Uma atriz e apresentadora brasileira precisou cancelar compromissos e ser internada. Nos Estados Unidos, um dos psicólogos mais conhecidos do mundo interrompeu palestras, podcasts e aparições públicas enquanto enfrentava uma recuperação lenta.
À primeira vista, Monica Iozzi e Jordan Peterson parecem ter histórias completamente diferentes. Mas elas têm um ponto em comum: a acatisia.
Ainda pouco conhecida do grande público, essa condição pode provocar um sofrimento intenso e uma necessidade praticamente irresistível de se movimentar.
A repercussão dos dois casos levou a acatisia ao noticiário e fez muita gente ouvir esse nome pela primeira vez.
Afinal, como uma pessoa aparentemente saudável pode, de repente, desenvolver uma necessidade incontrolável de se movimentar e viver um nível de desconforto difícil até de colocar em palavras?
Segundo a psiquiatra Dra. Fabrícia Signorelli, compreender o que acontece no corpo e na mente durante uma crise ajuda a explicar por que a acatisia costuma ser confundida com ansiedade. Também ajuda a entender por que esse erro pode atrasar o diagnóstico e o tratamento.
"É como ter uma energia presa dentro do corpo"
Para quem nunca vivenciou a acatisia, a descrição pode parecer exagerada. Mas, segundo a especialista, a experiência costuma ser muito mais intensa do que uma simples inquietação.
"Imagine não conseguir ficar parado, sentindo uma agonia nas pernas que só alivia um pouco quando você se mexe, caminha ou balança o corpo. É como se houvesse uma energia desconfortável dentro do corpo que precisa ser liberada através do movimento", explica a Dra. Fabrícia.
É justamente essa combinação entre sofrimento físico e emocional que torna a acatisia tão difícil de explicar para quem nunca passou pela condição.
A necessidade de movimento é praticamente irresistível.
Algumas pessoas passam a andar de um lado para outro sem perceber, balançam o corpo quando estão sentadas, cruzam e descruzam as pernas repetidamente ou mudam o peso de uma perna para outra o tempo todo.
Mas o sofrimento não é apenas físico.
A psiquiatra afirma que a sensação costuma vir acompanhada de angústia profunda, irritabilidade e desespero. Nos casos mais graves, a pessoa sequer consegue permanecer na mesma posição por mais do que alguns segundos.
Foi justamente um quadro de acatisia provocado por uma reação medicamentosa que levou Monica Iozzi à internação no início deste ano e ao cancelamento de sua participação em um programa de TV.
Depois de inicialmente mencionar outro diagnóstico nas redes sociais, sua assessoria esclareceu que a condição era, na verdade, acatisia.
Quando parece ansiedade, mas não é
Um dos maiores desafios é que os sintomas da acatisia costumam ser confundidos com ansiedade.
Embora ambas provoquem inquietação, existe uma diferença importante.
Na ansiedade, o desconforto costuma nascer dos pensamentos, das preocupações e do medo. Já na acatisia, explica a psiquiatra, a sensação é predominantemente física.
"A pessoa sente uma compulsão de se movimentar. Muitas conseguem perceber que aquela sensação é diferente da ansiedade que já experimentaram antes", afirma.
Outro detalhe ajuda a levantar a suspeita. A acatisia frequentemente aparece logo após o início ou o aumento da dose de determinados medicamentos, muitas vezes nas primeiras semanas de tratamento.
Reconhecer essa diferença é fundamental.
"Médicos podem interpretar essa agitação como piora do quadro psiquiátrico e aumentar a dose do medicamento. Paradoxalmente, isso pode agravar ainda mais a acatisia", alerta a médica.
Quais medicamentos podem estar envolvidos?
Na maioria das vezes, a acatisia está associada ao uso de alguns antipsicóticos, antidepressivos e medicamentos utilizados para controlar náuseas e vômitos.
Em situações menos frequentes, sintomas semelhantes também podem ocorrer em algumas doenças neurológicas.
Isso, porém, não significa que quem utiliza esses medicamentos desenvolverá a condição.
Segundo a Dra. Fabrícia, o risco varia conforme o medicamento, a dose, o tempo de uso e características individuais de cada paciente.
Por isso, o medo desse efeito colateral nunca deve levar alguém a interromper um tratamento por conta própria.
A acatisia sempre melhora?
Em muitos pacientes, o reconhecimento precoce do problema e o ajuste da medicação são suficientes para aliviar os sintomas.
Entretanto, essa nem sempre é a evolução do quadro.
Existe uma forma persistente, conhecida como acatisia tardia, que pode continuar mesmo após a retirada do medicamento responsável. Nesses casos, o tratamento costuma ser mais complexo.
Quanto mais cedo a condição é identificada, maiores tendem a ser as chances de recuperação.
Os relatos divulgados pela família de Jordan Peterson chamaram atenção justamente por sugerirem uma evolução prolongada.
Sua filha, Mikhaila Peterson, descreveu publicamente a experiência como "a pior coisa que já viu alguém enfrentar" e afirmou que a recuperação vinha sendo lenta.
Segundo ela, a piora estaria relacionada à recorrência de uma condição neurológica previamente existente, e não ao uso recente de medicamentos psiquiátricos.
Como os detalhes clínicos do caso não foram divulgados, não é possível compará-lo diretamente com outras formas de acatisia.
Ainda assim, a história ilustra como o problema pode, em determinadas situações, ter uma evolução prolongada.
O que fazer diante dos primeiros sinais
Ao perceber uma inquietação intensa após iniciar ou ajustar um medicamento, a orientação é procurar o médico responsável o mais rápido possível.
Relatar quando os sintomas começaram, informar quais medicamentos estão sendo usados e explicar como essa sensação difere de uma ansiedade habitual pode ajudar o profissional a chegar ao diagnóstico.
Dependendo da situação, o tratamento pode incluir ajuste da dose, substituição da medicação ou uso de medicamentos específicos para aliviar os sintomas, sempre sob acompanhamento médico.
O que nunca deve ser feito é interromper o tratamento por conta própria.
Além do risco de piorar a doença que motivou o uso do medicamento, a suspensão abrupta pode provocar síndrome de abstinência e, em alguns casos, agravar a própria acatisia.
Também não é recomendado aumentar a dose sem orientação médica ou recorrer ao álcool e outras substâncias na tentativa de aliviar o desconforto.
Um nome pouco conhecido que merece atenção
Para quem nunca ouviu falar em acatisia, ela pode parecer apenas um nome difícil. Para quem desenvolve a condição, porém, ela pode transformar completamente a rotina.
Os casos de Monica Iozzi e Jordan Peterson ajudaram a dar visibilidade a um problema que ainda é pouco conhecido, mas que pode ser confundido com ansiedade ou simples agitação.
Reconhecer os sinais precocemente pode fazer diferença no diagnóstico e permitir que o tratamento adequado seja iniciado antes que o sofrimento se prolongue desnecessariamente.
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