O segundo cérebro: como o eixo intestino-cérebro influencia humor, ansiedade e depressão

Eixo intestino-cérebro: descubra como a microbiota intestinal regula humor e saúde mental, prevenindo ansiedade e depressão com ciência

26 mai 2026 - 08h30

O interesse pelo chamado eixo intestino-cérebro cresceu muito na última década. Pesquisadores de diversas áreas passaram a observar que alterações no intestino aparecem com frequência em pessoas com depressão, ansiedade e outras condições emocionais. Dessa forma, o antigo hábito de relacionar "estômago embrulhado" a nervosismo ganhou respaldo em estudos que ligam a microbiota intestinal ao equilíbrio mental.

Esse eixo integra o sistema nervoso, o sistema imunológico e o sistema endócrino. Assim, o intestino deixa de ser apenas um órgão digestivo e passa a funcionar como um centro de comunicação química com o cérebro. A microbiota intestinal participa desse diálogo e, quando entra em desequilíbrio, pode influenciar o humor, o nível de estresse e até a resposta a medicamentos psiquiátricos.

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O que é o eixo intestino-cérebro e por que ele importa para a saúde mental?

O eixo intestino-cérebro corresponde a uma rede de comunicação bidirecional entre o sistema nervoso central e o trato gastrointestinal. Essa rede envolve hormônios, moléculas inflamatórias, neurotransmissores e, sobretudo, o nervo vago. Esse nervo atua como uma via principal para o envio de sinais do intestino para o cérebro, em tempo quase real.

Estudos de neurogastroenterologia mostram que o intestino contém um vasto conjunto de neurônios. Alguns especialistas chamam esse conjunto de "segundo cérebro". Essas células nervosas respondem à presença de nutrientes, toxinas e microrganismos. Em seguida, produzem substâncias que modulam a atividade cerebral. Dessa maneira, o organismo traduz o que acontece no tubo digestivo em mensagens emocionais e cognitivas.

Pesquisas recentes incluíram análises de fezes, exames de imagem e testes psicológicos. Muitos desses trabalhos identificaram diferenças na composição da microbiota de pessoas com transtornos depressivos em comparação com grupos sem diagnóstico psiquiátrico. Esses dados reforçam a importância do eixo intestino-cérebro na saúde mental.

Como a microbiota intestinal e a serotonina afetam o humor?

A microbiota intestinal reúne trilhões de bactérias, vírus e fungos que vivem no intestino. Em condições saudáveis, essas populações mantêm um equilíbrio dinâmico. Esse equilíbrio favorece a digestão, a produção de vitaminas e a proteção contra agentes infecciosos. No entanto, mudanças na dieta, uso frequente de antibióticos e estresse crônico podem alterar essa composição e gerar disbiose.

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A relação entre microbiota e humor se explica, em parte, pela produção de neurotransmissores. Cerca de 90% da serotonina do corpo se sintetiza no intestino, em células especializadas da mucosa. Bactérias específicas influenciam essa produção ao metabolizar fibras, proteínas e gorduras. Esses microrganismos liberam ácidos graxos de cadeia curta e outras moléculas que estimulam essas células a fabricar serotonina e outros mensageiros químicos.

Essas substâncias não atravessam o cérebro de forma direta em grandes quantidades. Porém, modulam o sistema nervoso entérico, o sistema imunológico e o próprio nervo vago. Estudos clínicos recentes observaram que pessoas com disbiose grave apresentam menor diversidade bacteriana e maior incidência de sintomas depressivos. Ensaios com transplante de microbiota em modelos animais também sugerem que a flora intestinal consegue alterar comportamento e níveis de ansiedade.

De que forma o nervo vago e a inflamação conectam intestino e cérebro?

O nervo vago funciona como uma rodovia de mão dupla. Ele leva comandos do cérebro para o intestino e traz de volta informações sobre o estado da digestão, da microbiota e da mucosa. Quando a microbiota se desequilibra, aumenta a produção de substâncias pró-inflamatórias. Essas moléculas ativam receptores no intestino e geram impulsos que seguem pelo nervo vago até estruturas cerebrais ligadas ao estresse e ao medo.

Além disso, a disbiose costuma comprometer a barreira intestinal. Pequenas falhas nessa barreira facilitam a passagem de fragmentos bacterianos para a circulação. O organismo reconhece esses fragmentos e produz citocinas inflamatórias. Estudos em psiquiatria translacional mostram que níveis elevados dessas citocinas se associam a depressão resistente, fadiga intensa e pior qualidade do sono.

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Esse processo não surge de forma isolada. A alimentação inflamatória, com excesso de açúcares simples, ultraprocessados e gorduras trans, favorece a disbiose. Em paralelo, o estresse contínuo altera hormônios como o cortisol, o que afeta a permeabilidade intestinal. Esse ciclo mantido por longos períodos aumenta o risco de alterações de humor e quadros ansiosos.

Nervo vago – Reprodução
Nervo vago – Reprodução
Foto: Giro 10

Alimentação, probióticos e prebióticos podem ajudar a modular emoções?

A literatura científica recente aponta um caminho promissor para a modulação emocional por meio da alimentação. Dietas ricas em vegetais, frutas, grãos integrais e gorduras insaturadas, como o padrão mediterrâneo, costumam favorecer maior diversidade microbiana. Alguns estudos de intervenção observaram redução de sintomas depressivos após a adoção de padrões alimentares anti-inflamatórios.

Os probióticos reúnem microrganismos vivos que, em quantidades adequadas, trazem benefícios à saúde. Já os prebióticos consistem em fibras e compostos que servem de alimento para essas bactérias benéficas. Pesquisas controladas com probióticos específicos, às vezes chamados de "psicobióticos", registraram melhora discreta, porém mensurável, em indicadores de ansiedade e estresse em alguns grupos de voluntários.

Entre os alimentos com ação prebiótica destacam-se:

  • Leguminosas, como feijão, lentilha e grão-de-bico;
  • Frutas ricas em fibras solúveis, como banana, maçã e pera;
  • Vegetais como alho, cebola, alho-poró e aspargos;
  • Cereais integrais, como aveia e cevada.

Alguns estudos também analisam alimentos fermentados, como iogurte com culturas vivas, kefir e kombucha. Esses produtos podem introduzir microrganismos úteis no intestino e, assim, auxiliar o equilíbrio do eixo intestino-cérebro. Os resultados ainda variam entre ensaios, mas vários trabalhos já sugerem impacto positivo em marcadores de humor.

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Como cuidar do eixo intestino-cérebro no dia a dia?

Estratégias simples podem favorecer a estabilidade da microbiota intestinal e, por consequência, do eixo intestino-cérebro. Elas não substituem tratamentos médicos ou psicoterapêuticos, porém funcionam como aliados importantes no cuidado global da saúde mental.

  1. Priorizar alimentos naturais e minimamente processados.
  2. Incluir fibras em todas as refeições, sempre que possível.
  3. Variar as fontes de vegetais para ampliar a diversidade bacteriana.
  4. Reduzir o consumo de bebidas açucaradas e ultraprocessados.
  5. Manter hidratação adequada ao longo do dia.
  6. Praticar atividade física regular, que também influencia a microbiota.
  7. Buscar estratégias de manejo do estresse, como meditação ou terapia.

Pesquisas em 2024 e 2025 reforçaram essa abordagem integrada, ao mostrar que combinações de ajustes alimentares, intervenções no estilo de vida e, quando necessário, uso de probióticos específicos podem modificar parâmetros inflamatórios e emocionais. Dessa maneira, o cuidado digestivo passa a ocupar posição central em programas de promoção do bem-estar psicológico, com base em evidências clínicas contemporâneas e em avanços da biologia molecular do eixo intestino-cérebro.

intestino – depositphotos.com/benschonewille
Foto: Giro 10
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