Como os "químicos eternos" impactam a sustentabilidade
A União Europeia propõe banir os PFAS, "químicos eternos" ligados ao câncer e à poluição persistente, mas amplamente usados em tecnologias de energia renovável, como painéis solares e baterias. Enquanto o setor químico alega que a restrição pode encarecer ou inviabilizar a transição energética por falta de opções viáveis, defensores do meio ambiente alertam para os riscos à saúde e sustentabilidade, destacando que alternativas ecológicas e livres de PFAS já começam a surgir no mercado.
Em todo o mundo, países se mobilizam para banir substâncias nocivas como os PFAS. Tecnologias de energia renovável também deveriam ser isentas de compostos químicos que perduram no meio ambiente.De painéis solares a turbinas eólicas, baterias e células de hidrogênio, muitas tecnologias de energia renovável que impulsionam a transição energética compartilham um ingrediente comum: uma classe de substâncias criadas pelo homem conhecidas como "produtos químicos eternos".
Esse grupo engloba 10 mil produtos químicos sintéticos - também conhecidos como substâncias per- e polifluoroalquiladas (PFAS) - que persistem no meio ambiente e podem levar milhares de anos para se decompor.
Amplamente detectadas na água potável, a exposição a certos níveis de PFAS está associada a um risco aumentado de câncer, supressão da função imunológica, redução da fertilidade e atrasos no desenvolvimento infantil.
Esse impacto na saúde inspirou a proibição de fontes conhecidas de PFAS tóxicos, como sprays impermeabilizantes para roupas, panelas antiaderentes de Teflon, espuma de combate a incêndios, embalagens e produtos cosméticos.
UE fecha o cerco aos fluoropolímeros
Enquanto as proibições recentes na França, Nova Zelândia e Dinamarca visam PFAS específicos usados em produtos de consumo, a União Europeia (UE) defende medidas mais abrangentes.
Entre os milhares de produtos químicos permanentes que a UE propõe proibir, estão os fluoropolímeros, valorizados por sua resistência a temperaturas extremas, corrosão e degradação por raios UV, e presentes em diversas tecnologias verdes, desde baterias de íon-lítio até painéis solares.
Em baterias de veículos elétricos, por exemplo, aglutinantes criados com fluoropolímeros de PTFE - também encontrados em produtos de Teflon - são usados para revestir eletrodos secos, aumentando a eficiência energética.
A indústria química se opôs à proposta de proibição na Europa. Uma aliança das principais empresas químicas do mundo, a Performance Fluoropolymer Partnership (PFP), afirma que as preocupações com a saúde relacionadas a alguns tipos de PFAS estão levando a "restrições injustificadas" na produção e no uso de fluoropolímeros.
Em uma declaração em seu portal de internet descrevendo os fluoropolímeros como "cruciais na luta contra as mudanças climáticas", a PFP declarou que quaisquer proibições "prejudicariam nossas metas climáticas e energéticas, possivelmente tornando a transição mais cara ou simplesmente impossível".
PFAS são necessários para combater as mudanças climáticas?
Entre os membros da PFP está a ramificação química do conglomerado multinacional americano 3M - que está sendo processado em mais de 2 bilhões de dólares (R$ 10,3 bilhões) pelo governo australiano por sua espuma de combate a incêndios que liberou substâncias químicas permanentes no meio ambiente - e a Chemours Company, fabricante do Teflon fundada pela gigante química DuPont.
A Agência Europeia do Ambiente afirma que esses polímeros são considerados "relativamente menos problemáticos" do que os blocos de construção dos PFAS, conhecidos como monômeros. Isso se deve a um tamanho molecular maior que "limita sua absorção pelas células vivas" e à potencial toxicidade.
No entanto, os fluoropolímeros ainda se degradam com o tempo, levantando "preocupações adicionais com o meio ambiente e a saúde humana", segundo a agência. Especialistas dizem que esses polímeros inevitavelmente emitirão PFAS durante seu ciclo de vida e entrarão no meio ambiente - e em organismos vivos - por meio da erosão e do estresse físico durante longos períodos.
"Não acho que vamos resolver a crise climática contraindo câncer", disse Gretchen Salter, da Safer States, organização sediada nos EUA que faz lobby para proteger o meio ambiente de substâncias químicas tóxicas. "Não se pode comprovar que esses produtos químicos não causarão danos."
"Como os fabricantes de produtos químicos não podem negar que esses tipos de PFAS prejudicam nossa saúde, eles tentam alegar que são necessários para a transição para energia limpa", disse a lobista, acrescentando que pesquisas mostram como os próprios PFAS alimentam os danos climáticos e a poluição tóxica.
O perigo dos gases fluorados
A indústria petroquímica responde por 30% da demanda global de energia industrial - percentual superior ao dos setores de ferro, aço e cimento - e gera 18% das emissões de gases de efeito estufa do setor industrial. No geral, os produtos químicos usados na produção de inúmeros itens, desde produtos farmacêuticos a fertilizantes, plásticos, tintas, eletrônicos e produtos de limpeza, são responsáveis por cerca de 6% das emissões globais.
Salter afirmou que os PFAS classificados como gases fluorados (gases F) também estão sendo comercializados como "ecológicos", uma vez que são usados em tecnologias limpas, como bombas de calor, e em baterias de carros elétricos. Mas os gases PFAS, embora em grande parte não inflamáveis, são "agora a maior fonte de poluição por PFAS em todo o mundo", pontuou.
Isso se deve em parte ao seu impacto no aquecimento global, que é potencialmente milhares de vezes maior do que o dióxido de carbono. Vazamentos de gases F podem ocorrer ao longo do ciclo de vida de uma bomba de calor devido a vedações desgastadas, manutenção inadequada e descarte incorreto ao final da vida útil. Os gases F também estão presentes em geladeiras e aparelhos de ar condicionado como um fluido refrigerante sintético, de onde também podem vazar.
Existem alternativas de tecnologia verde sem PFAS?
De acordo com a Chem Trust, uma organização sediada no Reino Unido que defende alternativas mais seguras a produtos químicos tóxicos, um conjunto de tecnologias de energia limpa sem PFAS já está disponível no mercado, incluindo bombas de calor que vêm sendo implementadas em toda a Europa como parte da transição do aquecimento a gás.
Em vez de depender de gases fluorados, o propano é apenas um refrigerante alternativo e eficiente em termos energéticos para bombas de calor domésticas e, com o projeto adequado, apresenta um risco insignificante de incêndio, diz um relatório da Chem Trust de 2025.
O grupo também afirma que várias empresas já estão produzindo células solares sem fluoropolímeros. Da mesma forma, tintas poliméricas que protegem as pás das turbinas eólicas e as tornam mais eficientes estão disponíveis sem PFAS.
"Vemos mais empresas na UE e em todo o mundo abraçarem o desafio de desenvolver tecnologias verdes sem PFAS", disse Shubhi Sharma, pesquisadora científica da Chem Trust, em comunicado.
Mas o grupo de lobby dos setores de plásticos e produtos químicos Plastics Europe divulgou em maio um relatório de avaliação de substitutos livres de PFAS, argumentando que "em muitos usos críticos", como transporte, eletrônica e semicondutores, essas alternativas "ou não estão disponíveis ou simplesmente não atendem aos critérios necessários para serem consideradas uma alternativa viável aos fluoropolímeros".
Necessidade de novas alternativas aos PFAS
Salter, da Safer States, disse que os esforços para isentar os chamados PFAS críticos e de baixa preocupação das proibições gerais significam "destruir qualquer tipo de incentivo para a mudança para alternativas mais seguras".
"Enquanto a indústria química insistir que não há alternativas, não haverá mercado para desenvolver nenhuma", disse a ativista.
A Chemours insiste que seus fluoropolímeros e gases fluorados são "fabricados e utilizados com o mínimo impacto ambiental" e afirma que alcançará uma redução de 99% nas emissões de PFAS na fabricação de compostos orgânicos fluorados até o final da década, em comparação com 2018.
Liz Hitchcock, diretora do programa de política federal da organização ambiental sem fins lucrativos Toxic-Free Future, nos EUA, disse à DW que a extrema persistência dos PFAS no meio ambiente inevitavelmente levará à exposição humana. "Ouvimos alegações de que existem PFAS melhores, PFAS mais seguros, mas não vimos provas disso."
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