar isso de antemão, tento deixar isso o mais claro possível. Para algumas pessoas admitir que não sabe algo parece uma fraqueza da ciência. Mas, para as pessoas que já conhecem um pouco mais de como a ciência funciona, é isso que é apaixonante. A gente tem uma pergunta nova para responder, vamos atrás disso.

Ao mesmo tempo, evito ao máximo tentar simplesmente responder a conspirações na internet. Não estou tentando falar como eu acho que todo mundo deveria operar, esse é o meu jeito. Não entro em embates direto com conspirações porque acho que isso as colocaria numa posição de legitimidade que elas não têm.

Por um lado, é difícil hoje ignorar que essas conspirações estão circulando na internet. Por outro, responder pode acabar amplificando, né?

Exatamente, esse é meu maior medo. Tento combater esse pensamento conspiracionista sem um embate direto. Como se eu estivesse simplesmente tentando apresentar dados e argumentos, sem em nenhum momento tentar fazer alguém mudar de ideia. Mas sei que no longo prazo, se continuarem vendo aqueles fatos e argumentos, elas provavelmente vão.

Recentemente, você chamou atenção para a expansão dos data centers no Brasil, infraestruturas que podem consumir mais energia e água que municípios inteiros. As pessoas estão por dentro desse assunto, está havendo um debate sério e transparente com o público sobre isso no País?

As pessoas não estão por dentro o suficiente desse assunto para a gente poder tomar decisões informadas como sociedade. Tomei muito cuidado para nesse vídeo não parecer que sou contra as inteligências artificiais. Até isso virou tipo torcida de futebol, aparentemente.

Vejo inteligências artificiais da mesma maneira que em 2013, quando já fazia vídeos sobre isso: como ferramentas poderosas para a humanidade. Mais ou menos da mesma maneira que vejo a física nuclear ou a energia nuclear, que é uma tecnologia maravilhosa, pode ser usada para fazer energia extremamente limpa, mas também permite a criação de armas nucleares. Depende muito de como os seres humanos vão escolher empregar essas tecnologias.

Nesse caso dos data centers, especificamente, acho que o Brasil está numa posição privilegiada por causa da nossa geração de energia que pode ser considerada majoritariamente limpa. Isso vale para muito da indústria que a gente poderia ter no Brasil, que poderia se apoiar em grande parte nessa neutralidade de carbono.

A gente está produzindo energia elétrica de uma maneira que não é a queima de carvão, como diversos países de "primeiro mundo". Mas a gente tem o problema da água, que é muito gritante também.

Quando vejo legislação sobre isso sendo passada ou discutida, acho que a gente não está chamando especialistas o suficiente para informarem exatamente o que é e quais seriam os possíveis impactos. Esse foi um dos motivos de eu ter decidido fazer aquele vídeo sobre os data centers.

É possível acolher essas estruturas sem comprometer os recursos naturais que a população precisa para viver? Na sua visão, o que tem que ser feito?

A gente interage na internet todo dia, mas não faz nenhuma ideia das estruturas colossais e gigantescas que existem por trás para suportar tudo isso. Vamos ter que construir mais data centers e não só por causa de inteligências artificiais, mas de todo o crescimento da internet.

Num primeiro momento, isso assusta muito as pessoas, porque elas se dão conta dos impactos ambientais, energéticos, de segurança hídrica que existem. Só que a gente também não pode, acho, se colocar numa posição de simplesmente ser contra por ser contra, deixar de fazer simplesmente por medo e insegurança.

Acho que pode existir uma discussão sobre isso, porque quem sabe o Brasil possa ter algo a ganhar construindo data centers de IA aqui no nosso território. Mas isso tem que ser feito depois de uma análise muito cuidadosa, muito meticulosa, numa conversa com a sociedade, porque provavelmente as comunidades que viveriam próximas seriam afetadas, tanto por barulho, quanto por (consumo de) água e eletricidade.

Precisamos de especialistas discutindo diretamente com a sociedade, com a população e também com os políticos que vão criar as legislações, para que a gente não faça isso apressado demais e deixe aberto a erros.

A IA está acelerando as descobertas científicas? Como?

Com certeza. O que fez as inteligências artificiais entrarem na conversa do dia a dia foi o ChatGPT, e todo o estrondo que ele causou quando foi lançado. Mas na física, por exemplo, diversas áreas já usavam redes neurais e modelos de inteligência artificial, que não são LLMs (Large Language Models ou Grandes Modelos de Linguagem) como o ChatGPT, para assessorar em pesquisas, lidar com observações de campos muito grandes no céu, para procurar exoplanetas.

Em vez de tentar fazer essas detecções e análises de uma quantidade colossal de dados, já se usava redes neurais ou algumas inteligências artificiais especializadas lá em 2016, 2017. Agora, obviamente, com todo esse boom de inteligência artificial, a gente tem ainda mais ferramentas e o poder de processamento também aumentou bastante.

Para cada área da ciência, provavelmente se consegue dizer facilmente algum impacto de aceleração de tecnologias ou desenvolvimento de novas descobertas. Inteligências artificiais vieram para ficar e são ferramentas das quais se pode fazer um excelente uso e mudar para sempre a humanidade para melhor, mas também pode haver um cenário distópico, em que as coisas saem um pouco do controle. Mas hoje ainda estou otimista quanto a isso.

O que significa uma IA sair do controle?

Minha maior preocupação com inteligências artificiais é a mesma da maior parte das pessoas que estudam o assunto, que é o problema do alinhamento, ou alguma derivação dele. Ele veio do filósofo Nick Bostrom, que faz uma analogia que funciona muito bem. Vamos supor que eu crie uma inteligência artificial para otimizar a produção na minha fábrica de clips de papel, porque quero produzir a maior quantidade, ser a maior fábrica do mundo.

No começo, a IA vai comprar dos fornecedores que têm mais estoque, vai tentar otimizar o custo. Mas se a gente não tomar cuidado com as instruções, ela talvez possa perceber em algum momento que uma boa parte do corpo de seres humanos é feita de ferro, e querer transformar em matéria-prima. Aí começa todo o problema do alinhamento. Como garantir que as nossas intenções com as ferramentas que a gente cria sejam alinhadas com o que elas de fato vão fazer? É um problema seríssimo, porque conforme inteligências artificiais vão ficando cada vez mais poderosas e a gente vai confiando para elas cada vez mais coisas sensíveis, como garantir que nada nunca saia do controle?

Por um lado, existem excelentes cérebros no mundo todo trabalhando nisso incessantemente. Por outro, acho que somos muito levados por novas tecnologias, jogando responsabilidades para inteligências artificiais sem necessariamente entender direito ainda como elas funcionam ou sem analisar quais seriam os possíveis desdobramentos.

O exemplo mais claro disso seria um país com potencial nuclear que coloque uma inteligência artificial para controlar as ogivas nucleares, para operar independente em caso de ataque de uma nação inimiga. Isso é muito perigoso. Não faltam exemplos históricos de situações em que seres humanos, no momento em que tudo poderia dar errado, decidiram não apertar o botão.

Esse risco tem a ver com abrir mão do poder de decisão em campos bastante importantes, como esses que você citou, e como fica a questão da responsabilidade quando alguma coisa sai do controle. São riscos com que a gente vai se deparar, cada vez mais?

Esse risco de quem é responsável já é muito atual. Se dois carros autônomos batem um no outro, quem é responsável pela colisão, sabe? Isso pode não ser uma coisa tão da nossa realidade ainda hoje, mas vai ser daqui a alguns anos. São perguntas para as quais a gente precisa, como sociedade, encontrar uma resposta. Porque não vai demorar muito tempo, elas vão estar batendo na nossa porta.

Qual o assunto mais complexo que você já destrinchou no canal?

Tem dois, na verdade. Um é uma complexidade real que vem da própria física e do estado que a gente está hoje na ciência, que seria praticamente tudo envolvendo turbulência ou como fluidos funcionam. É uma das equações do milênio, inclusive, um dos problemas em aberto, a gente não tem soluções analíticas para (o problema) Navier-Stokes. Isso gera problemas para todas as áreas, principalmente na aerodinâmica ou dinâmica de fluidos, alta velocidade, coisa do tipo.

Outro assunto que não parece tão complexo num primeiro olhar, é a vida fora da Terra. Sou apaixonado pelo Paradoxo de Fermi (contradição entre a alta probabilidade de existir vida fora da Terra e a falta de evidências até o momento) e todas as suas possíveis soluções. Honestamente, cada solução introduz novos desafios, novas incertezas e a gente parece cada vez mais perto, mas ao mesmo tempo longe de responder se existe vida lá fora.

Grande parte das pesquisas por vida fora da Terra usa telescópios hoje e tenta enxergar na atmosfera de planetas coisas formadas apenas por processos biológicos e a gente nunca encontrou nada. A gente já encontrou exoplanetas, planetas fora do sistema solar, que têm as condições certas e são parecidos com a Terra, têm atmosfera que talvez seja respirável, que muito provavelmente tem água, um dos grandes pré-requisitos para a vida, mas nunca foi detectado nada que possa ser considerado como uma assinatura de vida.

Esse é o chamado "problema do grande silêncio": estatisticamente, a gente vive no universo que deveria estar recheado de vida. Só que o oposto é a verdade, não enxergamos vida em nenhum lugar e estamos numa incessante busca. Por quê? O que a Terra tem de especial? Eu acho isso extremamente fascinante. Essa pergunta me tira o sono e é o tema que eu mais tenho lido sobre na minha vida toda.

Podemos dizer que é uma das "perguntas que movem o mundo", tema da sua conversa com o Marcelo Gleiser e o Sérgio Sacani no Innovation Week?

Sim, ela move não só uma curiosidade natural, uma coisa meio instintiva da humanidade, como também impulsiona diferentes áreas da ciência. A gente constrói telescópios na Terra e lança telescópios espaciais cada vez melhores, aprende a fazer veículos lançadores cada vez melhores e com isso impulsiona engenharia, ciência de materiais, biologia. Impulsiona a ciência de base e ao mesmo tempo a ciência de ponta tecnológica. Diz muito sobre como a ciência funciona, porque o progresso não é exatamente linear. Muitas vezes, a gente cria novas tecnologias ou expande as fronteiras do nosso conhecimento e as aplicações vêm depois.

Para mim, essa pergunta move a humanidade como nenhuma outra. Espero estar vivo no dia em que a gente talvez tenha uma resposta definitiva para ela.

Estadão
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