Erva-doce brasileira e chinesa: por que uma combate a Malária e a outra, não

A erva-doce está presente no dia a dia de muitas famílias brasileiras, principalmente em chás que aliviam desconfortos digestivos. Ao mesmo tempo, muitas notícias científicas mencionam uma planta chamada popularmente de "erva-doce chinesa", usada como base para remédios contra a malária.

9 fev 2026 - 16h02

A erva-doce está presente no dia a dia de muitas famílias brasileiras, principalmente em chás que aliviam desconfortos digestivos. Ao mesmo tempo, muitas notícias científicas mencionam uma planta chamada popularmente de "erva-doce chinesa", usada como base para remédios contra a malária. Essa coincidência de nomes provoca dúvida: se ambas recebem o nome de erva-doce, por que apenas uma delas se relaciona ao tratamento da doença?

O ponto central dessa questão não se concentra no nome popular, mas sim na espécie vegetal, na substância ativa que cada planta produz e na forma de estudo, isolamento e uso dessa substância na medicina. A erva-doce que comerciantes vendem em feiras e lonjas do Brasil cumpre funções bem diferentes da planta chinesa que originou medicamentos modernos contra a malária, embora ambas apareçam tradicionalmente em chás e preparos caseiros.

Publicidade

Diferença entre erva-doce brasileira e erva-doce chinesa

A chamada erva-doce brasileira, muito comum em mercados, geralmente corresponde à Pimpinella anisum (anis), às sementes de Foeniculum vulgare (funcho) ou, em algumas regiões, a outras plantas aromáticas com sabor adocicado. Essas plantas concentram compostos como o anetol, que se relaciona a efeitos digestivos e a um leve efeito calmante. Já a planta famosa como "erva-doce chinesa contra a malária" não pertence à mesma espécie: trata-se da Artemisia annua, também conhecida como "qinghao" na medicina tradicional chinesa.

Embora ambas apresentem aroma marcante e uso em infusões, a Artemisia annua pertence a outra família botânica e produz uma molécula específica, chamada artemisinina. Essa substância exerce ação potente contra o parasita da malária. As ervas-doces que comerciantes oferecem nas lonjas brasileiras não produzem artemisinina. Por isso, elas não repetem o mesmo efeito, mesmo que o sabor ou o uso popular em chás pareça semelhante.

chá – depositphotos.com / TarasMalyarevich
chá – depositphotos.com / TarasMalyarevich
Foto: Giro 10

Erva-doce chinesa é realmente antídoto contra a malária?

O senso comum costuma usar o termo "antídoto". No entanto, na prática, médicos utilizam um tratamento baseado em derivados da Artemisia annua. Pesquisadores isolaram a artemisinina a partir dessa planta e desenvolveram medicamentos chamados de terapias combinadas à base de artemisinina. Organizações internacionais de saúde recomendam esses remédios para o tratamento da malária falciparum, uma das formas mais graves da doença.

Mesmo assim, o uso terapêutico não se resume a tomar chá de "erva-doce chinesa". A concentração de artemisinina em preparos caseiros varia muito e ninguém consegue controlá-la de forma adequada. Por esse motivo, médicos preferem comprimidos padronizados, com concentração definida e associados a outros fármacos. Essa combinação reduz o risco de resistência do parasita. Assim, a planta cumpre o papel de matéria-prima inicial, e não de remédio pronto em formato tradicional de infusão doméstica.

Publicidade

Por que a erva-doce do Brasil não combate a malária?

erva-doce presente nas lonjas brasileiras não combate a malária porque pertence a espécies diferentes e não produz artemisinina. Suas propriedades principais se relacionam ao sistema digestivo e, em menor grau, a efeitos suaves sobre cólicas e gases. Os compostos que predominam nessas plantas, como o anetol e outros óleos essenciais, não exercem a mesma ação específica sobre o parasita Plasmodium, responsável pela malária.

Esse contraste mostra como o nome popular de uma planta pode gerar confusão. Uma espécie recebe o nome de erva-doce no Brasil, enquanto outra, totalmente diferente, recebe denominação semelhante em outro país. Em bromélias, orquídeas ou plantas medicinais, o potencial terapêutico não depende do apelido. Ele depende da espécie, da composição química e da forma de extração e teste dos compostos.

Como a artemisinina age no organismo?

A artemisinina e seus derivados atuam principalmente dentro das hemácias, onde o Plasmodium se desenvolve. Esses medicamentos interagem com componentes do parasita e geram espécies reativas que danificam estruturas internas essenciais à sua sobrevivência. Desse modo, o tratamento reduz rapidamente a carga parasitária no sangue, aspecto fundamental no manejo de casos graves.

Por causa dessa ação específica, a artemisinina se tornou um marco na terapia da malária nas últimas décadas. Contudo, médicos não recomendam o uso isolado dessa substância de forma rotineira. A estratégia atual combina a artemisinina com outros antimaláricos em um mesmo esquema terapêutico. Essa abordagem diminui o risco de surgimento de parasitas resistentes e aumenta a eficácia clínica.

Publicidade

Quais cuidados são importantes ao usar plantas medicinais?

A confusão entre erva-doce brasileira e erva-doce chinesa reforça a necessidade de atenção ao uso popular de plantas para tratar doenças graves. Em situações como malária, a orientação de serviços de saúde e o acesso a medicamentos padronizados se tornam fundamentais. Quando a pessoa substitui o tratamento indicado por chá, mesmo de plantas com histórico medicinal, ela pode atrasar o atendimento adequado e agravar o quadro.

  • Identificar corretamente a espécie da planta utilizada, preferencialmente com apoio de fontes confiáveis.
  • Consultar profissionais de saúde antes de empregar qualquer planta com finalidade terapêutica, sobretudo em doenças graves.
  • Evitar o uso de chás como substitutos de medicamentos prescritos para doenças infecciosas ou crônicas.
  • Valorizar informações baseadas em estudos científicos e diretrizes atualizadas, não apenas em relatos informais.

Erva-doce e malária: o que fica claro dessa comparação

Ao comparar a erva-doce chinesa com a erva-doce presente nas lonjas brasileiras, a análise revela que o fator decisivo envolve a espécie vegetal e o composto químico que ela produz. Enquanto a Artemisia annua fornece a artemisinina, base de medicamentos modernos contra a malária, as ervas-doces comuns no Brasil cumprem principalmente funções digestivas e aromáticas, sem efeito comprovado contra o parasita da doença.

Assim, a resposta à pergunta sobre por que uma "erva-doce" combate a malária e a outra não se apoia na botânica e na farmacologia, e não apenas na tradição ou no nome popular. Conhecer essa diferença evita interpretações equivocadas e reforça a importância de se apoiar em evidências científicas quando o tema envolve tratamentos para enfermidades que exigem acompanhamento médico. Dessa forma, o uso responsável de plantas medicinais se integra à medicina baseada em evidências, sem substituir terapias essenciais.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se