Mesmo pesticidas considerados "seguros" podem aumentar risco de câncer

22 jul 2026 - 07h43
(atualizado às 07h43)

22 de julho de 2026 (Bibliomed). Um novo estudo científico, realizado por um grupo de pesquisadores franceses e peruanos, revelou uma forte ligação entre a exposição a pesticidas agrícolas no meio ambiente e o risco de desenvolvimento de câncer. Combinando dados ambientais, um registro nacional de câncer e análises biológicas, os pesquisadores lançaram nova luz sobre o papel da exposição a pesticidas no desenvolvimento de certos tipos de câncer.

Mesmo pesticidas considerados “seguros” podem aumentar risco de câncer
Mesmo pesticidas considerados “seguros” podem aumentar risco de câncer
Foto: albertolopezphoto/Evanto / Boa Saúde

Os pesticidas estão amplamente presentes nos alimentos, na água e no meio ambiente, frequentemente na forma de misturas complexas. Até agora, tem sido difícil avaliar com precisão seus efeitos na saúde humana, visto que a maioria dos estudos se concentra em substâncias isoladas e modelos experimentais muito distantes das condições reais de exposição. Este novo estudo adota uma abordagem inovadora e integrativa que leva em consideração a complexidade das exposições reais vivenciadas pelas populações.

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O estudo se baseia em modelos que mapeiam as áreas do Peru mais expostas à poluição ambiental relacionada a pesticidas. Aplicada em todo o território nacional, essa abordagem incorporou 31 substâncias químicas utilizadas na agricultura — nenhuma das quais é classificada como carcinógeno humano conhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) — e modela como elas se espalham no meio ambiente.

Ao cruzar esses dados com informações geográficas de mais de 150.000 pacientes diagnosticados entre 2007 e 2020, os pesquisadores conseguiram identificar áreas onde as pessoas têm maior probabilidade de serem expostas a pesticidas no meio ambiente e de serem afetadas por certos tipos de câncer. Nessas áreas, o risco de desenvolver câncer foi, em média, 150% maior.

O estudo demonstra que certos tumores, embora afetem diferentes órgãos, compartilham vulnerabilidades biológicas comuns ligadas à sua origem celular, que podem ser exacerbadas pela exposição a pesticidas. Notavelmente, o fígado é um órgão fundamental no metabolismo de substâncias químicas e é considerado um local de alerta para a exposição ambiental. Análises moleculares mostraram que os pesticidas interrompem processos que ajudam a manter a função e a identidade celular. Essas alterações biológicas surgem antes do desenvolvimento do câncer, sugerindo efeitos precoces, cumulativos e silenciosos. Elas podem tornar os tecidos mais vulneráveis a outros fatores de risco, como infecções, inflamações ou estressores ambientais.

Os resultados desafiam as abordagens toxicológicas convencionais, que se baseiam na avaliação de substâncias isoladas e no estabelecimento de limiares considerados seguros. Eles destacam a importância de se considerar misturas de pesticidas, exposição ambiental e contextos socioecológicos reais. O estudo também sugere que eventos climáticos extremos, como o El Niño, podem exacerbar a exposição, alterando o uso de pesticidas e sua dispersão no meio ambiente. Isso exige uma reavaliação das políticas de avaliação e prevenção de riscos.

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Segundo os pesquisadores, além do Peru, este estudo se insere em uma discussão mais ampla sobre saúde global e limites planetários. Ele ilustra como as mudanças ambientais, o manejo insustentável da terra, eventos climáticos extremos e desigualdades sociais podem se combinar e afetar a saúde da população, particularmente a dos mais vulneráveis, como as comunidades indígenas e camponesas no Peru.

Os pesquisadores planejam dar continuidade ao trabalho para melhor compreender os mecanismos biológicos identificados e fortalecer as ferramentas de prevenção, visando apoiar políticas de saúde pública mais equitativas e eficazes.

Fonte: Nature Health. DOI: 10.1038/s44360-026-00087-0.

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