Erin Brockovich: uma ativista ambiental contra o boom da IA
Ativista que inspirou filme de Hollywood lançou plataforma online com dados e relatos sobre a expansão de data centers nos EUA. Iniciativa destaca impactos sociais, ambientais e econômicos do setor.A resistência global contra o boom da construção de novos data centers ganhou uma nova protagonista: Erin Brockovich. Conhecida internacionalmente pelo filme homônimo de Hollywood estrelado por Julia Roberts, a ativista americana de 65 anos lançou recentemente uma plataforma online que reúne informações sobre o planejamento e a construção de novos data centers nos Estados Unidos.
"Este mapa registra os rastros reais dessa corrida — e revela padrões de crescimento, conflitos e incertezas", escreve Brockovich no site Brockovich Data Center.
Desde o lançamento da plataforma, em abril de 2026, ela recebeu milhares de contribuições. Com isso, pretende dar voz às pessoas nos EUA e ajudar a ter uma visão geral sobre os data centers que alimentam a inteligência artificial, explica. "A população não deveria ser a última a saber."
Por que há resistência contra data centers?
Embora data centers não sejam nenhuma novidade, as grandes empresas de tecnologia aceleraram de forma extrema a construção de novas instalações no mundo inteiro. Além da IA, também cresce a demanda por serviços de nuvem e plataformas.
Críticos como Brockovich apontam sobretudo para o enorme consumo de energia e de água desses data centers, necessários para operar os servidores e resfriar as instalações. Segundo a organização não governamental AlgorithmWatch, com sede em Berlim e Zurique, uma única instalação pode consumir tanta energia quanto uma pequena cidade.
Em países como a Índia, a construção de um data center também pode levar à escassez aguda de água. Em entrevista à DW, moradores disseram que, por causa de instalações como essas, eles às vezes têm acesso à água por apenas algumas horas por dia.
Além disso, o desgaste rápido dos equipamentos nesses centros gera grandes quantidades de lixo eletrônico. Em seu site, Brockovich também menciona a poluição sonora que afeta pessoas e animais.
Do ponto de vista econômico, receber um data center para muitas regiões nem sempre é uma vantagem. Investidores frequentemente aplicam bilhões na construção desses centros, mas geram poucos empregos diretos. Data centers costumam ter dezenas de milhares de metros quadrados, mas normalmente empregam bem menos de 100 pessoas.
Onde se concentra a maioria dos data centers atualmente?
Com cerca de 5,4 mil unidades, os Estados Unidos concentram de longe o maior número de data centers do mundo, seguidos por Alemanha, Reino Unido, China, Canadá, França, Austrália, Holanda e Rússia, segundo dados do portal Euronews referentes a 2025.
Muitos outros data centers estão planejados em todo o mundo, geralmente em áreas mais rurais. Além dos EUA, também devem surgir milhares de novas instalações no Leste Asiático. Segundo a plataforma Germany Trade & Invest, países como China, Japão, Coreia do Sul e Taiwan estão à frente dessa expansão. Os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Catar também ampliam seus data centers, enquanto na Alemanha novos projetos têm visado particularmente a região metropolitana de Frankfurt.
Onde os data centers foram impedidos até agora?
A plataforma de Brockovich não registra apenas informações sobre novos projetos de construção, mas também moratórias — espécie de pausa para avaliar os impactos de um projeto. "Essas moratórias variam em duração e alcance, mas têm um objetivo comum: a expansão não deve avançar mais rápido do que o planejamento", explica.
A plataforma relata, entre outros, moratórias nos estados americanos da Carolina do Norte, Pensilvânia, Maryland, Flórida, Texas e Maine. Mas nem sempre elas têm sucesso. Em Maine, o parlamento aprovou em abril de 2026 uma moratória contra novos data centers com potência superior a 20 megawatts. No entanto, a governadora Janet Mills vetou a lei.
Já em Monterey Park, na Califórnia, os moradores acabaram de votar de forma esmagadora pela proibição de data centers, tornando a cidade americana a primeira do país a fazê-lo por meio de voto popular.
Em outras regiões do mundo, a insatisfação também existe há mais tempo, como na Irlanda e na Holanda. No Chile, em 2024, um grupo ambiental conseguiu barrar com sucesso a construção de um data center para aplicações de IA. Também no Brasil, que busca se posicionar como um novo polo de data centers, cresce a resistência, especialmente no Nordeste do país.
Desenvolvimentos semelhantes também são observados na Alemanha: recentemente, em maio de 2026, a revista Der Spiegel informou que a empresa americana Edgeconnex desistiu de construir uma usina a gás para operar um data center. Segundo a reportagem, a empresa não quis levar adiante o projeto contra a vontade da população e da assembleia municipal.
A ONG AlgorithmWatch aponta que, em muitos casos, sequer há consulta a nível local, e que as pessoas afetadas só ficam sabendo quando talvez já seja tarde demais. Na Espanha, por exemplo, até mesmo prefeitos teriam descoberto novos projetos apenas pela imprensa. Pelo menos nos Estados Unidos, essa prática pode agora enfrentar limites graças ao mapa interativo criado por Brockovich.
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