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Artemis II: por que agências espaciais deixaram de escolher 'machos alfa' para virarem astronautas

A Artemis II levará tripulação de volta à Lua. Como viver e prosperar em um ambiente extremo e isolado?

3 fev 2026 - 17h32
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Durante dez dias, Victor Glover viverá em um pequeno compartimento pressurizado com outros três companheiros
Durante dez dias, Victor Glover viverá em um pequeno compartimento pressurizado com outros três companheiros
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Quando a missão Artemis II pousar na Lua, nos próximos anos, sua tripulação terá de lidar com um ambiente hostil e com um isolamento extremo.

O que será necessário para prosperar em uma base lunar solitária?

"O Espaço é bastante desafiador", diz Victor Glover, astronauta da Nasa, a agência espacial americana. "É mais difícil do que parece. E isso não é algo que dizemos com frequência."

A BBC conversou com Glover um pouco antes da missão fatídica da nave Starliner da Boeing à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês).

Mais tarde, quando o sistema de propulsores da cápsula falhou durante a atracação, a tripulação acabou presa no espaço por oito meses.

O astronauta em breve assumirá os controles da Artemis II, pilotando a primeira cápsula Orion tripulada além da Lua — mais longe do que os humanos já foram.

Durante dez dias, Glover viverá em um pequeno compartimento pressurizado com outros três companheiros.

Ele ressalta a complexidade da missão. "Temos um tanque cheio de água e, à medida que bebemos essa água, ela acaba", diz. "Temos comida e, à medida que comemos, ela acaba — e ninguém vai enviar uma nave de reabastecimento."

Até as atividades cotidianas mais simples se tornarão um desafio, e uma possível fonte de incômodo. "Não existe privacidade", afirma.

"Você pode entrar no compartimento de resíduos e higiene e fechar a porta, mas, assim que liga a máquina, você acorda todo mundo — é a coisa mais barulhenta, tirando o motor."

"Essas são as coisas que vão exigir um conjunto diferente de preparações psicológicas."

A Artemis II é o primeiro passo no eventual retorno da humanidade à Lua. Missões futuras, lideradas pelos Estados Unidos, levarão humanos à superfície lunar e construirão uma base próxima ao polo sul do satélite.

Os astronautas ficarão a dias da Terra, vivendo por meses em confinamento, com apenas os colegas como companhia.

Com noites que duram duas semanas, o ambiente externo será poeirento e sem ar, com temperaturas extremas e níveis potencialmente prejudiciais de radiação.

Os astronautas que chegarem à Lua terão uma missão muito diferente da dos pioneiros da Apollo
Os astronautas que chegarem à Lua terão uma missão muito diferente da dos pioneiros da Apollo
Foto: Nasa/Getty Images / BBC News Brasil

Critérios de seleção

Viagens à Lua serão cada vez mais física e mentalmente exigentes, e é crucial encontrar as pessoas certas para a tarefa.

"É muito difícil selecionar um astronauta, porque não se está procurando super-humanos em um único aspecto", afirma Sergi Vaquer Araujo, chefe da equipe de medicina espacial da Agência Espacial Europeia (Esa, na sigla em inglês), que ajudará a supervisionar a seleção de astronautas para futuras missões lunares.

"Busca-se alguém que seja bom em todas as áreas — e isso é extremamente difícil de encontrar."

Quando a Nasa selecionou seus primeiros astronautas, nos anos 1950, os candidatos eram todos pilotos de teste no auge da condição física.

Durante o processo de seleção, essas pessoas (e eram todos homens) tiveram de suportar semanas de exames, que iam da capacidade pulmonar à acuidade visual, dos movimentos intestinais à contagem de espermatozoides. Os aprovados eram descritos como possuidores do "perfil ideal".

Hoje, os astronautas já não precisam apresentar um condicionamento físico tão excepcional, mas ainda assim devem atender a determinados critérios físicos.

"Qualquer tipo de doença crônica que comprometa o desempenho durante a missão é motivo de desclassificação", afirma Araujo.

Assim, embora a miopia possa ser aceitável, problemas respiratórios (como asma), irregularidades cardíacas ou daltonismo podem excluir até candidatos altamente qualificados.

"É importante entender que estamos em uma missão de exploração e não dispomos do mesmo equipamento médico que temos em terra", diz Araujo.

"Para reduzir riscos, precisamos de pessoas muito bem avaliadas — se alguém tivesse uma crise de asma no meio da missão, não teríamos como tratar."

Embora isso possa eliminar muitos candidatos em potencial (o repórter que assina este texto incluído), a maioria das pessoas razoavelmente aptas tem boas chances de passar nos exames físicos. Mas esse é apenas o início do que significa, hoje, ter "o perfil ideal".

Grande parte do processo de seleção envolve avaliar capacidades cognitivas e a adequação psicológica para missões espaciais.

Os primeiros astronautas eram vencedores hipercompetitivos — "machos alfa" — dispostos a arriscar a própria vida. Isso os tornava pessoas empolgantes de se conviver, mas não necessariamente ideais para passar longos períodos em um espaço confinado.

Hoje, a capacidade de trabalhar bem em equipe é um dos atributos mais importantes de um astronauta. Vencer nem sempre é uma vantagem.

Qualquer base lunar construída na superfície da Lua precisará apenas do apoio da estação espacial Gateway, planejada como parte do programa Artemis
Qualquer base lunar construída na superfície da Lua precisará apenas do apoio da estação espacial Gateway, planejada como parte do programa Artemis
Foto: NASA / BBC News Brasil

Durante o processo mais recente de seleção de astronautas da Esa, os candidatos foram observados em desafios em equipe. "O sucesso do grupo era mais importante do que o sucesso individual", afirma Araujo.

"Chegava a um ponto em que, para dar certo, era preciso perder em benefício da equipe."

Outra forma de descobrir se alguém tem o perfil necessário para chegar à Lua é tentar viver nos confins da Terra.

A cirurgiã britânica Nina Purvis acaba de retornar da estação de pesquisa franco-italiana Concordia, na Antártida. Selecionada como parte de um programa de pesquisa da Esa, ela passou o inverno inteiro com apenas outras 12 pessoas.

"Ela é chamada de 'Marte Branco' porque é um ambiente isolado, confinado e extremo", diz Purvis. "Durante a noite polar, não há luz solar, e as temperaturas podem chegar a cerca de -80°C."

"De fevereiro a novembro, a estação fica completamente isolada, então precisamos ser autossuficientes em termos de alimentação, combustível e atendimento médico", afirma.

"Se alguém adoece, somos eu e um médico mais experiente em medicina de emergência, e trabalhamos juntos para tratar qualquer paciente."

Felizmente, emergências em Concordia são raras, e Purvis passou a maior parte do tempo realizando experimentos — alguns deles com os próprios colegas. Além de pesquisas sobre como a saúde intestinal se comporta em uma comunidade isolada, vários estudos se concentraram no bem-estar mental.

Quem é escolhido para trabalhar na Antártida passa por um processo de seleção semelhante ao dos astronautas; por isso, investigar como melhorar o humor e a resiliência dessas pessoas ajuda a orientar futuras missões espaciais.

"É preciso ser alguém agradável para trabalhar junto, esse é o ponto número um", diz Purvis. "Você precisa lidar com pressão, estresse e incerteza e, ainda assim, conseguir desempenhar bem o trabalho — é possível treinar para todos os cenários, mas sempre acontece algo que não conseguimos prever."

Décadas de pesquisas polares também deixaram claro que, embora haja momentos ocasionais de excitação, o tédio é uma preocupação séria. "Não há muito estímulo ambiental, então tudo é muito monótono", afirma Purvis.

"Você não quer ficar sentado no quarto, no escuro, assistindo à Netflix o tempo todo."

Um dos experimentos conduzidos por Purvis envolveu práticas de mindfulness (tipo de meditação ligado à atenção plena). Com base em pesquisas anteriores, ela reunia a equipe para atividades que incluíam ioga, atividades com peças de Lego e pintura.

Bases na Antártida, como Concordia, ajudam a estudar os efeitos do isolamento prolongado
Bases na Antártida, como Concordia, ajudam a estudar os efeitos do isolamento prolongado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Ainda não temos todos os resultados, mas senti que isso me fez bem, e a equipe passou a esperar com expectativa pelas atividades, que ajudaram a unir o grupo", afirma Purvis. "É o tipo de experimento que tem baixo custo operacional, mas um retorno muito alto, e acredito que certamente será incorporado às rotinas dos astronautas no futuro."

Não são apenas as agências espaciais que vêm testando a vida em bases lunares. No auge da pandemia de Covid-19, em setembro de 2020 — quando muitos de nós já estavam cansados do isolamento —, o arquiteto Sebastian Aristotelis, então com 24 anos, e seu colega Karl-Johan Sørensen, de 22, embarcaram em uma missão própria. Após vencerem um concurso para projetar um habitat conceitual em Marte, decidiram construir um protótipo de habitat lunar e viver nele por 60 dias no norte da Groenlândia.

"Decidimos que não queríamos fazer mais esse tipo de trabalho apenas conceitual", diz Aristotelis. "As pessoas já achavam que éramos loucos, e eu precisava ver que conseguíamos realmente construir algo para acreditar que não era apenas um sonhador maluco."

Foi apenas quando estavam sendo deixados no local pela Marinha da Dinamarca que Aristotelis começou a duvidar. "Vi aquele pequeno ponto de terra em meio a uma paisagem árida e foi a primeira vez que me dei conta do que havíamos assumido", afirma. "Toda a animação e o entusiasmo simplesmente se dissiparam, e restou apenas um momento de completo silêncio… senti nervosismo e um pouco de ansiedade pela primeira vez."

Construída em fibra de carbono e coberta por painéis solares, a base lunar pré-fabricada Lunark foi projetada para se desdobrar como um origami, mas precisava ser resistente o suficiente para suportar eventuais ataques de ursos polares (algo que, obviamente, não seria um problema na Lua).

Embora tivesse apenas alguns metros de largura, o habitat contava com três compartimentos internos empilhados, de modo que os dois companheiros pudessem ter algum espaço privado.

Um corretor de imóveis talvez o descrevesse como "aconchegante". Eles também desenvolveram um sistema de iluminação interna para simular a luz do dia e manter os ritmos circadianos sob controle.

A primeira missão Artemis tripulada deve ser lançada nas próximas semanas e marca o retorno da humanidade à Lua
A primeira missão Artemis tripulada deve ser lançada nas próximas semanas e marca o retorno da humanidade à Lua
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"O primeiro dia foi extremamente claustrofóbico; havia tanto equipamento que ficávamos em pé dentro daquela cápsula minúscula", afirma Aristotelis.

"Depois de alguns dias nos acomodando, entramos em uma rotina e, de repente, como o ambiente externo era tão extremo e assustador, o interior rapidamente passou a parecer um lar."

Como resultado do experimento, a empresa de Aristotelis, a Saga, hoje atua em dois continentes, trabalhando para agências espaciais e companhias privadas no projeto de habitats lunares e interiores de estações espaciais.

"Eu penso nessa missão todos os dias", diz ele. "Se você vai projetar uma casa na Lua, precisa se esforçar muito para ter uma experiência o mais próxima possível da realidade, com todos os pequenos incômodos e problemas para então encontrar soluções."

Glover, da Nasa, por sua vez, passou anos treinando para o retorno da Nasa à Lua e pode, um dia, acabar vivendo lá. Pergunto se ele se sente psicologicamente preparado para deixar a Terra tão para trás.

"Não sei", responde. "Pergunte isso quando eu voltar!"

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