Vandré Silveira fala sobre dois projetos marcantes: seu papel como o manipulador Edson na novela das nove e o monólogo 'A Hora do Boi', que reflete sobre a relação humana com a natureza e o impacto do capitalismo. O espetáculo, que trata de afeto e mudança, terá sua 100ª apresentação em Belo Horizonte, sua terra natal. 🎭
Com a palavra, Vandré Silveira!
Quem acompanha o folhetim das nove já sabe: Edson (Vandré Silveira) é um grande pilantra. Ele apareceu na vida de Carmita (Deborah Evelyn) cheio de sedução e promessas, mas, a cada capítulo, ficava mais óbvio que havia algo de muito errado nessa história. "Eu e a Deborah entendemos que havia um desejo real ali, uma relação fogosa. O desafio foi buscar essa química, que fluiu maravilhosamente em cena. A Deborah é uma grande atriz e nos divertimos muito gravando juntos", revela o ator.
Para além da novela, ele segue estrelando o monólogo teatral A Hora do Boi, que reflete sobre a relação tóxica do ser humano com a natureza. Em entrevista exclusiva à MALU, o artista conversou sobre esses dois projetos.
O que podemos esperar do Edson daqui para a frente?
"O Edson usa muitos argumentos para convencer e conquistar a confiança da Carmita. Ele recorre à suposta doença da esposa — que nem sabemos se existe — para justificar o sigilo da relação e se coloca como um homem ético. Além disso, finge ser rico, transmitindo uma imagem de segurança. Nos últimos capítulos, ele a manipulou ainda mais para alcançar seu objetivo, que foi aplicar um golpe financeiro."
O que a maturidade trouxe para o seu trabalho como ator que o Vandré do início da carreira ainda não tinha?
"Penso que a maturidade traz a apropriação de si mesmo — um encaixe, um autorreconhecimento e uma aceitação. Isso é libertador, porque a tendência é parar de se comparar com os outros e encarar a beleza da sua singularidade. Nesse sentido, meu trabalho amadureceu porque passei a exercitar um lugar de tranquilidade, com uma presença que se abre para o outro em uma escuta verdadeira e sem medo."
O monólogo A Hora do Boi aborda temas urgentes, como a exploração animal e a nossa relação com a natureza. Como surgiu o desejo de usar a arte para propor essa reflexão sobre o nosso impacto no planeta?
"O espetáculo surgiu do desejo de falar sobre o afeto. A partir da relação entre o Seu Francisco e o boi Chico, discutimos a equivocada visão de superioridade humana sobre as outras espécies. O Seu Francisco se afeiçoa ao boi que salvou no nascimento, mas que precisará abater a mando do patrão. É um texto que mostra como o capitalismo objetifica o homem e enxerga o animal apenas como fonte de proteína. Somente o afeto que ambos descobrem possibilita uma mudança de destino — o amor como revolução. Como artista, escolho projetos que gerem reflexão e contribuam para ações concretas rumo a uma sociedade mais justa, que respeite todos os seres e o planeta."
Em agosto, o espetáculo cumpre temporada no CCBB de Belo Horizonte, sua cidade natal. Qual é o peso emocional de apresentar um projeto tão íntimo e pessoal para o público da sua própria terra?
"Estou muito feliz em retornar à minha cidade natal com esse trabalho tão especial. O último espetáculo que apresentei lá foi O Homem Elefante, em 2016. Faz dez anos que não piso em um palco belo-horizontino! Além disso, vamos completar a centésima apresentação da peça justamente no dia da estreia no CCBB BH, após seis temporadas de sucesso no Rio de Janeiro e em São Paulo. São muitos motivos para comemorar!"