Estudos mostram: maconha não ajuda a tratar ansiedade e pode trazer riscos

Nos últimos anos, a maconha passou de tema marginal a assunto frequente em debates de saúde pública. Veja o que dizem estudo sobre o seu uso para tratar ansiedade.

21 mar 2026 - 12h30

Nos últimos anos, a maconha passou de tema marginal a assunto frequente em debates de saúde pública. Entre os principais argumentos em defesa do uso da substância está a ideia de que ela poderia aliviar ansiedade, estresse e outros transtornos de saúde mental. No entanto, evidências científicas recentes apontaram outra direção, indicando que o uso de cannabis pode não trazer o benefício que se espera para esses quadros. Ademais, em alguns casos, pode associar-se ao agravamento dos sintomas.

Pesquisas internacionais e nacionais vêm sendo examinadas por grupos independentes, universidades e órgãos de saúde. Esses estudos analisam desde o consumo recreativo até o uso medicinal, incluindo produtos com diferentes concentrações de THC e CBD. A partir desse conjunto de dados, especialistas reforçam a necessidade de cautela, especialmente entre pessoas que já apresentam diagnóstico de ansiedade, depressão ou outros transtornos psiquiátricos.

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Um estudo divulgado no dia 26 de março de 2026 pela respeitada revista The Lancet não identificou comprovações de que a cannabis medicinal seja eficaz no tratamento de ansiedade, depressão ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

A pesquisa, que os próprios autores apontam como a mais abrangente revisão já realizada sobre a segurança e a eficácia desses compostos em condições de saúde mental, foi conduzida por cientistas da Universidade de Sydney, vinculados ao The Matilda Centre, instituição dedicada à prevenção, à intervenção precoce e ao tratamento de transtornos mentais e do uso de substâncias.

Evidências científicas recentes apontaram outra direção, indicando que o uso de cannabis pode não trazer o benefício que se espera para esses quadros de saúde mental – depositphotos.com / AndrewLozovyi
Evidências científicas recentes apontaram outra direção, indicando que o uso de cannabis pode não trazer o benefício que se espera para esses quadros de saúde mental – depositphotos.com / AndrewLozovyi
Foto: Giro 10

Maconha e ansiedade: o que dizem os estudos mais recentes?

A palavra-chave em discussão é maconha para ansiedade, expressão que aparece com frequência em buscas na internet e em consultórios médicos. No entanto, revisões sistemáticas recentes apontam que não há evidências robustas de que a cannabis seja eficaz para tratar transtornos de ansiedade. Em muitos trabalhos, os resultados são inconclusivos ou de baixa qualidade metodológica, com amostras pequenas e curto tempo de acompanhamento.

Uma meta-análise publicada em revista científica de psiquiatria em 2024, que avaliou dados de milhares de participantes em diferentes países, não encontrou melhora consistente de sintomas de ansiedade em pessoas que utilizavam maconha. Isso em comparação com aquelas que não consumiam a substância ou que recebiam placebo. Em parte dos estudos, usuários frequentes relataram até aumento de nervosismo, sensação de inquietação e episódios de pânico, principalmente após o uso de produtos com alto teor de THC.

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Outro ponto que a literatura destaca é a diferença entre efeitos de curto e de longo prazo. Afianl, algumas pessoas relatam alívio imediato de tensão após fumar ou ingerir cannabis, o que pode reforçar a percepção de benefício. No entanto, no acompanhamento por semanas ou meses, muitas mostram pior controle da ansiedade, piora do sono e maior oscilação de humor. Assim, os pesquisadores sugerem que esse ciclo pode manter a pessoa dependente da sensação momentânea de alívio, sem enfrentar a raiz do problema.

O uso de maconha ajuda em outros transtornos de saúde mental?

Além da ansiedade, a maconha costuma ser associada, em debates públicos, a possíveis efeitos sobre depressão, transtorno bipolar, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e até sintomas de esquizofrenia. Para esses quadros, no entanto, as evidências também são consideradas frágeis ou desfavoráveis. Relatórios de agências de saúde atualizados até 2026 apontam que, no conjunto, a substância não se mostra eficaz como tratamento principal para essas condições.

No caso da depressão, estudos de coorte com acompanhamento de longo prazo identificaram maior incidência de sintomas depressivos entre usuários regulares de cannabis, especialmente quando o consumo começa na adolescência. Em vez de aliviar o quadro, o uso frequente apareceu associado a maior risco de isolamento social, queda de desempenho escolar ou profissional e piora de indicadores de bem-estar geral.

Já em relação ao transtorno bipolar, pesquisas clínicas sugerem que a maconha pode estar ligada a maior número de episódios de humor instável, inclusive surtos de euforia e irritabilidade. Em alguns estudos de TEPT, pessoas relataram melhora temporária de insônia e pesadelos, mas, no longo prazo, o uso contínuo foi associado ao aumento do risco de dependência, tolerância e dificuldades para se adaptar a terapias psicoterápicas convencionais.

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Quais são os principais riscos do uso de maconha para saúde mental?

As evidências científicas recentes indicam que o consumo de cannabis, sobretudo em uso prolongado e em altas doses de THC, pode estar relacionado a diferentes riscos para a saúde mental. Entre os efeitos descritos, aparecem alterações de memória, atenção e tomada de decisão, além de maior vulnerabilidade a alguns transtornos psiquiátricos em pessoas predispostas geneticamente.

Pesquisas populacionais apontam que o uso intenso de maconha, principalmente iniciado antes dos 18 anos, está associado a:

  • Maior risco de desenvolver sintomas psicóticos, como delírios e alucinações;
  • Agravamento de quadros de ansiedade e depressão já existentes;
  • Dificuldades de concentração e queda no desempenho cognitivo;
  • Maior probabilidade de abandono escolar e problemas no trabalho;
  • Dependência e síndrome de abstinência, com irritabilidade, insônia e alteração de apetite.

Estudos de neuroimagem sugerem que o uso frequente pode alterar áreas do cérebro envolvidas na regulação das emoções e na resposta ao estresse. Esses achados reforçam a preocupação com jovens e adultos que utilizam a substância de forma regular, acreditando em um efeito protetor sobre a saúde mental que não encontra respaldo consistente na literatura científica.

Como interpretar a diferença entre CBD e THC?

Grande parte da discussão recente separa o uso da planta inteira da utilização de compostos específicos, como o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabinol). O THC é o principal responsável pelos efeitos psicoativos, enquanto o CBD é alvo de pesquisas por possíveis propriedades ansiolíticas e anticonvulsivantes. Mesmo assim, para ansiedade e outros transtornos mentais, os dados ainda são considerados limitados.

Alguns ensaios clínicos com CBD isolado, em doses controladas e sob supervisão médica, mostram resultados promissores em situações específicas, como ansiedade de desempenho em contextos de fala em público. Porém, esses estudos envolvem protocolos rigorosos, produtos padronizados e acompanhamento profissional, cenário bem diferente do uso cotidiano de óleos, flores ou produtos de origem desconhecida comprados sem orientação.

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Já a maior parte dos produtos consumidos de forma recreativa contém quantidades variadas e, muitas vezes, elevadas de THC, o que aumenta o risco de efeitos indesejados, principalmente em pessoas com histórico pessoal ou familiar de transtornos psiquiátricos. Especialistas ressaltam que extrapolar achados preliminares com CBD para justificar o uso livre de maconha, em qualquer forma e dose, não encontra respaldo científico.

As evidências científicas recentes indicam que o consumo de cannabis, sobretudo em uso prolongado e em altas doses de THC, pode estar relacionado a diferentes riscos para a saúde mental – depositphotos.com / BiancoBlue
Foto: Giro 10

O que indicam as diretrizes de saúde até 2026?

Diretrizes atualizadas de sociedades médicas e órgãos de saúde pública têm convergido para uma orientação de prudência. Em geral, essas instituições não recomendam o uso de maconha como tratamento de primeira linha para ansiedade, depressão ou outros transtornos de saúde mental. As terapias com eficácia comprovada continuam sendo psicoterapia, medicamentos específicos e medidas de estilo de vida orientadas por profissionais habilitados.

Em países que regulamentaram o uso medicinal, as autorizações costumam ser restritas a indicações muito específicas e, mesmo assim, sob rígido acompanhamento. As evidências recentes reforçam a necessidade de que decisões sobre uso de derivados da cannabis sejam baseadas em dados científicos, monitoramento constante e avaliação individualizada de riscos e benefícios, evitando expectativas que não se sustentam na pesquisa disponível até o momento.

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