Se pudesse conversar com o adolescente que conciliava estudos com trabalhos como garçom e monitor de festas para ajudar nas despesas de casa, Douglas Rocha Almeida daria um conselho direto: continuar.
Filho de uma diarista e de um pedreiro, ele tomou posse nesta terça-feira (20) como diplomata de carreira do Ministério das Relações Exteriores (MRE), aos 31 anos. E não foi só isso, na última quarta-feira (14), o rapaz viveu outro momento simbólico ao lado da mãe, Francisca Aparecida Rocha. Os dois foram recebidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no Palácio do Planalto.
Nascido no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), na Asa Sul, Douglas cresceu em Luziânia (GO), no Entorno do Distrito Federal, onde vive até hoje. Para ele, a conquista é resultado da soma entre esforço pessoal, acesso à educação e políticas públicas que fizeram diferença ao longo de sua trajetória. Mesmo durante o trabalho, o estudo nunca ficou de lado. "Eu anotava o pedido do cliente, mas do lado eu já tinha anotado a revisão de coisas para faculdade", contou em entrevista ao g1.
O caminho até o Itamaraty exigiu resistência. Douglas enfrentou um dos concursos mais concorridos do país: foram 8.861 inscritos disputando apenas 50 vagas, uma média de 177 candidatos por posto. Ele terminou em 47º lugar na classificação geral e ficou em terceiro entre os candidatos negros dentro do sistema de cotas. A nomeação oficial foi publicada em dezembro.
Douglas Almeida e a promessa feita à mãe
Ao falar da infância, Douglas destaca o papel central da família. Ele recorda a casa erguida pelo próprio pai, pedreiro, no bairro Parque Industrial Mingone, em Luziânia. As manhãs começavam cedo. O cheiro do alho refogando anunciava que Francisca Aparecida, ou simplesmente Cida, já estava preparando a comida antes de sair para mais um dia de trabalho como diarista.
Mesmo após a jornada pesada, ela ainda encontrava forças para acompanhar os estudos do filho. "Ela fez só até a terceira série. E mesmo chegando depois do trabalho, além de ter de cuidar da casa, ela ainda tinha o cuidado de me ensinar um pouco com o que ela sabia", relembra ele.
Naquela fase, ele ainda não conhecia a carreira diplomática, mas já alimentava um desejo que se transformaria em compromisso. "Minha mãe trabalha como diarista desde os 13 anos. São 40 anos nessa profissão, que é digna, mas muito cansativa. Prometi para ela que, quando eu passasse nesse concurso, ela não precisaria mais trabalhar como diarista", conta.
A mãe confirma que sentia esse propósito no dia a dia. "Teve dias que eu chegava chorando de dor. Quando ele me via, parava de estudar e vinha me abraçar. Eu sentia no meu coração que ele pensava: 'Vou tirar minha mãe dessa'", diz ela.
Agora, Douglas planeja criar um espaço de lazer para que a mãe possa alugar, garantindo uma nova fonte de renda e encerrando a rotina exaustiva como diarista.
Rotina exaustiva e longas distâncias
Aos 15 anos, ao ingressar no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, no Plano Piloto, Douglas passou a enfrentar deslocamentos diários de mais de 80 quilômetros entre casa e escola. A rotina se manteve até a faculdade, quando conquistou uma bolsa na Universidade Católica de Brasília (UCB).
"Acordava às 5h, pegava ônibus às 6h, fazia aula de manhã, curso de idiomas à tarde e faculdade à noite. Chegava em casa meia-noite. Dormia quatro horas por noite", relata. A decisão de se dedicar ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) veio após a morte da irmã, Tainá. "Aquilo me fez pensar se valia a pena uma rotina tão exaustiva sem um propósito maior", afirma.
A partir daí, a diplomacia deixou de ser distante. Douglas iniciou os estudos focados para o Instituto Rio Branco em 2021, após concluir o mestrado. Nos períodos mais intensos, conciliando trabalho e preparação, o descanso era mínimo. "Teve semestre em que eu dormia quatro horas por noite. E, no fim do semestre, juntando tudo, dormia 12 horas na semana inteira", conta.
Educação pública e políticas afirmativas
Douglas faz questão de destacar o impacto das políticas públicas em sua formação. Ele cursou a graduação com bolsa integral pelo ProUni, fez licenciatura em letras espanhol na Universidade de Brasília (UnB) e estudou inglês e francês no Centro Interescolar de Línguas (CIL).
Em 2022, também foi contemplado com uma bolsa do Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco, que concede R$ 30 mil a candidatos negros com bom desempenho, mas que não conseguiram aprovação naquele momento.
Durante a infância, a família contou com o Bolsa Família, e, na pandemia, a mãe recebeu o Auxílio Emergencial. "As políticas públicas foram muito importantes para a nossa formação, mas também para a nossa subsistência", afirma.
No futuro, Douglas sonha em se destacar na formulação da política externa brasileira, mas acredita que sua origem será um diferencial na carreira. "Acredito que por ter trabalhado com o público por muito tempo, isso pode acentuar a sensibilidade para atuar com pessoas em situação de vulnerabilidade [no exterior], passando por xenofobia, discriminação. [...] E também acho que posso ajudar a negociar com um olhar mais humano", afirma.
Para ele, sua presença no Itamaraty carrega um significado coletivo. "É importante que a gente tenha um Itamaraty mais plural, com mais mulheres, mais pessoas com deficiência, mais negros, para uma maior representatividade da população brasileira."