Importante: esta reportagem contém descrições de tentativas de suicídio que podem ser perturbadoras para alguns leitores.
Caso você seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda no final desta reportagem.
"Eu vou embora e vocês ficam com toda a dor. E quanto a toda a dor que sofri ao longo destes anos?"
O sofrimento ao longo da vida e os dois anos de luta na Justiça enfrentados pela espanhola Noelia Castillo Ramos, de 25 anos, chegaram ao fim nesta quinta-feira (26/3), quando ela foi submetida à eutanásia que havia solicitado em 2024.
Fontes do setor de saúde informaram a morte de Castillo Ramos aos jornalistas de vários veículos de imprensa presentes ao Hospital Residência Sant Camil, da comarca catalã de Garraf, na Espanha, onde se realizou o procedimento.
A notícia foi confirmada posteriormente nas redes sociais pela organização ultracatólica Advogados Cristãos, que assessorava o pai da jovem, Gerónimo Castillo. Ele tentou impedir o procedimento até o último instante.
Para a realização da eutanásia, Noelia Castillo Ramos precisou esperar que cinco instâncias judiciais (a última delas, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos) se pronunciassem sobre o seu caso. Todas elas deram razão à jovem.
As autoridades competentes mantiveram a aprovação em todas as instâncias, mas a oposição do seu pai, assessorado pelo grupo religioso, obrigou Castillo Ramos a postergar a situação. Por fim, na terça-feira (24/3), o tribunal europeu encerrou a batalha legal, autorizando a aplicação da eutanásia.
Ela deixa para trás uma infância complicada em uma família desestruturada, que a levou a ficar temporariamente sob a tutela do Estado. Além disso, ela passou por várias agressões e abusos, uma violação coletiva e uma série de tentativas de suicídio.
Uma destas tentativas a deixou paraplégica, com terríveis dores, depois de se atirar do quinto andar de um prédio.
O longo litígio prolongou o sofrimento físico e psicológico da jovem transformou seu caso em jurisprudência na Espanha e foi o primeiro a chegar aos tribunais, desde a entrada em vigor da lei da eutanásia, em 2021.
O caso também pôs à prova as vulnerabilidades da lei e uma questão talvez mais profunda: quem tem legitimidade para impedir uma pessoa adulta de receber a eutanásia.
Sofrimento invisível
"Consegui e vamos ver se, finalmente, posso descansar, pois já não aguento mais", declarou a jovem de Barcelona esta semana, em entrevista ao programa Y Ahora Sonsoles, da TV espanhola Antena 3.
"Não aguento mais esta família, não aguento mais as dores, não aguento mais tudo o que me atormenta na cabeça."
A historia de Castillo gerou controvérsias na Espanha, devido à sua pouca idade e porque ela não se encontra em uma situação socialmente percebida como terminal.
Mas seu pedido de receber a eutanásia recebeu aval científico unânime da Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha, o comitê de profissionais independentes dedicado a avaliar estes casos naquela região da Espanha.
A lei exige que o solicitante sofra de uma doença grave e incurável, ou sofrimento crônico insuportável. E a comissão de especialistas afirmou que a jovem atendia aos requisitos, já que apresentava "uma situação clínica sem possibilidade de recuperação".
Esta situação gerava, segundo o comitê composto por médicos e juristas, "uma dependência grave, dor e sofrimento crônico e incapacitante", repercutindo na sua autonomia e nas suas atividades diárias.
Além disso, todas as resoluções judiciais emitidas para o seu caso determinaram que Castillo Ramos conserva intactas suas faculdades mentais, o que é imprescindível para que a decisão de pedir a eutanásia seja "livre, consciente e informada", como exige a lei.
Ela própria deixou clara sua vontade no programa de televisão, quando explicou que passava por profundo sofrimento psíquico. Foi sua primeira e última aparição nos meios de comunicação, desde que seu caso foi para a Justiça.
"Antes de pedir a eutanásia, eu via meu mundo muito obscuro, não tinha metas, nem objetivos, nem nada", relatou ela às câmeras.
Castillo explicou que tentou tirar a vida diversas vezes.
"Tive duas tentativas de suicídio com comprimidos, até que minha mãe me levou ao primeiro hospital psiquiátrico", ela conta. Ali, ela se feriu com cortes e bebeu um produto tóxico retirado de um carrinho de limpeza.
"No segundo hospital psiquiátrico, eu me machuquei duas ou três vezes e tentei dois suicídios", relata ela.
Depois de sofrer vários abusos, entre eles uma agressão sexual múltipla nas mãos de três meninos, ela conta que, no dia 4 de outubro de 2022, se atirou do quinto andar de um prédio. A queda não a matou, mas a deixou paraplégica e com graves sequelas.
Em abril de 2024, Castillo pediu a eutanásia para a Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha, que deu sua aprovação por unanimidade três meses depois.
A batalha judicial
Mas seu pai apresentou recurso para impedir o procedimento poucos dias antes da data prevista, em agosto daquele mesmo ano.
Gerónimo Castillo foi assessorado em todo o processo pelo grupo ultracatólico Advogados Cristãos. Ele alegava que sua filha sofria de problemas de saúde mental e, por isso, não estava em condições de tomar uma decisão totalmente livre.
Seus advogados também pediram que a jovem recebesse tratamento psicológico, antes de autorizar a morte assistida. Eles acusavam o sistema de não ter esgotado todas as vias terapêuticas possíveis, antes de dar início a um processo irreversível.
Um tribunal da Catalunha interrompeu o processo de forma cautelar e, sete meses depois, Castillo Ramos compareceu perante a juíza e ratificou sua decisão.
"Quero terminar com dignidade, de uma vez por todas", declarou ela, na ocasião.
A jovem declarou ter sofrido "coação" de grupos religiosos que haviam levado desenhos, cruzes e símbolos religiosos ao quarto no centro onde morava.
A juíza deu razão a Castillo Ramos, mas o caso não acabou ali. A organização Advogados Cristãos levou o caso para o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, que ratificou a sentença e deu luz verde para a eutanásia.
Em seguida, tanto a Suprema Corte como o Tribunal Constitucional espanhol rejeitaram o recurso apresentado pelo pai, a quem só restou a via europeia.
Mas o Tribunal Europeu de Direitos Humanos rejeitou, no dia 10 de março, as medidas cautelares apresentadas pela organização Advogados Cristãos para impedir o processo.
"Eles sabiam desde o princípio que perderiam e, ainda assim, fizeram Noelia passar por este longuíssimo périplo de quase dois anos, até chegar à alta instância europeia. É revoltante", denunciou à agência de notícias EFE a presidente da Associação pelo Direito a Morrer Dignamente da Catalunha, Cristina Vallès.
Desde que a lei entrou em vigor na Espanha em 2021, 1,3 mil pessoas conseguiram exercer seu direito à eutanásia e morrer acompanhadas de suas famílias, segundo Vallès.
"São pessoas que sofrem tanto que preferem ir descansar", destacou ela. "E as famílias as acompanham porque acompanhar e deixar ir é um ato de amor."
O caso de Noelia Castillo Ramos se transformou em um símbolo na Espanha para os defensores da morte digna. Mas ela deixou claro que não quer ser "exemplo de ninguém".
"Eu só quero ir embora em paz e parar de sofrer", conclui a jovem.
Caso você seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda:
- O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia; há também a opção de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento em todo o Brasil;
- Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece também o chat Pode Falar;
- Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone 190);
- Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192;
- Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h;
- Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil.
- Para aqueles que perderam alguém para o suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio.