‘Não é instintivo’: especialistas explicam quais problemas são comuns nos primeiros 30 dias de amamentação

Dor, fissuras, mamas endurecidas e insegurança estão entre as dificuldades; saiba quando buscar ajuda

29 ago 2026 - 04h58
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde é que o bebê seja alimentado exclusivamente com leite materno até os 6 meses de vida
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde é que o bebê seja alimentado exclusivamente com leite materno até os 6 meses de vida
Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

Os primeiros dias após o nascimento do bebê são marcados por descobertas e adaptações para toda a família. Entre elas está a amamentação, que, apesar de ser um processo natural, não é necessariamente instintivo nem acontece sem aprendizado. Para a mãe e o bebê, o início pode envolver dificuldades como dor, fissuras nos mamilos, mamas muito cheias e dúvidas sobre a quantidade de leite. Neste agosto dourado, veja as dicas de especialistas.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde é que o bebê seja alimentado exclusivamente com leite materno até os 6 meses de vida, sem água, chás ou outros alimentos. A amamentação deve continuar após esse período, junto à introdução alimentar.

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Segundo Cinthia Calsinski, consultora internacional de lactação (IBCLC), enfermeira e doutora pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos principais desafios é justamente a expectativa de que a mulher saiba amamentar naturalmente assim que o bebê nasce. “A gente acha muito que é instintivo, que é só colocar o bebê no peito, mas não. Tem técnica para isso”, explica.

A ginecologista Dra. Adriani Oliveira Galão, secretária da Comissão Nacional Especializada em Aleitamento Materno da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), também destaca a importância da preparação durante a gestação.

“A mulher não nasce sabendo amamentar. Ela tem que ser educada e tem que ter um aprendizado acima disso. Todos os benefícios, eles são conhecidos. Só que a dificuldade deste ato, as pessoas não discutem”, afirma.

Dor ao amamentar: é normal?

Dor, fissuras, mamas endurecidas e insegurança estão entre as dificuldades; saiba quando buscar ajuda
Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

Algum desconforto pode aparecer nos primeiros dias, principalmente no início da mamada. Cinthia explica que existe uma dor passageira, que pode ocorrer quando o bebê começa a sugar e o mamilo e a aréola são alongados dentro da boca.

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Ela chama esse desconforto de “dor dos 30 segundos”. A sensação pode ser intensa inicialmente, mas tende a diminuir rapidamente.

“Na hora que a mulher põe o bebê no peito, ela ‘ui!’, dói, mas logo ela consegue respirar tranquila. Essa dor corresponde ao alongamento do mamilo e da aréola dentro da boca do bebê”, explica. O sinal de alerta é quando a dor não passa. “Não pode doer o tempo inteiro”, afirma Cinthia.

Para a Dra. Adriani, dor intensa, sangramento e rachaduras nos mamilos não devem ser encarados como parte normal da amamentação. “Uma dor intensa, um sangramento, essas rachaduras, isso não é normal. Isso indica que algo não está bem e essa paciente tem que ser orientada”, diz.

Pega incorreta

De acordo com as especialistas, a forma como o bebê é posicionado e colocado no peito tem papel fundamental para evitar dores e lesões. O bebê deve estar com o corpo alinhado ao da mãe, com a barriga voltada para ela e ombros e quadris alinhados. A boca deve estar bem aberta para abocanhar não apenas o mamilo, mas uma parte significativa da aréola.

É importante observar se o bebê está com o pescoço posicionado adequadamente e se consegue realizar os movimentos necessários para sugar e engolir o leite. “São vários detalhes que o profissional vai corrigir. Um profissional de aleitamento, um consultor de amamentação, batendo o olho ali, ele já consegue ajudar a mãe”, afirma Cinthia.

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Fissuras podem indicar problemas

Algum desconforto pode aparecer nos primeiros dias, principalmente no início da mamada
Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

Os machucados e sangramentos nos mamilos estão entre as dificuldades mais comuns nos primeiros dias. Cinthia afirma que as fissuras são uma das principais causas de interrupção da amamentação e que, em geral, estão relacionadas à pega inadequada. “Eu tenho certeza que é a dificuldade mais comum nos primeiros 15 dias de vida”, diz.

Uma fissura que não melhora pode estar relacionada não apenas à pega, mas também a outros fatores, como alterações na língua do bebê ou dificuldade para ele abocanhar uma mama muito cheia. Para Cinthia, o principal tratamento é corrigir a causa do machucado. “O que resolve de fato é a correção da pega".

Mamas cheias e doloridas

Outro desconforto frequente nas primeiras semanas é o ingurgitamento mamário, quando as mamas ficam muito cheias, endurecidas e doloridas. Cinthia explica que o organismo precisa se adaptar à quantidade de leite que o bebê demanda. Por isso, a amamentação em livre demanda é importante para que a produção se ajuste às necessidades da criança.

A orientação é oferecer o peito com frequência e permitir que o bebê mame sempre que apresentar sinais de fome. Para aliviar o desconforto, Cinthia recomenda o uso de compressas frias. A especialista alerta para algumas práticas populares, como o uso de compressas quentes ou a realização de massagens muito intensas para tentar retirar o leite.

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“Leite fraco” não existe

De acordo com as especialistas, a forma como o bebê é posicionado e colocado no peito tem papel fundamental para evitar dores e lesões
Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Uma das principais inseguranças entre as mães é acreditar que não estão produzindo leite suficiente para alimentar o bebê. Para as especialistas, porém, o chamado “leite fraco” é um mito. A Dra. Adriani explica que a composição do leite materno se modifica ao longo da mamada e se adapta às necessidades nutricionais do bebê.

A percepção de que há pouco leite pode estar relacionada, por exemplo, à dificuldade de esvaziar adequadamente a mama ou à ausência de livre demanda. Por isso, em vez de avaliar a produção apenas pela aparência do leite ou pelo comportamento do bebê, é importante observar outros sinais e ter acompanhamento médico.

Choro nem sempre significa fome

Outro erro comum é interpretar todo choro como sinal de fome. Segundo as especialistas, o bebê pode chorar por diversos motivos. “O bebê pode chorar por inúmeras coisas. Pode ser por causa da fraldinha, porque está muito barulho, porque o ambiente está quente. Mas não necessariamente é sempre por causa da mamada”, explica a Dra. Adriani.

Cinthia também alerta que bebês que choram mais podem acabar recebendo complementação com fórmula justamente pela interpretação de que o choro significa fome. Por isso, diante da dúvida, a recomendação é procurar o pediatra ou um profissional especializado em aleitamento em vez de fazer mudanças na alimentação por conta própria.

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Quando procurar ajuda?

As especialistas recomendam que a família não espere a situação se agravar para buscar orientação. A preparação pode começar ainda durante o pré-natal. Para Adriani, as orientações sobre amamentação devem ser discutidas antes do nascimento e reforçadas antes da alta hospitalar, já que alguns dos problemas aparecem justamente dois ou três dias depois do parto, quando a mulher já está em casa.

“Antes de ela ter alta, a gente tem que rediscutir todas essas questões para evitar o que a gente mais teme, que é o desmame”, afirma.

Cinthia lembra que a família também pode procurar o hospital onde deu à luz ou um banco de leite humano, onde pode encontrar profissionais capacitados para orientar sobre a amamentação.

Além da orientação profissional, as especialistas destacam que o apoio da família e das pessoas próximas pode fazer diferença para a continuidade do aleitamento. Para a Dra. Adriani, familiares e parceiros devem evitar julgamentos e palpites e, principalmente, ajudar a criar condições para que mãe e bebê tenham tranquilidade.

“Esses não têm que dar palpite sobre o leite ou julgar aquela mãe, mas eles têm que oferecer proteção para que essa mãe e esse bebê tenham tranquilidade para esse período que é bem difícil”, afirma.

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Para Cinthia, o Agosto Dourado, mês de conscientização sobre o aleitamento materno, também deve servir para lembrar que a responsabilidade não está apenas sobre a mulher.

“O Agosto Dourado não é para convencer as mães da importância da amamentação. É para conscientizar as outras pessoas. Porque para uma mulher ser capaz de amamentar, todo mundo que está ao redor dessa mulher está envolvido", conclui.

Fonte: Portal Terra
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