O desastre invisível que matou 1,7 mil pessoas enquanto elas dormiam
Em 1986, uma erupção límnica no lago Nyos, em Camarões, liberou uma nuvem letal de dióxido de carbono que asfixiou 1,7 mil pessoas enquanto dormiam. Décadas após a tragédia, sistemas de desgaseificação tornaram o lago seguro. Contudo, o retorno dos moradores e a reconstrução da área permanecem travados, tanto pelo trauma dos sobreviventes quanto pela insegurança provocada por conflitos armados entre o governo e grupos separatistas locais.
Há 40 anos, nuvem letal de dióxido de carbono asfixiou vilarejos no entorno do lago Nyos em Camarões. Quatro décadas depois, sobreviventes ainda temem voltar à região."O desastre do lago Nyos pegou todo mundo de surpresa. Não tivemos nenhum sinal de alerta antes que ele acontecesse", afirma o geólogo Isaac Konfor Njilah, chefe de um laboratório do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Yaoundé, na capital dos Camarões.
Na noite de 21 de agosto de 1986, o lago Nyos liberou repentinamente uma enorme nuvem de dióxido de carbono que se espalhou pelos vales e povoados próximos. O gás substituiu o oxigênio, asfixiando pessoas e animais enquanto dormiam.
Localizado no noroeste dos Camarões, cerca de 315 quilômetros a noroeste de Yaoundé, o lago Nyos fica dentro de uma antiga cratera vulcânica no campo de Oku. Na época do incidente, a população da área ultrapassava 3 mil pessoas, e muitas famílias dependiam da agricultura e da pecuária.
O desastre causou a morte de cerca de 1,7 mil pessoas e aproximadamente 3,5 mil cabeças de gado, tornando-se uma das catástrofes naturais mais letais da história dos Camarões.
Como o lago se tornou mortal?
Após o desastre, cientistas dos Camarões e de outros países iniciaram extensas investigações para determinar o que havia acontecido.
Eles concluíram que o dióxido de carbono proveniente das profundezas da Terra vinha se acumulando no fundo do lago havia anos, preso sob mais de 200 metros de água.
Antes da tragédia, as camadas superiores do lago continham água rica em oxigênio, enquanto as camadas mais profundas estavam saturadas de dióxido de carbono dissolvido. Njilah explica que a água tem uma capacidade praticamente ilimitada de absorver esse gás.
"Assim, quando o dióxido de carbono sobe do manto terrestre, ele continua sendo dissolvido no lago", diz o geólogo à DW.
Os cientistas frequentemente comparam o lago Nyos a uma gigantesca garrafa de água gaseificada. Durante décadas, o dióxido de carbono se acumulou nas profundezas do lago. Quando esse equilíbrio foi perturbado, o gás escapou em uma rápida reação em cadeia, liberando uma nuvem mortal que avançou sobre as comunidades vizinhas.
Os pesquisadores acreditam que um deslizamento de terra pode ter desencadeado a liberação do gás ao perturbar as águas ricas em dióxido de carbono no fundo do lago.
O dióxido de carbono é inofensivo nas concentrações normais da atmosfera. Porém, em níveis elevados, atua como um agente asfixiante, deslocando o oxigênio do ar. Como é mais pesado que o ar, o gás escoou pelas encostas em direção aos povoados, onde muitos moradores morreram dormindo antes mesmo de perceber que algo estava errado.
Tragédia semelhante dois anos antes
A tragédia de Nyos não foi a primeira nos Camarões. Dois anos antes, em 15 de agosto de 1984, um evento semelhante ocorreu no lago Monoun, cerca de 100 quilômetros a sudeste de Nyos. Uma liberação repentina de dióxido de carbono matou 37 pessoas.
Os cientistas ainda investigavam o desastre de Monoun quando a catástrofe muito mais mortal ocorreu no lago Nyos. Posteriormente, os pesquisadores concluíram que as mortes foram causadas por um fenômeno raro conhecido como erupção límnica, no qual águas profundas ricas em gases sobem repentinamente à superfície e liberam os gases dissolvidos.
Nos anos seguintes, engenheiros instalaram tubos de desgaseificação no lago Nyos para liberar gradualmente o dióxido de carbono preso nas profundezas.
Hoje, Njilah afirma que o lago já não contém dióxido de carbono dissolvido suficiente para provocar uma nova tragédia: "O lago é seguro o suficiente para que a população retorne."
Sobreviventes ainda convivem com o trauma
O episódio ainda assombra os sobreviventes. Um deles, Tsang Emelda Njah, tinha apenas cinco anos à época. "Estávamos em casa e sentimos uma grande vibração", relata. "Pensamos que a casa estava prestes a desabar. Mas não sabíamos exatamente o que estava acontecendo. Então saímos correndo."
Kum Samuel, que tinha 17 anos na época, retornou ao seu vilarejo e se deparou com uma cena de puro horror. "Vi meus pais caídos, mortos. Galinhas, moscas e pássaros. Cachorros junto com nossos idosos. Eu não sabia o que fazer."
Para Ndong Frederick Bah, as perdas foram profundamente pessoais. "Nove pessoas da minha família foram dormir naquela noite, e eu fui o único sobrevivente", afirma. No dia seguinte, pessoas que souberam do desastre vieram resgatá-lo.
Comunidades inteiras foram posteriormente transferidas para novos assentamentos.
Embora os cientistas tenham reduzido o risco de uma nova liberação de gás, muitos sobreviventes ainda têm dificuldade para superar o trauma.
"Sou um filho de Nyos", diz Tsang Emelda Njah. "Mas ainda tenho medo de chegar perto do lago. Seja lá o que tenha matado pessoas ali, não tenho certeza se foi impedido de acontecer novamente. É por isso que ainda temos medo."
Conflito separatista prejudica retorno de comunidades
Embora os cientistas considerem o lago seguro, os esforços de reconstrução de longo prazo foram desacelerados por um conflito entre o governo camaronês e grupos separatistas.
O conflito eclodiu em 2016 nas regiões Noroeste e Sudoeste do país, predominantemente de língua inglesa, onde se localiza o Lago Nyos.
Segundo Njilah, os planos para reabilitar as comunidades afetadas e incentivar o retorno das pessoas às suas terras ancestrais foram prejudicados pela insegurança, tornando a região de difícil acesso.
Mas ele diz que os sobreviventes querem voltar, para poder prestar homenagens aos seus antepassados ali enterrados.
A violência contínua também dificultou o trabalho científico e os projetos de desenvolvimento. "Ninguém se arrisca a ir para lá, a não ser que queira levar uma bala na cabeça", afirma Njilah. "Isso afetou tanto o governo quanto as agências internacionais que atuam na região."
Colaborou Blaise Eyong.
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