Saúde mental: às vésperas da vigência da NR-1, tema é plenamente estruturado em só 10% das empresas

Mapeamento do fórum HR First Class aponta quadro sobre o tema no Brasil; Previdência Social registrou mais de meio milhão de afastamentos por transtornos no País em 2025

9 abr 2026 - 12h12

A poucas semanas do início da vigência plena da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reconhece os riscos à saúde mental como parte dos riscos ocupacionais, as empresas no Brasil ainda apresentam um quadro insuficiente quando o tema é a manutenção de um programa corporativo estruturado sobre o tema.

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A partir de 26 de maio deste ano, por determinação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as companhias em operação no País terão de adotar ações para mapear e mitigar riscos que afetam a saúde mental dos trabalhadores, como estresse, assédio moral e excesso de carga de trabalho.

Apesar disso, apenas 10,7% das organizações no Brasil possuem uma estratégia de saúde mental plenamente estruturada, com programas integrados, mensuração e impacto contínuo nos negócios.

Como maiores obstáculos para avanço na agenda de saúde mental nas empresas, os entrevistados indicaram falta de métricas claras e capacidade de mensuração de investimentos (41,1%) e limitações orçamentárias ou disputa da agenda com outras prioridades (28,6%) dentro das companhias.

A falta de uma agenda mais amplamente consolidada nas empresas indica falta de inserção do tema na cultura corporativa, avalia o diretor executivo do HR First Class, Marcos Scaldelai, porta-voz da pesquisa. Isso significa, segundo ele, que a preocupação com a saúde mental ainda tem ficado restrita a um setor específico.

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"Infelizmente, (a alta liderança) acaba não colocando (o tema) como prioridade dentro das estratégias de negócios e tratam o assunto apenas como responsabilidade do RH. A saúde mental precisa estar inserida na cultura da empresa."

Sobre os obstáculos alegados, não há justificativas para apontar como barreiras a falta de orçamento e de apoio técnico para estruturar programas e medir resultados, acrescenta o especialista.

"Hoje, existem empresas que ajudam a construir o planejamento de saúde mental, e fazem isso com métricas claras para medir os resultados", diz. "É preciso começar. As empresas não fizeram ainda o básico: uma pesquisa para entender os riscos psicossociais, e custa caro não iniciar."

Impacto

As empresas mais maduras em seus programas de saúde mental já conseguem mensurar ganhos relevantes, segundo apontam seus representantes. Um total de 8,9% afirma reportar impactos positivos acima de 20% em indicadores de absenteísmo e presenteísmo (ausência e presença de colaboradores), produtividade e custos de saúde.

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De acordo com o estudo, as companhias que conseguirem transformar essas iniciativas em modelos de gestão orientados por dados e conectados ao negócio irão conseguir obter maior valor, tanto no que diz respeito à performance quanto à sustentabilidade da organização.

Marcos Scaldelai é consultor e fundador do HR First Class
Marcos Scaldelai é consultor e fundador do HR First Class
Foto: Fredy Uehara/Divulgação / Estadão

"Já é mais que comprovado que o risco é alto de não tratar o tema como estratégico. É perda direta nos resultados", afirma Scaldelai. "É muito caro o valor dos afastamentos e a falta de engajamento (dos colaboradores em virtude de questões de saúde mental)."

Em 2025, o Ministério da Previdência Social registrou mais de 546 mil afastamentos de trabalho por transtornos mentais e comportamentais. O número corresponde a um crescimento de 15,66% na concessão de benefícios da Previdência por incapacidade temporária em comparação com 2024.

As duas doenças com maior quantidade de ocorrências foram transtornos ansiosos (mais de 141 mil) e episódios depressivos (mais de 133 mil).

Considerando a urgência da norma NR-1 na prevenção e suporte ao problema, as empresas brasileiras precisam avançar na agenda, independentemente do porte ou perfil de segmento econômico em que atuam, aconselha o especialista.

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"Cada empresa tem que agilizar o conhecimento dos riscos psicossociais e colocar em prática um plano de ação que realmente faça a diferença. Se continuar pensando que a norma é só mais um protocolo e não sustentar algo que se amarre à cultura, a empresa vai pagar um preço alto."

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