"Cinturão Verde" ocupa antiga faixa da morte entre as duas Alemanhas
Ao longo da antiga fronteira interna da Alemanha, espécies ameaçadas de extinção encontram um lugar seguro. Maior parte dos 1,4 mil quilômetros da faixa está sob proteção ambiental.Um ônibus turístico transporta representantes do Ministério do Meio Ambiente da Alemanha e jornalistas de Rostock a Salzwedel, no leste do país, através de uma área quase desabitada. A região, em Wendland, no leste da Baixa Saxônia, é predominantemente agrícola; em poucos minutos, o ônibus chegará a Salzwedel, no estado da Saxônia-Anhalt.
Antigamente, aqui passava a fronteira interna alemã, entre a República Federal da Alemanha, a oeste, e aRepública Democrática Alemã (RDA) - a antiga Alemanha Oriental - a leste. Em outras palavras, esta era a fronteira entre dois blocos de poder globais: o mundo ocidental com a Otan e o mundo oriental com os países do Pacto de Varsóvia. Isso durou até a queda do Muro de Berlim, em 1989.
Andreas Heil é chefe de departamento no Ministério do Meio Ambiente da Alemanha e responsável pelo "Cinturão Verde", uma reserva natural contínua e única ao longo da antiga fronteira, que tinha como objetivo impedir que cidadãos da Alemanha Oriental fugissem para o Ocidente. O cinturão tem quase 1,4 mil quilômetros de extensão e entre 50 e 200 metros de largura.
Durante a viagem, Heil relembra ao grupo a serventia que essa faixa de terra costumava ter, e ou que era obrigada a ter, e qual é sua função hoje, "Uma faixa da morte intransponível para as pessoas e que representava um elemento de divisão, e que hoje é exatamente o oposto: algo que une."
Refúgio para espécies ameaçadas de extinção
O ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider - que também está no ônibus - é da cidade de Erfurt, na atual Turíngia. Ao chegar ao Cinturão Verde, ele enfatiza a importância da antiga faixa de fronteira militar para a natureza nos dias de hoje: "Como a estrada de patrulha estava fechada e ninguém tinha permissão para entrar aqui - pelo menos não eu, como cidadão comum da RDA -, surgiu, após a reunificação, a oportunidade para o estabelecimento de espécies que praticamente não existem em nenhum outro lugar."
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, os dados mais recentes refletem exatamente isso. Cerca de 7,5 mil espécies de insetos e aranhas foram contabilizadas no Cinturão Verde, das quais 580 estão ameaçadas ou criticamente ameaçadas de extinção".
Também ameaçadas de extinção estão as lontras, o gato-selvagem-europeu, os cartaxos e os abibes. Todos eles podem ser encontrados na antiga faixa de fronteira hoje coberta de vegetação. Para garantir que isso continue, 88% de todo o Cinturão Verde está sob proteção ambiental.
Um grande pântano perto de Salzwedel
Até mesmo áreas pantanosas foram preservadas perto da antiga fronteira, como uma extensa turfeira perto de Salzwedel, com 400 hectares, que agora pode ser explorada por meio de um passadiço. Em maio, as orquídeas florescem em grande exuberância.
Assim, a antiga fronteira, involuntariamente, ajudou a preservar áreas pantanosas em uma região onde elas agora são raras, especialmente mais longe do Cinturão Verde. Nathalie Niederdrenk, do Ministério do Meio Ambiente, explica que "muitas áreas aqui foram drenadas antes da queda do Muro de Berlim, nos séculos 19 e 20. Elas foram completamente transformadas para uso agrícola."
Em seguida, o pequeno grupo de viajantes percorre cerca de oito quilômetros de bicicleta ao longo do Cinturão Verde. Aqui e ali, o caminho passa por vestígios da estrada de patrulha utilizada antigamente por guardas de fronteira da Alemanha Oriental. Placas informativas lembram a antiga fronteira entre os dois estados alemães ou explicam a importância do Cinturão Verde.
Parte do corredor ecológico europeu
O cinturão já não é uma ideia exclusivamente alemã. Afinal, a divisão entre Leste e Oeste também ocorreu em outros países. No norte da Europa, existem agora espaços verdes ao longo das fronteiras entre a Finlândia, a Noruega e a Rússia.
Ao sul do Cinturão Verde alemão, o percurso continua ao longo da fronteira entre a República Checa, a Eslováquia e a Áustria, e entre a Croácia e a Hungria. Ao todo, essa faixa se estende por um total de 24 países, cobrindo uma extensão de aproximadamente 12,5 mil quilômetros.
A Federação Alemã para o Meio Ambiente e a Conservação da Natureza (Bund) tem uma ligação especial com o Cinturão Verde, como explicou o presidente da entidade, Olaf Bandes, em Salzwedel. "Aqui, em 2000, começamos a adquirir as primeiras áreas ao longo do Cinturão Verde, utilizando doações da Bund e financiamento do Ministério do Meio Ambiente. Este é agora o maior projeto que criamos, abrangendo mil hectares." A entidade possui cerca de 520 mil membros em todo o país e é financiada por doações e verbas governamentais.
Luta constante pela preservação da natureza
O Cinturão Verde requer proteção contínua, sobretudo porque, à esquerda e à direita dessa faixa, predominam outros tipos de uso do solo, e nem todas as áreas estão sob proteção ambiental. Há seis anos, a Bund na Baviera reclamou que o caminho ao longo do cinturão estava sendo fortemente impactado pela agricultura. Para animais e plantas as rotas de deslocamento acabam sendo interrompidas, e até mesmo pedestres e ciclistas às vezes se deparam repentinamente com plantações de milho em seu percurso.
No entanto, no início de julho, os estados alemães da Turíngia, Baviera e Saxônia decidiram garantir a proteção permanente de um trecho de aproximadamente 95 quilômetros do Cinturão Verde por meio de um plano de gestão válido até 2028.
O governador da Baviera, Markus Söder, declarou a faixa como um importante projeto ambiental em tempos de mudanças climáticas drásticas. O plano custará cerca de um milhão de euros, dos quais 75% virão do orçamento do Ministério do Meio Ambiente.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele apa recer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.