O Brasil ampliou de forma significativa os exames para detecção do câncer colorretal - um avanço importante. Entre 2016 e 2025, os testes de sangue oculto nas fezes no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceram cerca de 190%, enquanto as colonoscopias aumentaram aproximadamente 145% no mesmo período.
Ações educativas, a atuação de sociedades médicas e até a repercussão de casos de figuras públicas ajudaram a colocar o tema em evidência, explica Eduarda Tebet, coordenadora da Campanha Março Azul - dedicada à conscientização, prevenção e diagnóstico precoce do câncer colorretal.
Apesar disso, as projeções indicam um avanço expressivo nas mortes pela doença. Entre 2026 e 2030, o número de óbitos deve ser quase três vezes maior do que o registrado entre 2001 e 2005. A estimativa aponta para cerca de 157 mil mortes nesse intervalo de cinco anos, frente a 57,6 mil no período anterior.
Os dados, publicados na revista The Lancet Regional Health Americas, também revelam um crescimento desigual entre os gêneros: a alta projetada é de 181% entre os homens e de 165% entre as mulheres. No acumulado de 2001 a 2030, o total de mortes pela doença deve ultrapassar 635 mil. Hoje, o câncer colorretal já ocupa posição de destaque no País: é o segundo tipo mais frequente (desconsiderando o câncer de pele não melanoma) e o terceiro que mais mata.
Gargalos
Apesar do crescimento no rastreamento, muitos casos ainda são diagnosticados em fases avançadas da doença. Isso acontece por falhas em diferentes etapas da chamada linha de cuidado.
A primeira delas é a baixa adesão. Muitas pessoas deixam de fazer exames por desconhecimento ou medo. A segunda é o acesso desigual. Fora dos grandes centros, a cobertura de rastreamento ainda é insuficiente.
Mas o ponto mais crítico está na continuidade do cuidado. "Quando um exame de fezes vem alterado, nem sempre o paciente consegue acesso rápido à colonoscopia", diz Eduarda. A demora pode ser decisiva: lesões que poderiam ser tratadas precocemente evoluem para quadros mais graves.
Nataliê Almeida, cirurgiã do aparelho digestivo do Hospital Samaritano Higienópolis, reforça que o desafio não é apenas realizar o exame inicial, mas garantir que o paciente percorra todas as etapas - diagnóstico, encaminhamento e tratamento - no tempo adequado.
Um câncer silencioso - e tratável
O câncer colorretal é um tumor que, na maioria das vezes, começa como pequenos pólipos na parede do intestino. "Com o passar dos anos, algumas dessas lesões podem sofrer alterações genéticas e evoluir para câncer, por isso a importância do rastreamento e da remoção precoce desses pólipos", explica o oncologista Jorge Abissamra. Quando identificado nos estágios iniciais, as chances de cura podem ultrapassar 90%.
Nessas fases, a doença pode não apresentar sintomas, o que torna os exames de rastreamento ainda mais importantes. Ao se manifestarem, os sinais incluem:
- sangue nas fezes
- mudança persistente no hábito intestinal, como diarreia ou constipação
- fezes mais finas que o habitual
- dor abdominal frequente
- sensação de evacuação incompleta
- anemia por deficiência de ferro
- perda de peso sem causa aparente
- cansaço persistente
Casos aumentando entre jovens
Um ponto que tem preocupado os especialistas é o crescimento da incidência entre pessoas mais jovens. De acordo com levantamento realizado pelo A.C.Camargo Cancer Center, houve um aumento de 7,1% ao ano no número de casos novos em pessoas com menos de 50 anos entre 2000 e 2023.
Ainda não há uma causa única definida, mas há fortes evidências de que o estilo de vida contemporâneo desempenha papel central: alimentação rica em ultraprocessados, baixo consumo de fibras, sedentarismo e obesidade estão entre os principais fatores de risco ao qual a população vem sendo exposta desde cedo.
Embora o risco individual em jovens ainda seja menor do que em pessoas acima de 50 anos, o aumento da incidência nessa faixa etária acendeu um alerta importante. Por isso, já houve revisão das recomendações, com início do rastreamento aos 45 anos. Para quem possui histórico familiar em parentes de primeiro grau, síndromes hereditárias ou doenças inflamatórias intestinais crônicas, a investigação deve começar mais cedo.