Após criarem órgãos em laboratório, médicos querem imprimi-los
19 jul2012 - 17h03
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Milhares de pessoas morrem todo ano aguardando sua vez na fila do transplante de órgãos. Embora o número de cirurgias no Brasil tenha aumentado - foram 23.397 em 2011, segundo o Ministério da Saúde -, a lista de espera continua crescendo. Uma estrutura mais eficiente de doação pode ajudar a amenizar o problema, mas a solução que alguns cientistas buscam é bem mais radical: a medicina regenerativa. Que tal imprimir um órgão novo quando o antigo falhar?
Cientistas mostram "formas" feitas com impressora 3D. Elas são usadas para cultivar órgãos em laboratório
Foto: Wake Forest University Institute for Regenerative Medicine (WFIRM) / Divulgação
Um dos mais proeminentes desses cientistas, Anthony Atala, diretor do Instituto Wake Forest de Medicina Regenerativa, prevê assim o futuro: "Haverá uma variedade de tratamentos da medicina regenerativa - cura com terapias celulares, órgãos criados em laboratório para reposição, tratamentos que promovem a regeneração de dentro do próprio corpo - que os médicos serão capazes de aplicar dependendo de cada caso. Se um paciente necessitar de um novo órgão, por exemplo, o cirurgião provavelmente vai pegar uma pequena biópsia e enviá-la para um centro regional, que ficará encarregado de cultivar as células apropriadas para o desenvolvimento de um novo órgão. Esse novo órgão será então enviado para o cirurgião para a substituição. Mas não devemos esperar que esse cenário esteja em um futuro próximo".
Apesar da ressalva de Atala, de que há ainda um caminho longo até o fim da fila de espera por órgãos, suas pesquisas já geraram resultados promissores. Uma das possibilidades da engenharia tecidual é a substituição de órgãos e tecidos doentes ou danificados por meio da bioimpressão de órgãos e tecidos e da biofabricação.
Bexiga de laboratório
O cirurgião e sua equipe foram os primeiros a desenvolver uma bexiga criada em laboratório, implantada em um ser humano em 1999. Aos 10 anos, Luke Masella sofria de espinha bífida, um defeito de nascença que paralisou sua bexiga. Depois de 16 intervenções cirúrgicas, ele seguia com problemas nos rins e já tinha perdido 25% de sua massa corporal. Foi quando seus pais aceitaram uma abordagem diferente.
O processo de produção da bexiga começou com uma biópsia do garoto, da qual se obteve amostras de células. Cultivadas fora do corpo, elas se multiplicaram e foram colocadas em um arcabouço (do inglês,scaffold), biomaterial que serve como suporte, no formato de uma bexiga. "O procedimento se assemelha a fazer um bolo, pois o novo órgão é formado por camadas de células e então é colocado em um dispositivo, uma incubadora, que se parece com um forno, onde é possível criar a estrutura", esclarece Atala. Dois meses depois da biópsia, o novo órgão estava pronto.
Masella foi uma das nove crianças que receberam uma bexiga no primeiro estudo clínico desse tipo. Desde então, cerca de 20 pacientes receberam bexigas constituídas em laboratório. "Eu sei que ele está se dedicando em seu laboratório para criar um monte de coisas malucas. Quando eu tinha 10 anos, não sabia quão incrível aquilo realmente era. Até agora, que eu sou mais velho e consigo entender as coisas maravilhosas que ele tem feito", afirma Masella, hoje com 21 anos, em um reencontro com Atala, promovido pelo TED, em 2011.
Segundo Atala, os órgãos criados em laboratório já estão disponíveis para pequenos grupos de pacientes, através de estudos clínicos. Até agora, pacientes já receberam pele, cartilagem, bexiga, tubos de urina e uma traqueia criados em laboratório por meio da medicina regenerativa. Para o cirurgião, o objetivo é torná-los disponíveis para um grupo maior de pacientes e também ampliar os tipos de órgãos e tecidos disponíveis.
Impressão de órgãos
O diretor do Instituto Wake Forest de Medicina Regenerativa também comanda avanços em outras tecnologias que visam a solucionar o problema da falta de órgãos. Um dos experimentos, ainda em estágio inicial, é uma impressora 3D. Em vez de utilizar tinta, ela imprime com células vivas. A impressora 3D de Atala já foi utilizada para a criação de um rim para transplante, mas o experimento ainda não está pronto para ser testado em seres humanos. No mundo todo, cerca de 90% das pessoas na fila de espera por órgãos precisam de um rim.
Outro projeto em desenvolvimento pelo instituto é uma nova tecnologia que faria a impressão de células ou até de órgãos completos diretamente no paciente. Com um scanner especial, haveria um mapeamento do paciente. Depois, as células necessárias seriam injetadas no local indicado.
A medicina regenerativa no Brasil
Assim como Atala, Mônica e Silvio Duailibi desenvolveram parte de seu conhecimento em engenharia tecidual na Universidade de Harvard, nos laboratórios do professor Joseph Vacanti, uma das maiores autoridades na área de produção de órgãos e partes substitutas humanas. No Brasil, no Laboratório de Engenharia Tecidual e Biofabricação do Centro de Terapia Celular e Molecular (CTCMol) da Unifesp, eles também utilizam a técnica do arcabouço semeado por células-tronco. Suas pesquisas concentram-se basicamente na produção de tecidos mineralizados, ossos, cartilagens e dentes.
Os professores participaram ativamente da Rede Ibero-Americana de Biofabricação: Materiais, Processos e Simulação (Biofab). O programa, criado em 2008, reuniu cientistas de Portugal, Brasil, Espanha, Argentina, Cuba, Venezuela e México para o desenvolvimento da investigação sobre a biofabricação, que visa à produção de substitutivos biológicos para utilização em procedimentos médicos. Além do avanço científico por meio da soma de competências de diferentes nacionalidades, a Biofab resultou também na criação do brasileiro INCT Biofabris, instituto que desenvolve biomateriais, e o europeu Irebid, um programa de intercâmbio de informações entre engenheiros e cientistas para criar novas soluções para o setor de saúde.
Terceira dentição
Em parceria com o Biofabris e o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), o casal de cientistas publicou, no ano passado, pesquisa sobre modelo tridimensional de dente biológico que aproxima a possibilidade de uma terceira dentição humana. As estruturas biodegradáveis, com tamanho e peso iguais aos de um dente de verdade, foram colonizadas por células-tronco. "Avaliamos o processo de colheita de células da polpa dental por imagens médicas e fizemos modelos de dentes reais em material biodegradável, que foram colonizados por células e depois implantados em ratos imunodeprimidos", explica o pesquisador Jorge Vicente Lopes da Silva, chefe da Divisão de Tecnologias Tridimensionais do CTI. Essa linha de pesquisa pode acarretar, daqui a alguns anos, o fim da prótese dentária convencional.
Regenerando esperança
Talvez o futuro desenhado por Atala não esteja tão próximo quanto o desejado. Mas a ideia de que cientistas como ele estão trabalhando para acelerá-lo propicia alguma esperança para o indivíduo cujo nome segue em uma lista de perspectiva tão devastadora. Sensível a esses pacientes, Mônica não tem dúvida sobre o objetivo de seu trabalho: "Eliminar o doador de órgãos e acabar com a fila de transplantes. Nós trabalhamos com a ideia de doador e receptor sendo o mesmo indivíduo". Mas alerta: "A Medicina regenerativa não é uma área visionária. Ela já está sendo muito desenvolvida em países que encaram a inovação como um divisor de águas. O próximo passo no Brasil é sensibilizar os órgãos competentes que o investimento no futuro deve começar agora. Caso contrário, o Brasil perderá o bonde da história".
Ethan Henderson, no Reino Unido, usou uma proteção de gesso aos três anos por ter um desvio de 42° na coluna. A proteção lhe rendeu o apelido de "tartaruga humana". Leia notícia relacionada
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A criança se recuperou de uma cirurgia para corrigir um desvio de 42° na coluna vertebral. Ele teve que usar durante três meses a proteção
Foto: Barcroft Media / Getty Images
O desvio poderia deixar o menino paralisado. Contudo, se o procedimento não desse certo, Ethan poderia igualmente perder o movimento das pernas
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A operação durou oito horas e a criança recebeu varetas e pinos para corrigir a espinha
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Após três meses na proteção de gesso, agora Ethan pode ficar em pé e correr como uma criança normal
Foto: Barcroft Media / Getty Images
James Aspland, da Inglaterra, é cego de nascença e está aprendendo a se movimentar com técnica usada por morcego e golfinhos, que consiste em estalar a língua e escutar como o ruído reverbera em superfícies próximas. Leia notícia relacionada
Foto: BBC Brasil
O bebê Alfie, da Inglaterra, nasceu com malformação da Veia de Galeno. Médicos tiveram que deslizar um cateter da largura de um fio de cabelo através do seu cérebo e usaram uma espécie de super cola para selá-lo ao longo da artéria. Leia notícia relacionada
Foto: O Dia
Oscar sofria de uma deformidade grave no rosto causada por um acidente, que tornava difícil respirar, engolir e falar.
Foto: AFP
O espanhol Oscar foi o primeiro paciente no mundo a receber um rosto completo em trasplante, em julho de 2010. Leia notícia relacionada
Foto: AFP
Morgan LaRue, de 9 anos, foi a primeira a receber uma prótese que "cresce", evitando novas cirurgias, nos EUA. Leia notícia relacionada
Foto: Texas Children''''s Hospital / BBC Brasil
Christopher Sands passou três anos soluçando constantemente até retirar 60% de um tumor no cérebro em cirurgia no Japão. Leia notícia relacionada
Foto: BBC Brasil
A francesa Isabelle Dinoire de 38 anos foi submetida ao primeiro transplante parcial de rosto. Leia notícia relacionada
Foto: AP
Especialistas de dois hospitais fizeram a operação no final de novembro de 2005, na cidade de Amiens, norte da França.
Foto: AP
A paciente superou dois episódios de rejeição ao tecido e duas insuficiências renais.
Foto: AP
Isabelle Dinoire recebeu um novo nariz, lábios e queixo
Foto: AP
Isabelle teve a face desfigurada por um cachorro enquanto dormia.
Foto: AP
O menino iraquiano sofre de Malformação Aneurismática da Veia de Galeno. Leia notícia relacionada
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A doença dificulta a circulação de sangue no cérebro de Sirwaan
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A doença causava a saída de sangue do órgão pelo olho esquerdo do menino iraquiano e inchava a região
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A equipe com uma dúzia de médicos demorou cinco horas para realizar a cirurgia no menino iraquiano, que foi considerada um sucesso
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Segundo o doutor Shakir Hussain, neurologista do hospital, o menino iraquiano passou por diversos exames e os especialistas decidiram fazer uma operação inovadora "ao fazer desvios ou passagens alternativas para o sangue"
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Para salvar a vida do filho, o pai levou Sirwaan até Nova Delhi, na Índia
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Finley sofria de uma rara condição genética chamada Síndrome de Apert, que deixa o crânio em um formato cônico parecido a um chifre. Médicos separaram o crânio do garoto em diversos pedaços pequenos e os grudaram de volta em outro formato. Leia notícia relacionada
Foto: Kitty Gale/Landmark Films / BBC Brasil
Milagros Cerrón Arauco nasceu com a deformação chamada "síndrome de sereia". Leia notícia relacionada
Foto: AFP
Ela passou por uma operação para separar as pernas da virilha até o calcanhar.
Foto: AFP
Bebê nasceu com a síndrome da sereia
Foto: AP
A estudante russa Darya Egorova, 6 anos, passou por uma cirurgia pioneira contra um câncer de osso, em Londres. Leia notícia relacionada
Foto: Harley Street Clinic / BBC Brasil
Os médicos britânicos trataram em apenas três horas o câncer localizado na perna da menina
Foto: Harley Street Clinic / BBC Brasil
Cirurgiões retiraram parte do osso da canela e o reimplantaram após tratamento com radioterapia em clínica londrina
Foto: Harley Street Clinic / BBC Brasil
A novidade da operação é que o osso afetado não teve de ser enviado a um hospital enquanto o paciente aguardava na mesa de cirurgia. Tudo foi feito na clínica
Foto: Harley Street Clinic / BBC Brasil
A adolescente britânica de 14 anos da Inglaterra, que tem alergia a nozes teve de ser hospitalizada após beijar seu namorado, que tinha comido cereais que continham avelãs. Ela recebeu uma injeção de adrenalina e se recuperou totalmente. Leia notícia relacionada
Foto: BBC Brasil
Sharon Phillips antes (dir.) e depois (esq.) de uma dieta que, segundo ela, permitiu descobrir três tumores fatais. Leia notícia relacionada
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Segundo os médicos que trataram a mulher, ela descobriu o câncer no momento exato para que pudessem salvá-la
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Sharon em imagem feita enquanto estava em tratamento. A mulher se livrou dos três tumores
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Após descobrir os tumores, ela iniciou o tratamento imediatamente.
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A canadense Aleisha Hunter foi curada de câncer de mama quando tinha 3 anos. Leia notícia relacionada
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A mãe de Aleisha, Melanie, foi quem descobriu o caroço no peito da criança, quando a secava depois de um banho
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Aleisha Hunter, de Toronto, no Canadá, foi diagnosticada em dezembro de 2008, quando tinha 2 anos
Foto: Barcroft Media / Getty Images
A criança canadense foi curada quando tinha 3 anos e não apresenta mais sinais da doença
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Aleisha foi a pessoa mais jovem a ter a doença diagnosticada
Foto: Barcroft Media / Getty Images
Jordan Harden viveu 2 anos com câncer até que os médicos desistiram dos tratamentos e lhe deram semanas de vida. Entretanto, o câncer desapareceu sozinho. Casos de regressão espontânea são raríssimos na medicina. Leia notícia relacionada
Foto: Scope Features / BBC Brasil
Mason Lewis se tornou a menor pessoa da Grã-Bretanha a receber um transplante de pulmão aos 4 anos. Ele media apenas 93 cm de altura. Leia notícia relacionada
Foto: BBC Brasil
O bebê britânico Freddie Allen nasceu saudável após contrair uma doença e passar por uma transfusão de sangue ainda dentro do útero. Leia notícia relacionada
Foto: Caters / BBC Brasil
Joshua Baker sofreu uma parada cardíaca aos 5 anos e seu coração não bateu por 40 minutos, mas um médico conseguiu reanima-lo com uma massagem cardíaca. Leia notícia relacionada
Foto: Caters / BBC Brasil
Giles é portador da síndrome Goldenhar, que fez com que ele nascesse com um pequeno lóbulo no lugar de sua orelha direita. Uma cirurgia plástica, na Inglaterra, corrigiu a deformação. Leia notícia relacionada
Foto: Agência Ross Parry / BBC Brasil
Rafael, a segunda pessoa a receber um transplante facial na Espanha, conversa com repórteres em Sevilha, após alta médica em maio de 2010. Leia notícia relacionada
Foto: EFE
Rafael já tem sensibilidade à dor e diferencia o calor e o frio
Foto: EFE
Rafael recebe o carinho da enfermeira que o acompanhou nas 14 semanas de internação
Foto: EFE
Dallas Wiens antes (esq.) e após o transplante completo de rosto realizado em Boston em maio de 2011. Leia notícia relacionada
Foto: Reuters
O agricultor, que não conseguiu recuperar a visão, é conduzido pelos médicos do hospital
Foto: Reuters
Em entrevista á imprensa, a equipe de médicos explicou o procedimento, que levou 15 horas e envolveu 30 profissionais
Foto: Reuters
O urso Walker precisou de uma cirurgia nos dentes aos dois anos de idade. Leia notícia relacionada
Foto: The Royal Zoological Society of Scotland / Divulgação
O urso estava com o rosto inchado e, como antibióticos não fizeram efeito, os veterinários decidiram sedar o animal para fazer o procedimento
Foto: The Royal Zoological Society of Scotland / Divulgação
Um urso polar teve que passar por uma cirurgia após os veterianários descobrirem que ele estava sofrendo dores
Foto: The Royal Zoological Society of Scotland / Divulgação
O pinguim Happy Feet perdeu a rota de migração e foi parar na Nova Zelândia. Leia notícia relacionada
Foto: AP
John Wyeth, chefe da gastroenterologia do hospital de Wellington e um dos mais renomados médicos da Nova Zelândia, conduziu uma operação em um pinguim. O animal foi encontrado em uma praia do país após comer areia - que o pinguim teria confundido com gelo
Foto: AFP
Após ser "extraviado" de seu país, Happy Feet é operado no "asilo" da Nova Zelândia
Foto: AP
O animal foi encontrado na costa de Kapiti, na ilha Norte, e tem cerca de 10 meses. A cirurgia serviu para limpar seu estômago, já que ele vinha comendo areia na praia.
Foto: AP
Liesel, o gorila mais antigo do Zoológico de Budapeste, foi preparado por veterinários da instituição para intervenção cirúrgica. Leia notícia relacionada
Foto: Reuters
A operação fez-se necessária devido a um tumor que ameaçava a vida do gorila
Foto: Reuters
A fêmea, de 32 anos de idade, teve seu útero operado por médicos e veterinários