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Ciência

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Uma megabarragem entre Rússia e Alasca pode salvar o clima da Europa?

11 mai 2026 - 15h55
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Para deter colapso de uma corrente oceânica fundamental para manter estável o clima na Europa, cientistas analisaram o impacto de construir uma megabarragem no estreito entre Rússia e Alasca.Numa noite de 2024, o pesquisador climático Jelle Soons participava de uma conferência em Utrecht, na Holanda, quando ouviu algo que o fez parar. Sua colega Juliane Weiffenbach acabara de apresentar uma pesquisa sobre o clima do Plioceno Médio, há cerca de 3 milhões de anos.

Naquela época, o atual Estreito de Bering estava bloqueado por uma conexão terrestre entre a Ásia e a América do Norte, o que impedia a circulação de água entre o Oceano Pacífico e o Ártico. Segundo os pesquisadores, essa configuração coincidia com uma circulação atlântica mais intensa do que a atual, um detalhe que chamou a atenção de Soons.

Na mesma noite, sentado tomando algo com um amigo, Soons se fez uma pergunta um tanto radical: e se fosse possível reconstruir artificialmente aquela antiga barreira natural?

Essa ideia é tema de um estudo, publicado na revista Science Advances, que propõe construir três barragens ao longo do estreito de Bering para estabilizar a circulação meridional de capotamento do Atlântico, conhecida como AMOC, um dos sistemas oceânicos que influenciam o clima do norte da Europa.

A corrente que suaviza o clima europeu

A AMOC é um enorme sistema de correntes oceânicas interconectadas. Ela transporta água quente e salgada do Atlântico tropical para o norte, libera esse calor na atmosfera europeia e devolve a água fria para o sul.

Essa é uma das razões pelas quais Londres não tem o mesmo clima que São Petersburgo, apesar de estarem na mesma latitude. Um enfraquecimento severo dessa corrente poderia resultar em invernos mais rigorosos e um resfriamento significativo em partes do norte e oeste da Europa.

Segundo o site especializado em ciência Live Science, o nível do mar na costa nordeste dos Estados Unidos subiria pelo menos 50 centímetros, e os padrões de chuva na África e na América do Sul também seriam alterados.

Colapso da AMOC é ameaça real

O problema, segundo diversas pesquisas científicas, é que essa circulação está se enfraquecendo. O derretimento do gelo da Groenlândia despeja cada vez mais água doce no Atlântico Norte, reduzindo sua salinidade. Com menos sal, a água fica menos pesada e afunda com mais dificuldade, contribuindo para o enfraquecimento da AMOC.

Um estudo recente projeta que a velocidade da AMOC pode diminuir entre 43% e 59% até o ano 2100, o que seria um enfraquecimento 60% maior do que o previsto por modelos anteriores. "As evidências apontam para um colapso, mas isso ainda é muito incerto", reconhece o próprio Soons ao Live Science.

O estudo foca na troca de água entre os Oceanos Pacífico e Atlântico através do Estreito de Bering. Atualmente, por esse corredor marítimo entra água doce proveniente do Pacífico que acaba chegando ao Oceano Ártico e, posteriormente, ao Atlântico Norte.

Segundo os pesquisadores, bloquear essa troca poderia aumentar a salinidade do Atlântico Norte e ajudar a estabilizar a AMOC.

O estreito tem cerca de 80 quilômetros de largura, mas, segundo o estudo, duas ilhas no meio serviriam como pontos de apoio para três barragens separadas, das quais a mais longa teria 38 quilômetros.

Quando o orientador de Soons, o oceanógrafo Henk Dijkstra, ouviu a proposta, falou: "Nossa, mais um holandês querendo construir um dique!", segundo relata o jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Mas, em seguida, eles começaram a fazer os cálculos.

Outros cientistas pedem cautela

Apesar de os cálculos do estudo parecerem viáveis, o problema é que os modelos indicam que o efeito não seria sempre o mesmo.

Nos modelos de Soons e Dijkstra, se a circulação ainda mantiver certa estabilidade e o acúmulo de água doce não for extremo, fechar o estreito poderia ajudar a estabilizá-la. Mas, se já estiver muito debilitada, as simulações sugerem que essa intervenção poderia até mesmo acelerar sua deterioração.

Em resumo, o impacto de uma medida dessa magnitude dependeria muito do estado climático do sistema. "Não se trata de uma solução simples", alerta o oceanógrafo Jonathan Baker, do Serviço Meteorológico do Reino Unido, que não participou do estudo, em declarações ao Live Science.

Por isso, vários cientistas pedem cautela. O cientista climático Aixue Hu, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, disse ao jornal The New York Times que a incerteza sobre a proximidade de um colapso da AMOC continua muito grande.

A oceanógrafa Marilena Oltmanns, citada pelo Süddeutsche Zeitung, alertou que o modelo utilizado não consegue refletir toda a complexidade real da circulação oceânica. Além disso, ela afirma que uma barragem não impediria o derretimento da Groenlândia nem resolveria os demais efeitos do aquecimento global.

"Considero fundamentalmente errado utilizar um possível colapso da AMOC como justificativa para fechar o estreito de Bering", afirma. "Seria um enorme desperdício de dinheiro."

Os riscos da megaestrutura

Não seria uma obra pequena. Segundo o Live Science, a barragem teria uma profundidade máxima de 59 metros, comparável a grandes diques já existentes, como o de Saemangeum, na Coreia do Sul, com 33 quilômetros de extensão e até 54 metros de profundidade. No entanto, uma coisa é conter águas costeiras, e outra é bloquear uma passagem remota e gelada, com fortes correntes e duas potências rivais em cada margem.

Há também o problema da reversibilidade. Uma estrutura colossal no meio do oceano seria extremamente difícil de desfazer após construída, especialmente numa região tão remota. "Em termos de geoengenharia, é algo relativamente permanente", admite Soons em declarações ao The New York Times.

E tudo isso sem considerar que fechar o estreito poderia afetar a fauna marinha, a pesca, o transporte e as comunidades indígenas que dependem dessa rota para se alimentar e para o comércio.

O oceanógrafo Thomas Haine, da Universidade Johns Hopkins, afirmou ao The New York Times que, mesmo que fosse possível demonstrar que a barragem estabilizaria a AMOC, haveria ainda muitos motivos para considerá-la uma péssima ideia.

Os próprios autores não apresentam a barragem como um plano a ser posto imediatamente em prática, mas como um exercício teórico. Soons insistiu que a opção mais confiável continua sendo reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Somente num cenário extremo - caso o colapso parecesse inevitável e a descarbonização não fosse mais suficiente - uma intervenção desse porte poderia ser considerada.

"Preferiríamos não fazer isso, porque envolve muitas complicações. Mas, se for a única saída, então poderia ser levado em consideração", afirmou.

Por enquanto, a megabarragem entre a Rússia e o Alasca permanece onde começou: numa conversa informal entre dois cientistas que, após discutirem as dimensões do Estreito de Bering, tentaram verificar se a ideia poderia ser tecnicamente viável.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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