Como o El Niño está alterando a temporada de furacões
Pela primeira vez desde 1966, o Atlântico não registrou furacões até o final de setembro, efeito de um intenso El Niño que aumenta o cisalhamento do vento e inibe tempestades na região. Em contraste, o fenômeno eleva a atividade ciclônica no Oceano Pacífico e altera padrões no Índico. Meteorologistas alertam que a união deste forte El Niño com o aquecimento global pode amplificar eventos extremos pelo mundo, agravando secas, enchentes e ondas letais de calor nos próximos meses.
Neste ano, pela primeira vez desde o início do monitoramento em 1966, nenhuma tempestade tropical formada no Atlântico se intensificou a ponto de se tornar um furacão.Se este fosse um ano como os outros, alguns furacões já teriam se formado no Oceano Atlântico. Em 2005, por exemplo, um dos anos em que mais se registraram furacões, cinco deles já haviam atravessado o Oceano Atlântico nessa época do ano, incluindo o Katrina, um dos mais devastadores da história dos Estados Unidos.
Mas 2026 tem sido diferente. Até o dia 23 de setembro, apenas seis tempestades tropicais haviam se formado no Atlântico Norte, e nenhuma delas se intensificou a ponto de se tornar um furacão. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), esta é a primeira vez que isso acontece desde o início do monitoramento por satélite, em 1966.
"Na era dos satélites, nunca tivemos um ano sem furacões", afirmou Matthew Rosencrans, meteorologista responsável pelas previsões da temporada de furacões no Centro de Previsão Climática da NOAA. "Seria uma situação inédita."
Em grande parte, isso se deve à atual fase da "Oscilação Sul-El Niño", um ciclo de mudanças nos ventos e nas temperaturas da superfície do Oceano Pacífico que influencia padrões climáticos em todo o mundo e é considerado um dos principais fatores que determinam a atividade de furacões. Meteorologistas afirmam que o El Niño deste ano poderá estar entre os mais intensos já registrados.
Furacão, tufão ou ciclone: qual é a diferença?
O Centro de Previsão Climática da NOAA informou que a energia ciclônica acumulada das tempestades tropicais deste ano - índice que leva em conta duração e intensidade das tempestades - atingiu níveis historicamente baixos para esta altura da temporada, cujo pico costuma ocorrer em 10 de setembro.
Nenhuma das seis tempestades registradas até agora alcançou ventos de, pelo menos, 119 quilômetros por hora, limite necessário para ser classificada como furacão de categoria 1 - capaz de provocar danos leves a casas, árvores e outras estruturas.
A denominação dessas tempestades varia conforme a região. No Atlântico Norte e no Pacífico Oriental, elas são chamadas de furacões. No Pacífico Ocidental, especialmente no leste da Ásia, recebem o nome de tufões. Já no Oceano Índico e no Pacífico Sul, geralmente são classificadas como ciclones.
Como o El Niño afeta os furacões no Atlântico?
Dados mais recentes da NOAA mostram que o El Niño continua se fortalecendo. O aumento da temperatura da superfície do mar na região-chave do Pacífico já supera 3 °C, o que indica um episódio considerado "muito forte" nos próximos seis meses e favorece uma temporada de furacões abaixo da média no Atlântico.
Quase toda a atividade de ciclones tropicais no Atlântico ocorre entre 1º de junho e 30 de novembro, embora furacões possam se formar em outras épocas do ano. Meteorologistas alertam, porém, que a calmaria observada até agora não descarta a ocorrência de um grande furacão antes do fim da temporada.
O padrão climático natural do El Niño reaparece, em média, a cada dois a sete anos e seus efeitos podem durar até um ano. Durante esse período, os ventos alísios - constantes e úmidos que sopram das regiões subtropicais (altas pressões) em direção à linha do Equador (baixas pressões) - enfraquecem e, em alguns casos, chegam a inverter sua direção. Essas alterações afetam a umidade, deslocam a corrente de jato atmosférica e dificultam a formação de tempestades no Atlântico.
Segundo a NOAA, quando furacões se formam durante anos de El Niño, eles tendem a surgir próximos à costa leste dos Estados Unidos e ao Golfo do México. Isso reduz o tempo disponível para que alcancem grande intensidade, mas também diminui o prazo de preparação das comunidades costeiras.
"As formações em áreas profundas dos trópicos são prejudicadas pelo forte cisalhamento do vento", explicou Rosencrans. O termo se refere às mudanças bruscas na velocidade ou na direção dos ventos em diferentes altitudes, capazes de interromper o desenvolvimento das tempestades. "Quanto mais intenso o evento de El Niño, mais forte tende a ser o cisalhamento do vento."
Tufões do Pacífico mudam de rota e seguem ao norte
Durante episódios de El Niño, o cisalhamento vertical dos ventos, ou "windshear" em inglês, costuma ser menos intenso no Pacífico central e oriental. Somado às águas mais quentes da região, que fornecem calor e umidade para alimentar as tempestades, isso geralmente resulta em um aumento da atividade de ciclones tropicais.
O Pacífico já registrou vários furacões de grande intensidade este ano, incluindo o Polo, que nesta semana se transformou em um dos ciclones mais poderosos observados na região em décadas, impulsionado em parte pelo El Niño.
"Normalmente, o El Niño faz com que as tempestades se formem mais a leste, em direção à Linha Internacional de Data [uma linha imaginária na superfície terrestre que marca a mudança de um dia para o outro] e às Ilhas Marshall", afirmou Rosencrans, prevendo uma temporada acima da média no Pacífico. "Isso significa que essas tempestades têm mais tempo de vida antes de atingir grandes massas de terra."
Anne-Claire Fontan, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), explicou que, durante eventos de El Niño, as tempestades no lado asiático do Pacífico costumam seguir mais para o norte, em vez de avançar para oeste em direção ao Leste e Sudeste Asiático. Segundo Rosencrans, isso aumenta ligeiramente as chances de tempestades tropicais e tufões atingirem Guam, as Ilhas Marianas do Norte, o Japão e a Península Coreana.
El Niño forte altera as tempestades no Oceano Índico
Um El Niño intenso enfraquece as monções sobre o subcontinente indiano, frequentemente favorecendo secas severas. O fenômeno também costuma estar associado a uma temporada menos ativa de ciclones tropicais no Oceano Índico, afirma Fontan, integrante do Programa de Ciclones Tropicais da OMM. Assim como no Atlântico, o aumento do cisalhamento do vento pode dificultar ou retardar a formação de tempestades. Segundo ela, isso reduz os riscos para países da costa leste africana, como Madagascar e Moçambique.
"No sudoeste do Oceano Índico, existe uma relação não linear, em forma de sino, entre a atividade de ciclones tropicais e a ENSO [um padrão climático que consiste na oscilação dos parâmetros meteorológicos do Pacífico equatorial a cada certo número de anos]", explicou Fontan, referindo-se ao El Niño e à sua fase oposta, a La Niña. "À medida que a ENSO caminha para qualquer um de seus extremos, seja um El Niño forte ou uma La Niña forte, a atividade de ciclones na região tende a ficar abaixo da média."
Há relação entre o El Niño e as mudanças climáticas?
A Oscilação Sul-El Niño é um fenômeno natural e não é causada pelas mudanças climáticas. Como destaca Rosencrans, "a interação entre El Niño ou La Niña e mudanças de longo prazo é apenas um dos fatores que tornam uma temporada de furacões mais ou menos ativa". Outro elemento importante é o ar seco e carregado de poeira proveniente do Deserto do Saara, que também pode dificultar a formação de furacões no Atlântico.
Fontan ressalta, porém, que a combinação entre um El Niño excepcionalmente forte e o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis está criando condições propícias para extremos climáticos sem precedentes nos próximos meses. "O El Niño está ocorrendo em um planeta mais quente, o que pode amplificar alguns de seus impactos, incluindo calor extremo, chuvas intensas e secas", afirmou.
Alguns centros meteorológicos, como o Met Office Hadley Centre do Reino Unido, já alertaram que a combinação entre El Niño e mudanças climáticas pode levar à quebra de recordes globais de temperatura em 2027.
Um relatório recente do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, projeta que o calor extremo poderá provocar 451 mil mortes a mais em todo o mundo durante este período de El Niño, especialmente nos países do Sul Global."Já estamos testemunhando a destruição e os impactos causados por secas e enchentes, e estamos contando com o fato de que eles se agravem à medida que o El Niño se intensifica", alertou, no início de setembro, Celeste Saulo, chefe da Organização Meteorológica Mundial, em uma mensagem direcionada a governos e organizações humanitárias.
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